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Como fugir do lugar-comum?
Por Eloyr Pacheco — Sexta, 26 de novembro de 2004
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(ou, As referências vazias II)
De maneira não assertiva, sem querer generalizar, o problema da maioria dos que desejam escrever e desenhar Histórias em Quadrinhos é a falta de uma ampla visão das artes (pintura, cinema, teatro...).
Muitos dos desenhistas que a mim são apresentados querem fazer HQ de super-herói. Por que não, simplesmente, fazer HQ seja-lá-de-que-gênero-for? Sempre que sou questionado sobre a existência de um mercado de HQs no Brasil, recebo a indagação formulada de maneira capciosa. O que se quer saber de fato é se existe mercado para super-heróis brasileiros. Gostaria de deixar claro que sou fã do gênero. Sempre respondo a essa pergunta dizendo que o mercado brasileiro de HQs tem espaço garantido e muito bem estabelecido por artistas como Mauricio de Sousa, Ziraldo, Glauco, Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai, Lourenço Mutarelli, mencionando apenas os que vêm à minha cabeça agora.
Retornando ao primeiro parágrafo, os que conspiram para me induzir ao erro, querem fazer HQ de super-herói e buscam referência em obras produzidas por Jim Lee, Todd McFarlane, Joe Quesada, John Romita Junior e outros da nova geração. Tudo bem, tudo bem! Reconheço o talento desta turma, mas esses caras (com todo o respeito) beberam em fontes que criaram a indústria dos quadrinhos. Que tal pesquisar o trabalho de Jack Kirby, Will Eisner, Steve Ditko, John Romita e John Buscema, por exemplo? E que tal ir ainda mais fundo e conhecer o trabalho de Harold Foster, Alex Raymond, Russ Manning e Milton Caniff?
Alexandre Maron já escreveu aqui sobre “as referências vazias”. Concordo com meu colega em gênero, número e grau. A busca que sugeri vai mostrar ao interessado em fazer HQs que “o buraco é mais embaixo”. Conhecendo melhor as bases clássicas dos quadrinhos, melhor se entenderá o porque, por exemplo, de no final dos anos 1980, início dos anos 1990, ter havido uma supervalorização do visual em detrimento ao roteiro. Hoje, essa tendência está sendo desprezada e busca-se um equilíbrio entre o roteiro e a arte. O que, ao meu ver, é primordial. Um complementa o outro e ambos se unem para contar uma história, a mesma história. E que essa história, de preferência, valha a pena ser contada.
Esse mesmo “fazedor” de HQ que só conhece os artistas da atualidade, resolve ir ao cinema e só assiste (filmes que também adoro) Hellboy, Homem-Aranha, Hulk, Demolidor e companhia. Aí sai discutindo enquadramento, plano seqüência, close... E se ele também fosse assistir a um filme francês (Lado Selvagem, por exemplo) ou um filme italiano (Jornada da Alma, por exemplo) e pensasse na diferença entre as escolas de cinema? Certamente isso seria produtivo, pois poderia lhe oferecer outra visão da Sétima Arte. Não estou aconselhando a não assistir as adaptações de quadrinhos para o cinema, estou dizendo que além destes filmes também se deve ver outros gêneros para poder traçar paralelos e, em vez de simplesmente “copiar”, poder “criar” a partir dessas comparações.
Há um filme que eu gosto muito, O Silêncio do Lago (Spoorloos, 1988) . A versão original, dirigida pelo diretor francês George Sluizer, é simplesmente sensacional. “Os americanos” (generalizar assim é intrigante e dá um ar preconceituoso ao termo, não?) fizeram a versão deles de O Silêncio do Lago (The Vanishing, 1993) com Jeff Bridges, Kiefer Sutherland e Sandra Bullock. Elenco de primeira, não é mesmo?! Só que decidiram criar um novo final, um final “super-herói”, diria eu. Legal seria assistir aos dois filmes no mesmo dia e entender os porquês das opções. “Os americanos” copiaram literalmente tomadas e seqüências inteiras do original e depois, simplesmente, estragam o filme, não se contentando somente em refilmá-lo. Depois dessa comparação, pelo menos o exemplo de dois finais distintos para uma história poderão ser analisados (e questionados). Eu fico com o final do original. Não vou entregar o jogo. Se você ficou interessado, procure assistir. Se quer fazer roteiro, vá atrás.
E, no final, observe nos créditos que o diretor das duas obras é o mesmo! (?) Mais um porquê para você pensar!
“Eu não vim para explicar, vim para confundir!” – Chacrinha
Tchau! Até semana que vem.
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