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Cinema no Divã – Parte I
Por Maria Luiza Porto — Terça, 23 de novembro de 2004
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O ser humano quer falar; cansou de fazer média, de se esconder e se camuflar em máscaras e hábitos. O homem está exorcizando seus demônios de forma quase direta, sem interferência ou ruído, através dos meios de comunicação. Películas que parecem recém saídas de uma conversa sussurrada ao pé do ouvido, de um indigesto sonho revelador, de anos de divã. Um cinema catártico, libertador, que expõe o lado mais entrópico do ser humano, the wild side, quase como se quisesse dizer: é isso mesmo, nós somos assim e você não é diferente. Desataram os rabos que estavam presos.
Não é necessário ir muito longe para encontrar películas que ilustrem esse pensamento. Comecemos, então, com as que estão em cartaz, como por exemplo: Má Educação de Pedro Almodóvar. Preciso dizer logo que não morri de amores pelo filme; Gael Garcia Bernal está ótimo (tão pequenino que poderia ter interpretado seu personagem também na fase infantil), mas confesso que foi Fele Martínez, de Amantes do Circulo Polar (lindo filme, por sinal), quem me cativou, como também o impagável Javier Câmara (Benigno de Fale com Ela) no delicioso papel do travesti Paquito. A película escancara o homossexualismo (com cenas tórridas que fazem qualquer “machão” desavisado suar na platéia) e dá extrema unção à igreja católica, que deve ser o personagem mais denegrido do panorama cinematográfico atual.
Mas, o filme inventou tanto que enrolou o carretel (como se não bastasse toda a rubra intensidade almodoviana). É história dentro de história e personagem que aparece de um lado e some do outro... deu preguiça; de informação em demasia já bastava ter visto Gael travestido e passivo. No entanto, apesar de ter decepcionado, provavelmente deve ter sido seu filme mais autêntico - Pedro já tem status o suficiente para não ter que prestar muita satisfação. Ele sempre desconstruiu o amor explorando as várias formas de sexualidade: homossexuais, héteros, amores platônicos, deficientes físicos, crianças, pedofilia, sado-masoquismo... isso tudo bem “desavergonhadamente”. Para a nossa sorte.
Toda a polêmica criada em torno de seus filmes se dá exatamente porque Almodovar não tem medo de expor o homem. Seus densos personagens, muitos beirando patologias, são mostrados de forma tão desnuda que qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência. O cinema virou uma grande terapia em grupo.
Podemos dizer que o cinema atual se contrapõe diretamente com os lineares tipos de filmes feitos na década de 50, com suas “bonequinhas de luxo” cantantes. Ele está do outro lado da tela; nós, os espectadores, é que somos o próprio espetáculo. Hoje em dia o cinema fala; fala de traumas, de complexos, de segredos. Ele está mais antropológico do que nunca, ilustrando a luta constante do ser humano para conseguir entender a si próprio. Talvez nunca consigamos realizar de fato essa proeza, mas nesse caso o mérito é nosso apenas por tentar.
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