Música de máquina

Por Rafael Lima — Sexta, 12 de novembro de 2004

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A apresentação da banda alemã Kraftwerk no Armazém 5 do Cais do Porto (RJ) final de semana passado foi uma experiência imperdível para entender o nosso tempo. Pena que a maioria do público só estivesse preocupada em dançar. Um retrato, aliás bastante preciso, de nosso tempo.

Kraftwerk costuma ser identificado como o precursor e tataravô da música eletrônica tal como a conhecemos hoje, gerada por computadores e animando raves junto à natureza. Mas essa é uma visão limitada, vulgarmente direcionada pelas necessidades setorializantes de mercado. Senão vejamos: na apresentação da “banda” ficam os quatro “músicos” de pé, voltados para a platéia, cada um diante de um pedestal onde repousa um computador portátil. Trajam ternos e gravatas pretos sobre camisas vermelhas, são carecas e ficam estáticos durante toda a apresentação. Se não fosse pelos movimentos de cabeça quase imperceptíveis do “músico” mais à esquerda, que detém um microfone, seria de desconfiar mesmo que são humanos, e não máquinas. O distanciamento da presença de palco calorosa que um grupo tradicional de música costuma provocar é intencional e não irônica.


Ao fundo do palco, um telão exibe imagens a cada nova música. A exibição de refrões em letras garrafais de alguma forma evoca Orwell, 1984, enquanto a idéia de um mundo controlado pelas máquinas lembra Admirável Mundo Novo, só que, novamente, sem a ironia de Huxley: aqui, as máquinas são bem-vindas, integram a vida cotidiana e transformam o homem num seu mero operador (quem sabe, nem mesmo controlador). Essa interação homem-máquina é a tônica de todo a apresentação, um conceito desenvolvido à beira da perfeição, exposto em versos como “I am the operator of my pocket calculator” ou “We are the robots” ou ainda “Man, machine, semi-human being”. São ciborgues cujos apêndices artificiais cresceram demais, tomando conta e passando a ser centro ao invés de “extensões do corpo”, como McLuhan as chamava. Kraftwerk “canta” um mundo onde a música é uma depuração da cacofonia de ruídos, bipes, campainhas e sons repetidos do cotidiano – há sons de eletroeletrônicos (hoje em dia, até câmeras digitais emitem seus ruídos, como se falando com o dono), meios de transporte como uma locomotiva, o batimento de um eletrocardiograma, ao fundo das “canções”; o computador enxerga e sintetiza os sons ambientes, e os processa de maneira melódica.

Kraftwerk fala de um período específico pós-industrial, quando o taylorismo e o fordismo tornaram a massificação um marco, mas a automatização ainda não liberou o indivíduo tempo suficiente para gastar com lazer, por ainda não ter assumido controle das máquinas. Pelo contrário, é cada vez mais parecido com uma delas, num ambiente cada vez menos parecidos com ele (tal como eram os carros, trens e programas de computador antes do design industrial, das curvas aerodinâmicas e da interface gráfica amigável). Apesar da opressão que essa idéia possa transmitir (e transmite), ela não é primeiramente pessimista; pelo contrário, é futurista. Os quatro carecas estáticos são como embaixadores dum futuro onde é impossível dissociar homem de máquina, não porque as últimas tenham se humanizado, mas porque os primeiros se automatizaram. E a apresentação é como uma palestra, um slide show onde, em sinestesia, explica-se como será esse futuro (inevitável?). Mais: é uma ópera, uma sinfonia a esse admirável mundo novo, onde o futuro, qual num brinquedo do EPCOT Center, desfila à nossa frente.


Por tudo isso a estranheza para com os fãs da música eletrônica. Tal como ela é feita hoje, em programas de computador num quartinho qualquer, está isolada do mundo ao seu redor. Não copia e não conhece mais os sons ambientes. Escolhe e coloca em seqüência ruídos artificiais de forma a que, quando tocados em alto volume madrugada adentro, destruam os condicionamentos e impeçam a lógica racional, conduzindo seu público a uma experiência sobretudo sensorial, intuitiva, pré-civilizada. Nada mais distante, portanto, do “espetáculo” do Kraftwerk, extremamente planejado, racional, intelectual. O mundo de que o Kraftwerk fala e o mundo da música eletrônica se distanciam igualmente do humano, só que em sentidos opostos; o primeiro, por ter ido longe demais no avanço tecnológico, que é a marca da civilização; o segundo, por negar essa civilização, ao buscar alguma coisa perdida num conhecimento primitivo. Há um fosso de compreensão entre o que dizem no palco e o que o público entende, ainda que a “música” seja muito parecida.

O público dançou porque achava que o que rolava no palco era uma crítica, um “comentário” ao computer world, e não um elogio, quase um convite (como se houvesse a opção de não ir). Essa mesma incompreensão é o que faz, por exemplo, que o pessoal da música eletrônica tenha ido primeiro atrás das batidas do samba e da bossa nova para canibalizá-las em drum & bass e ritmos quebrados de sintetizador, ao invés de procurar um Hermeto Pascoal, que sacou há muito tempo que música pode ser feita de sons ambientes. Enquanto essas fichas não caírem, estarão condenados a continuar dançando ao som dos big beats como robôs, qual remadores flexionando ritmicamente os músculos ao tambor do capataz.

(um obrigo especial ao Lisandro Gaertner por algumas idéias e ao Magiozal pela foto)




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