Zahara, Angel, Juan. Três faces de uma mesma personagem, interligadas por aquela que pode se dizer o motor de todo o filme: Ignácio. É por Ignácio que Padre Manolo se apaixona, e é por Ignácio que Enrique se apaixona e é expulso da escola. E o sexo, junto com o amor, pode-se dizer o segundo motor da história. É por luxúria que Padre Manolo, mais tarde Sr. Berenguer, abusa de Ignácio, é por amor que, ainda criança, Ignácio se deixa ser abusado em troca da não expulsão de seu amante Enrique.
A Má Educação é pesado, fica na cabeça muito depois de assistido, é brutal, e violento também, mas ainda assim, mesmo com todas as cenas fortes, aquilo que não é mostrado, os sentimentos de raiva, de inveja e de crueldade, fazem um impacto maior. Fazem com que aquele que está assistindo ao filme sinta-se de certa forma violentado. A raiva de Juan, irmão de Ignácio, seu mórbido jeito de fazer tudo que é necessário para atingir o que quer, de se usar do próprio corpo para brincar com os sentimentos de Sr. Berenguer e Enrique. E, através de Juan, muito da história fluí, conforme ele equilibra ao seu redor os três triângulos amorosos da história.
Os flashbacks na forma de um filme, baseado em um conto escrito pelo próprio Ignácio, são utilizados de forma fantástica: ao fim, há a sensação de que a realidade do filme em si mistura-se à ficção do filme dirigido por Enrique, e os dois tornam-se totalmente dependentes. Este é um dos maiores trunfos do filme, conseguindo unir o passado ao presente. Ao mesmo tempo em que se sente o horror do abuso de Ignácio pequeno, vê-se a raiva do garoto crescido, indo atrás de vingança, procurando, através da chantagem, construir seu corpo de mulher e buscar por Enrique.
Não deixa de ser irônico que a única coisa próxima do que pode se caracterizar de “bom” é exatamente algo visto como nojento, no senso-comum: o amor entre dois homens – Ignácio e Enrique. Mas não deve se cometer o erro de tentar em algum momento ver
A Má Educação em termos de bem e mal, pois outra das qualidades do filme é justamente o diretor manter-se alheio a conceitos como esses. Não importa quão horrível é um padre abusar de um garoto, Almodóvar não coloca nenhum julgamento de moral em cima do homem. Por outro lado até, ele mostra Padre Manolo, anos mais tarde, já como o Sr. Berenguer, em uma posição inversa: no início, era ele quem mantinha o controle e se aproveitava de alguém; conforme a história se desenrola, o papel dele muda, e passa a ser a vítima de manipulações e enganações.
Somando-se a isso tudo há todos os outros aspectos que fazem de um filme um filme excelente. Na trilha sonora, Alberto Iglesias, o mesmo de Fale com Ela, sabe usar a música para dar o tom certo para cada cena. O som muda quando está sendo feito o filme baseado no conto de Ignácio ou quando está sendo mostrada a vida “real”. A abertura e o final, em especial, ficaram perfeitos, preparando para o filme à frente e depois encarregando-se de aumentar o impacto da cena final. A trilha, por sinal, é claramente influenciada por clássicos como Psicose.
A atuação de Gael se destaca, o ator deve fazer três personagens, um deles de sexo diferente. É muito interessante perceber que tanto Zahara, o travesti que também é a “femme fatale” do filme, quanto Angel repartem características muito semelhantes, mesmo sendo personagens bastante diferentes entre si. Fele Martínez também está muito bem vivendo Enrique Goded, assim como Javier Camara, que trabalhou com Almodóvar no último filme do diretor, Fale com ela.