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Nós vimos II: Jornada da Alma
Por Eloyr Pacheco — Quarta, 1 de dezembro de 2004
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Animus e anima
Jornada da Alma (Soul Keeper, 2002) suscita a discussão sobre o romance clandestino entre o Dr. Carl Gustav Jung (1875-1961) e sua ex-paciente Sabina Spielrein (1885-1942). Para criar mais polêmica, torna claro o conhecimento destes fatos por parte do Dr. Sigmund Freud (1856-1939).
O filme Jornada da Alma é baseado no livro Um método muito perigoso: Jung, Freud e Sabina Spielrein – a história ignorada dos primeiros anos de psicanálise (Imago Editora – 1997), de John Kerr. Obra que já havia sido fonte em 2003 para a montagem da peça The Talking Cure no Royal National Theatre de Londres, tendo Ralph Fiennes (Dragão Vermelho, O Paciente Inglês, Lista de Schindler) como Jung.
Dirigido por Roberto Faenza, Jornada da Alma começa com a internação da jovem Sabina (Emilia Fox) num hospital psiquiátrico em Zurique. Caso complicado (histeria, tendência suicida e recusando-se a se alimentar), Sabina, assim como os demais pacientes da entidade, sofrem bastante com os métodos antiquados e até mesmo medievais empregados pelos médicos. Compadecido com o seu caso, Jung (Iain Glen) decide ajudá-la. Adotando novos métodos, que discutia através da troca de cartas com Freud, consegue depois de muita insistência e, sobretudo, paciência, curar sua paciente. Depois de receber alta, longe do hospital, procurando levar uma vida normal, Sabina não consegue se manter afastada do seu médico até que ambos se apaixonam.
A relação entre Jung e Sabina, e o impacto causado sobre seu casamento com Emma (Jane Alexander); a recuperação de Sabina até o momento em que ela, depois de voltar para a Rússia pós-revolução, e fundar a Escola Branca – a primeira a utilizar métodos modernos de ensino –, dão norte ao filme. Em determinados momentos Jornada da Alma adquire o formato de documentário, o que, às vezes, torna-se desagradável. Por vezes, Faenza insere cenas reais para narrar e, possivelmente, dar credibilidade à trama, enfatizando assim que se trata de uma história real. Em trama paralela mostra também os pesquisadores que descobriram em 1977 nos porões do Palácio Wilson, antigo Instituto de Psiquiatria, em Genebra, as cartas e o diário que registram o polêmico romance entre Jung e Sabina. Quase no final, num belo momento do filme, mostra o encontro entre os pesquisadores e um dos ex-alunos da Escola Branca que conta uma história comovente realçando o valor da professora assassinada pelas forças nazistas em 1942.
O filme, embora muito bem realizado, peca pela superficialidade. Apresenta-se simplesmente como uma história de amor. Não mostra a força que Sabina Spielrein exerceu sobre os dois grandes psicanalistas, embora possa vir a ajudar a abrir uma discussão mais profunda sobre esse assunto, pelo menos entre o público leigo. Hoje, quase trinta anos da descoberta das cartas, sabe-se, por exemplo, que Sabina deve ter sido o motivo do rompimento entre Jung e Freud, e que muitas das teorias debatidas e até adotadas pelo Dr. Jung podem ter se originado de idéias da “ex-louca”.
Jornada da Alma, embora lançado em 2002, somente agora está sendo distribuído no Brasil pela Paris Filmes/Lk-Tel, em circuito alternativo. Procure informar-se.
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