Ducha fria com água digital
Quando as primeiras imagens e notícias de
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã começaram a surgir pela internet, um pequeno rebuliço promissor foi formado. Um bom elenco, um tema atraente, um aparente sabor de aventura leve e descompromissada... Enfim, vários elementos que garantiriam uma boa ida ao cinema.
Será que ducha fria com água digital também congela?
Direto ao ponto: o roteiro do filme é mal finalizado. Parece que faltaram algumas revisões. A história não flui de uma forma simples. As piadas e diálogos são truncados. E os personagens estão mal construídos. Decepção.
Tentando equilibrar um pouco as coisas por aqui, alguns aspectos positivos. A ambientação
sci-fi retrô do filme é muito estilosa, e não muito recorrente. Trunfo do diretor estreante
Kerry Conran, que passou seis anos desenvolvendo, no computador de casa, um pequeno curta no estilo, espécie de “filme-demo” que apresentou aos produtores. E mesmo com passagens em Nova York, Himalaia e outras locações,
Capitão Sky… foi todo filmado em uma sala em Londres, usando a técnica de fundo azul, o
cromakey - tal qual os apresentadores do
Fantástico, só que com bem mais qualidade. Bacana.
Para criar sua visão do 1939 “futurista”, Conran – que também escreveu o filme – abusou de referências em literatura
pulp - H.G. Wells, majoritariamente –, romances
noir - o editor interpretado por
Michael Gambon parece ter pulado de algum escrito de Raymond Chandler –, quadrinhos da época -
Buck Rogers e
Flash Gordon são explicitados ao longo a história –, algumas animações – o
Super-Homem de Max Fleischer foi estudado pelo diretor - e muitos outros filmes, desde
Metropolis até
O Mágico de Oz. A aventura de Dorothy, inclusive, é a principal “influência” do roteiro – e
Judy Garland faz uma ponta.
Encabeçando o elenco, temos
Jude Law e
Gwyneth Paltrow, que se reencontram depois de
O Talentoso Ripley. Law – também produtor – vive o Capitão Sky do título, um mercenário que ajuda salvar Nova York com seu caça P-40. Gwyneth, mais charmosa que o habitual, é a caricata repórter Polly Perkins. Na segunda metade do filme, surge
Angelina Jolie, que interpreta o Nick Fury e deve ter filmado toda a sua participação em três dias. E
Giovanny Ribbisi, mais uma vez um bom coadjuvante. Eles têm que impedir um vilão alemão de destruir o mundo. Aliás, bem 1939 isso.
Infelizmente, ninguém parece ter muita química, o que retira muito do carisma do filme. A história, que se propõe a ser leviana, se enrola demais. E a pasteurização do
cromakey cansa. Talvez, em mãos mais experientes,
Capitão Sky e o Mundo do Amanhã pudesse ser um filme ótimo, mas o resultado é apenas mediano. Como está, deve amargar um limbo na
Sessão da Tarde daqui há uns vinte anos. ¤