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Entrevista com Sam Hart
Por Thiago Augusto — Quarta, 17 de novembro de 2004
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Sam Hart, artista britânico que chama o Brasil de lar. Este jovem artista de várias frentes trocou algumas palavras e muita experiência com o pessoal do SoBReCarga acerca de seus trabalhos, mercado editorial, produção de HQs e, é claro, da revista Kaos!, novo título da Editora Manticora, que acredita na produção nacional. Confiram:
SoBReCarGa - A mais básica de todas as perguntas: porque escolheu os quadrinhos como meio de expressão?
Sam Hart - Aos seis anos olhei pra uma revista do Super-Homem e disse: vou fazer isso! Acho que foi a mídia q parecia mais interessante para criar mundos, voar, ir pro futuro e para outras dimensões. Eu lia muitos livros na época, mas com quadrinhos você podia VER.
Como você buscou então concretizar (estudos) essa sua busca para construir seus mundos, suas histórias?
Meus estudos foram copiar tudo que via: quadrinhos, ilustrações, pessoas, vivia fazendo caricaturas dos professores e lia todos aqueles livros de como desenhar e fazer desenho animado. É claro que, apesar de já não “copiar mais desenhos de outras pessoas”, continuo aprendendo o tempo todo. É mais ou menos aquela situação da adolescência, que você acha que sabe tudo, já sacou tudo, aí você cresce e percebe que ainda falta muito para chegar na metade do caminho.
Mas onde entra o David Loyd?
Bem, quando fui pra Inglaterra em 95, fui conversar com um cara que conheci em uma das Bienais no Rio, o Paul Gravett. Ele participava da Cartoon Art Trust, uma organização que fazia exposições de charges políticas, e tinha acabado de "absorver" a velha escola de quadrinhos do David Lloyd, o Portobello Trust. Como eu estava com muito tempo livre, e o Paul precisava de voluntários para montar e desmontar exposições, então passei uns 4 ou 5 meses ajudando lá, em troca de aulas. Tinha de modelo vivo, ação (com Al Davison, um ótimo desenhista, que fez várias coisas pra Vertigo), e uma vez por mês o David Lloyd vinha dar uma olhada nos portifólios, fazer os comentários de "mestre".
Boa troca! Trabalho braçal por conhecimento!
Foi a única época em que fiz aula de desenho, mas foi muito bacana.
Um tópico interessante: é válido estudar quadrinhos?
Com certeza. É possível aprender sozinho, mas os quadrinhos têm tantos elementos (roteiro, desenho, narrativa, tempo perspectiva, anatomia, design, etc) que aulas podem ajudar a perceber e a encontrar caminhos.
Bom, todo mundo sabe que você nasceu na Inglaterra, mas escolheu o Brasil como lar? Por quê? E juntando outra pergunta, não seria mais fácil publicar lá fora do que aqui, onde o mercado editorial é retraído?
A resposta mais fácil e honesta à primeira parte: apesar da chuva torrencial que cai hoje, não tem como não adorar as praias, as montanhas, o sol e as mulheres daqui. Além do mais, as pessoas são muito mais amigáveis. E a resposta da segunda parte: não troco toda a segurança econômica do mundo pelas coisas que citei na primeira resposta.
Mas se for olhar a situação dos quadrinhos na Inglaterra, tem quase a mesma dificuldade de ganhar a vida com essa profissão: somente há duas ou três revistas regulares que pegam trabalho pago, uma ou outra revista que publica HQs de vez e quando, e a grande maioria dos desenhistas e roteiristas estão correndo atrás de possibilidades. E se for olhar a situação dos quadrinhos na Inglaterra, tem quase a mesma dificuldade de ganhar a vida com essa profissão: somente há duas ou três revistas regulares q pegam trabalho pago, uma ou outra revista que publica HQs de vez e quando, e a grande maioria dos desenhistas e roteiristas estão correndo atrás de possibilidades.
Há uma diferença na facilidade de publicar um fanzine ou revistas de baixa tiragem, lá é muito mais barato e pode pagar em 60 dias, etc. Mas também não dão lucro o suficiente para pagar o aluguel, então desenhista faz ilustração, roteirista trabalha com publicidade, igual aqui.
O que você disse é verdade e conhecimento de causa, afinal você tem vários trabalhos publicados aqui no Brasil. Como começou a pintar trabalho?
O primeiro trabalho de desenho pago que fiz, o qual me lembro, foi aos 14 anos. Eu tinha conhecido um desenhista, Régis Rocha, num lançamento da revista Circo e mostrei meu portifólio pra ele. Dois meses depois, ou algo assim, ele sofreu um acidente de moto e precisava de alguém pra ajudar com arte-final da seção de passatempos da revista infantil Cuca, fiquei uns 6 meses ajudando ele. Depois fiz fanzine na escola, na faculdade, fiz ilustração pro Jornal da USP, trabalhei com desenho animado, pintei parede...
