 |
Nós vimos III: Má Educação
Por Édnei Pedroso — Terça, 23 de novembro de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Almodóvar manda.
Infalível como poucos na arte de contar uma história incômoda, o diretor Pedro Almodóvar se supera a cada trabalho. Sua fama o precede de tal modo que, quando nos referimos a um filme dirigido pelo espanhol, usamos aquela velha expressão “o novo do Almodóvar”, sinalizando que, se Pedro estiver por detrás das lentes, o projeto será, no mínimo, ótimo.
O filme Má Educação não deixa por menos. No roteiro brilhante de Almodóvar, que se mescla em flashback reais e ficção, não há beiradas para sentimentalismo barato. Um cataclismo de emoções puras como amor, paixão, ambição e perda bombardeiam a tela em meio às lembranças de Ignácio e Enrique, dois amigos de infância que se amavam de uma forma avassaladora e, ao mesmo tempo, sutil. Até o dia em que o tutor dos garotos e diretor do colégio interno onde estudavam, resolve expulsar Enrique do lugar, separando-os por 16 anos.
Com os dois protagonistas de vida já feita, o reencontro cai como uma bomba na vida de Enrique Goded ( Fele Martínez, em atuação convincente ), hoje um diretor de cinema, quando este recebe a visita de seu primeiro amor, um modificado e endurecido Ignácio ( Gael Garcia Bernal, esse aí vai longe ), que procura emprego como ator e um produtor para seu roteiro com o nome “A Visita”, baseado na infância de ambos.
Daí para frente é uma festa cinematográfica. Além de tomadas fabulosas ( como a do jogo de futebol, por exemplo, sem contar uma das cenas mais clássicas que já vi: a da máquina de escrever ), o diretor têm o hábito de explorar as atuações ao zênite, arrancando leite de pedra de Victória April, por exemplo, na maioria de seus filmes. Este, no entanto, não tem sua atriz predileta, e sim, a presença certeira de Garcia Bernal, muito a vontade no papel principal. Claro que a ala feminina não poderá desfrutar de todo da imagem do galã mexicano ( sim, ele é mexicano ), pois o ator aparece travestido na maior parte do filme, porém, sem deixar de produzir uma atuação impecável, apoiada por um elenco escolhido a dedo. O ator Javier Cámara, que havia trabalhado com Almodóvar em Fale com Ela também destila uma excelente interpretação no papel de Paquito, “amiga íntima” de Zahara, o alter ego do já adulto Ignácio. Os garotos que fazem as vezes de Ignácio e Enrique ( Nacho Pérez e Raul Garcia Forneiro respectivamente ) no colégio católico, também dão uma aula na interpretação.
O roteiro, envolvente como há muito não se via por aí, alterna com sensibilidade entre o amor inocente, de nuances andróginas, e a paixão desenfreada, de violência e selvageria explícitas. Do tipo que faz o cinéfilo sair do cinema pensando por um longo tempo. A história providencia também um gancho para um assunto no qual muita gente ainda joga água fria, mas que já virou ponto comum em muitas narrativas: o abuso sexual infantil por parte dos padres. De uma forma implícita e explícita ao mesmo tempo ( só Pedro Almodóvar para conseguir algo assim, em Fale com Ela vimos algo similar, pois o diretor só deu a entender que Benigno abusou de Alicia, mas não mostrou o fato, pessoalmente tenho dúvidas até hoje ), seguimos o destino insólito de Ignácio, atribuído aos abusos e perdas sofridas graças ao seu professor de literatura, o Padre Manolo ( Daniel Giménez Cacho, competente como o restante do elenco ).
Com um elenco afiado e um excelente roteiro, só faltava a direção de Pedro Almodóvar para coroar o chantilly, certo? Como é ele quem dá as cartas, então podemos chamar Má Educação de um filme completo. Sem dúvida, uma produção nauseante para quem não a ver com os olhos certos e poderosa para os verdadeiros fãs de bons filmes.
Se me perguntarem por aí, direi que é “o melhor Almodóvar que já vi”.
|
 |