- Colaborador: Celso Freixo
Blueberry na Garagem Hermética de Moebius
Fugindo da linha super-heróis, o cinema mostra que também pode adaptar outros tipos de Histórias em Quadrinhos, como foi o caso de Estrada para Perdição, estrelado por Tom Hanks, adaptado da obra de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner. Desta vez o cinema francês nos oferece Blueberry – Desejo de Vingança (Blueberry, 2004), um western diferente do que costumamos ver produzidos pelos cinemas americano e italiano. As HQs de Blueberry também são bastante diferentes dos conhecidos Tex e Ken Parker, quadrinhos produzidos na Itália e atualmente publicados no Brasil pela Mythos Editora e Tendência Editorial, respectivamente.
Blueberry, inicialmente publicado na revista
Pilotè, foi criado em 1963 por
Jean-Michel Charlier (1924-1989) e
Jean Giraud, quando este assinava somente Gir e não era conhecido apenas por Moebius. Os traços de Blueberry foram emprestados do ator francês
Jean-Paul Belmondo. O uso de referências desse tipo, verdadeiras homenagens dos desenhistas aos seus ídolos, é muito comum nos quadrinhos.
Mike Steve Donovan, o Blueberry, teve seu apelido explicado na HQ
A Juventude de Blueberry. Na verdade não se trata de um apelido, como muitos podem pensar. O nome Blueberry surge por inspiração da fruta exótica mirtilo
(vaccinium asbey read) quando Mike tem de inventar um sobrenome para se identificar depois de ter sido injustamente acusado de assassinato.
No Brasil, Blueberry foi pouco publicado. Apareceu pela primeira vez em 1976 quando a
graphic novel O Homem da Estrela de Prata foi publicada pela Editora Abril. Depois disso, só retornou em 1980 pela Vecchi com
Fort Navajo e
Tempestade no Oeste. Exatos dez anos depois, voltou pela Abril com as republicações de
Forte Navajo – este na edição número 21 da coleção Graphic Novel (setembro de 1990) – e
A Tempestade no Oeste (outubro de 1990), seguidas por
Águia Solitária (novembro de 1990);
O Cavaleiro Perdido (dezembro de 1990) e
A Pista dos Navajos (janeiro de 1991), todos em cores. Retorna, também pela Abril, com a republicação de
O Homem da Estrela de Prata (março de 1992) e, na seqüência, vêm
O Cavalo de Ferro (abril de 1992);
O Homem do Punho de Aço (maio de 1992), e
A Pista dos Sioux (junho de 1992), todos em preto e branco. É de se estranhar que um título tão pouco publicado no Brasil tenha tido tantas republicações de determinadas histórias.
Dirigido pelo diretor francês Jan Kounen e estrelado por Vincent Cassel (O Pacto dos Lobos, Rios Vermelhos), Blueberry – Desejo de Vingança tem como base de inspiração as graphics novels A Mina do Alemão Perdido e O Espectro das Balas de Ouro, inéditas no Brasil. Inspiração remota, diga-se de passagem.
No filme, Blueberry é criado por um povo indígena e, já como xerife, sua vida tem uma grande reviravolta quando um homem chamado Wally Blount, interpretado por Michael Madsen (Kill Bill), aparece procurando por um tesouro perdido, uma verdadeira lenda, além de trazer de volta lembranças que Mike havia procurado esquecer. Blueberry deixa de ser um “far west” e, da metade em diante, se torna um tipo de filme que pode lembrar uma outra famosa obra de Moebius, a “psicodélica” A Garagem Hermética. Isso pode desagradar os fãs de filmes de cowboys, aqueles que reconhecem o mocinho pelo chapéu branco e o bandido pelo chapéu preto. Mas é exatamente essa mudança que faz de Blueberry – Desejo de Vingança um filme diferente, até certo ponto surpreendente. As cenas de viagens no plano astral depois de rituais xamânicos são longas e cansativas, podiam ser menores, o que faria com que o filme ganhasse um ritmo mais “explosivo”. O grande mérito de Blueberry é ousar em um tema quase sempre recorrente. Jan Kounen jogou fora a velha fórmula do “bang-bang”.