Os trabalhos pagos de HQ foram pintando aos poucos e somente agora estão vindo num ritmo mais constante. Durante os últimos 5 anos fiz muita ilustração para revistas de todo tipo: Superinteressante, Nova Escola, Revista da Casa de Cultura de Israel, etc, e aos poucos fui conseguindo fazer HQs com maior freqüência: Aventuras na História, revista Dragão, D20Saga, Kaos!, Tropas Estelares e a Front.
Você citou algumas publicações de RPG, dá impressão que elas estão preenchendo uma lacuna editorial que as antigas revistas nacionais deixaram, digo, quanto a dar chance de novos artistas e profissionais conseguirem publicar seu trabalho?
Concordo com você. Os universos de RPG parecem muito apropriados para quem faz HQ, graças aos muitos elementos em comum, de drama, suspense, aventura, personagens marcantes, visuais fantásticos, e graças a muitos editores essas formas narrativas têm conseguido conviver nas revistas.
Alias, não só em revista, mas também em livros você tem seu trabalho publicado, não é verdade?
Livros, poucos. Fiz ilustrações pra um livro juvenil da Companhia das Letras faz muito tempo, e publiquei em um livro de RPG da Editora Daemon. Mas fiz algumas capas de revistas pornôs (de qualidade plástica, diga-se de passagem!) para a editora Sampa.
Acho importante variar os trabalhos, os tamanhos, as mídias, as técnicas para não estagnar e aprender o máximo possível. Afinal, todos temos data de validade!
Com foi sua participação na Front?
Comecei a participar do Front depois que um projeto pessoal não foi pra frente. Eu já estava no grupo on-line fazia algum tempo, depois de um convite do Daniel Bueno, com quem estudei na faculdade, mas não tinha tempo para participar das discussões e feitura de HQs. Quando o projeto deu pra trás, estava sobrando tempo e energia, e entrei de cabeça. Conheci muitas pessoas legais e aprendi uma porrada de coisa sobre o processo editorial, já que o Front quem faz são os próprios autores. Todas as histórias são debatidas no grupo on-line, os roteiros, os desenhos, depois a seleção das histórias, dos contos e da capa, a diagramação. O livro é entregue já pronto para a Via Lettera, a qual faz a correção gramatical e participa do processo, quando dá tempo.
Aí você saiu e resolveu fazer a Kaos?
A maneira de fazer o Front é um processo democrático muito educativo, comunicativo e interessante, mas também demorado e cansativo. Por isso eu, Jean Canesqui, Sandro Castelli e Anderson Cabral, que nós conhecemos nas feituras de três edições do Front, resolvemos fazer uma revista de banca um pouco mais comercial, e feita de maneira que desse menos abertura para dias e dias de discussão no processo de elaboração. Quero dizer: ainda discutimos bastante, mas não chega a passar de algumas horas por semana.
E como é trabalhar com o pessoal da Editora Manticora?
Está sendo bem legal, o pessoal é bem tranqüilo, participam bastante. Levamos o projeto pronto, já diagramado, pra eles - pois tínhamos elaborado a revista para sair pela Editora Pandora, que inclusive cedeu a entrevista fenomenal do Alan Moore, mas infelizmente, por motivos de mercado, deram um tempo com revistas de quadrinhos - e eles deram pitacos, sugestões e o Fábio Fugikawa, que faz os mapas da D20Saga, até fez os tons de cinza de uma história.
E já tem idéia de como está sendo a aceitação dos leitores?
Até agora o Jean, que cuida da Comunidade Kaos! no Orkut, só tem recebido elogios. Mas aceitamos críticas também, desde que sejam construtivas.
O que falta para o mercado editorial levar a sério as HQs ou desenvolver melhor a política de comercialização delas?
Putz! Não me sinto no lugar de poder responder um pergunta dessas! Acabo de começar a publicar como autor/editor. Talvez depois da Kaos voltar das bancas vou poder opinar sobre opções de mercado editorial que dão certo ou errado. Minha opinião no momento se restringe à sugestão de que a linguagem de quadrinhos tem que ser vista e aceita, novamente, em uma infinidade de lugares: revistas infantis, científicas, religiosas, no cinema, na televisão, etc.
Para fechar: quem quer trabalhar produzindo HQ deve...
... procurar todas as opções possíveis de publicar HQ, seja em fanzine, revista infantil, científica, etc (vide resposta acima). ¤
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