O peso da mão que escreve!
Ao assistir a Gosto de Sangue (Blood Simple) o expectador incauto poderá achar que a reconstituição de época foi muito bem-feita, os anos 1980 foram caprichosamente estudados. Na verdade, Gosto de Sangue, o primeiro longa-metragem escrito por Joel Coen e Ethan Coen, os famosos Irmãos Coen, dirigido pelo primeiro e produzido pelo segundo, foi rodado em 1983 (lançado em 1984) e está sendo relançado numa “versão de diretor”. Pode parecer oportunismo (não descarte essa possibilidade), mas mesmo que seja, chegou em boa hora. Num momento em que os efeitos especiais são um grande espetáculo, é bom ver um filme que explora um roteiro bem-elaborado e os recursos que uma direção competente podem proporcionar.
Os Irmãos Coen são responsáveis por grandes filmes, entre eles
Arizona Nunca Mais (1987),
Fargo (1996),
O Grande Lebowski (1998), e o recente
Matadores de Velhinha.
Gosto de Sangue marcou a estréia de
Frances McDormand que voltaria a trabalhar com os Irmãos Coen em
Arizona Nunca Mais e
Fargo.
Uma situação familiar que parece extremamente normal e rotineira desenrola-se até atingir um inesperado
grand finale. Explicando melhor, o que parece ser simplesmente um triângulo amoroso é na verdade o estopim para o desencadeamento de uma série de situações inusitadas (muitas vezes recheadas de humor-negro) e crimes praticados de maneira inconseqüente. Abby (
Frances McDormand) trai seu marido Marty (
Dan Hedaya) com Ray (
John Getz), garçom do bar do qual seu esposo é dono. Marty contrata Visser (
M. Emmet Walsh), um detetive particular que se vende por dinheiro, e tanto faz ser pouco ou muito dinheiro. Configurada a traição, Marty decide pagar para que Visser os mate. É aí que surge a primeira e interessante reviravolta do roteiro, Visser descobre um revólver que pertence a Abby e, em vez de praticar dois assassinatos, decide praticar apenas um. Entendeu? (Mas, é claro, só depois de receber de Marty a quantia combinada!)
O roteiro elaborado por Joel e Ethan caminha numa linha tênue, qualquer desvio poderia fazer de
Gosto de Sangue não um filme de suspense, mas uma comédia. Eles se mantêm firmes e, com diálogos elaborados e momentos preciosos de silêncio, realizam o que planejaram. Beirando o incomensurável, o público que poderia desacreditar da história tem chance de pensar até aonde uma simples decisão errada pode levar e como as coisas saem facilmente de controle, sutil como um descarrilamento. O desencadeamento dos acontecimentos é linear, segue num crescente, até o fim.
Gosto de Sangue é um marco na cinematografia americana e precisa ser visto e revisto. Ao assisti-lo preste atenção no “fusquinha”!