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Entrevista com Leonel Caldela

Por Raphael Di Cunto — Sexta, 12 de novembro de 2004

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Leonel “Dorkboy” Caldela é autor do primeiro romance ambientado em Tormenta, um cenário de RPG da Editora Talismã, de autoria do Trio Tormenta, também conhecidos como J.M. Trevisan, Rogério Saladino e Marcelo Cassaro (leia uma entrevista com ele aqui).

Com um estilo mais “pesado”, Leonel surpreendeu os fãs com um maravilhoso preview, deixando todos sedentos por ler o livro. Tormenta- O Inimigo do Mundo tem 480 páginas, e os autores esperam que ele custe entre 29 e 35 reais (você pode ler uma resenha dele aqui, no SoBReCarGa) . Confira a capa e contra-capa (e um wallpaper) aqui.

Além disso, o Leonel também é colaborador do SoBReCarGa, escrevendo a coluna Fanboy.

Primeiramente, fale-nos um pouco sobre você. Como foi seu primeiro contato com o RPG? Como e quando começou a escrever?

Oi. Bem, o meu primeiro contato com RPG foi através dos antigos livros-jogos da TSR, editados em Portugal e com temas de D&D. Tenho os meus exemplares até hoje no armário, e acho que são alguns dos melhores livros-jogos que eu já li – se alguém ainda se lembra, são “As Colunas de Pentegarn”, “A Montanha dos Espelhos” e dois outros. Isso aconteceu quando eu tinha oito anos, ou seja, há 17 anos (putz, estou entregando a minha idade (risos) ). Depois disso, quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, li uma reportagem na revista Veja que falava sobre RPG em si e fiquei fascinado. Finalmente, com 13 anos, consegui jogar o tal RPG, e não parei desde então.

Eu sempre quis ser escritor, mas, como sou muito preguiçoso, nunca realmente tive uma produção literária constante (o que é vital para quem quer seguir por esse caminho) até cerca de três ou quatro anos atrás. Ou seja, eu escrevia alguns contos, começava alguns trabalhos “maiores”, mas nunca saía das primeiras páginas. Os principais fatores que me levaram a “desencantar” e finalmente começar a escrever com regularidade foram um grupo de “troca de contos” que montei com alguns amigos (a cada duas semanas, nós escrevíamos cada um um conto baseado num tema decidido por todos, e depois trocávamos os textos e fazíamos críticas e comentários) e, acima de tudo, fazer a Oficina de Criação Literária do Prof. Assis Brasil. Isso me ensinou a ter disciplina e constância, além de quase tudo o que eu sei sobre escrever.


Como surgiu a idéia de um romance ambientado em Arton (o mundo onde se passa o romance, cenário do jogo Tormenta)? Você sugeriu escrever um romance ou a idéia partiu do Trio (J.M. Trevisan, Rogério Saladino e Marcelo Cassaro)?

Na verdade, embora eu sempre tivesse vontade de escrever um romance de fantasia, eu não era realmente fã de Tormenta até receber um e-mail do Trevisan que me abriu os olhos. (risos) Explico: no X Encontro Internacional de RPG, em 2002, eu e a minha noiva comparecemos e distribuímos para todo e qualquer autor ou ilustrador de RPG nacional cópias do trabalho que nós estávamos desenvolvendo (contos, roteiros, portfólios e um fanzine chamado Campanhas Inacabadas). Entregamos para o Trevisan um conto “fanfic” baseado no cenário de Dragonlance (o meu cenário de RPG favorito e, pelo que eu sei, o favorito dele também). Um ano depois, quando nós já nem lembrávamos mais direito para quem tínhamos entregado o quê, eu recebo um e-mail do ilustre Dr. Careca (a alcunha de super-vilão do Trevisan) me perguntando se eu conhecia Tormenta e se não estava disposto a escrever um conto como “teste” para ver se eles não podiam aproveitar o meu trabalho em algum projeto. Na hora, eu disse para ele que, embora quisesse escrever o tal conto, não gostava muito de Tormenta (vergonha: eu só conhecia a antiqüíssima versão do cenário que veio de brinde numa Dragão Brasil). Ele só me respondeu o seguinte: “lê o Tormenta D20 e vê o que você acha”.

Eu peguei emprestado o Td20 e me surpreendi completamente. O cenário que eu tinha visto numa revista de poucas páginas tinha virado um mundo rico e detalhado, com inúmeros “ganchos” de aventuras e personagens interessantes e, sim, originais. Descobri que eu tinha apenas um grande preconceito contra Tormenta, mal que aflige vários RPGistas veteranos, mas que, honestamente, não tem razão de ser. Continuei trocando e-mails com o Trevisan, fazendo comentários e críticas sobre o cenário que eu estava conhecendo, e escrevi o tal “conto-teste”. Eles gostaram e acabaram publicando o dito-cujo (Ressurreição, o conto que reformula o Grupo do Mal, publicado na revista Tormenta n° 15). Daí veio o convite para escrever o romance. Eu, que já estava entusiasmado com o cenário e louco para contar outras histórias baseadas nele, agarrei a oportunidade, principalmente depois que soube que eu estaria lidando com o maior mistério de Arton: a própria Tormenta.

A história foi idéia sua? Pode nos adiantar um pouco dela?

Uma das coisas que eu mais gostei de trabalhar com o Trio Tormenta foi a receptividade que eles sempre tiveram com as minhas idéias e a liberdade que me deram para retratar o cenário. A idéia básica do romance existia, mas resumia-se a uma frase: “um grupo de aventureiros provoca a chegada da Tormenta”. Só. A partir daí, eles me deram carta branca para trabalhar, mas sempre me acompanhando de perto e discutindo idéias detalhadamente. O Trevisan principalmente foi o meu grande “parceiro de pingue-pongue” e sugeriu várias das idéias e situações que aparecem na história, assim como um dos meus personagens preferidos (que eu não vou dizer quem é (risos)). Também não posso deixar de ressaltar a participação da minha noiva, Patricia Knevitz, que sempre contribuiu com idéias e serviu como “audiência-teste” de muuuitos conceitos e personagens.

A história do livro acompanha, basicamente, um grupo de aventureiros numa perseguição a um criminoso fugitivo que cometeu diversas atrocidades em vários reinos de Arton. A perseguição logo acaba se tornando algo maior e mais complexo, à medida que os aventureiros percebem que o tal criminoso pode não ser o que parece, e à medida que a participação de algumas das maiores “forças” de Arton começa a ser notada. Também há a participação dos deuses de Arton em uma espécie de “história paralela”. Também foi minha intenção (embora um escritor nunca saiba se foi ou não bem-sucedido até ter a resposta do público (risos)) fazer a “história pessoal” das relações entre os personagens e seus sentimentos ser tão interessante e grandiosa quanto a própria perseguição. Sei lá, julguem por vocês mesmos. (risos)

Fale-nos sobre os personagens. Pela foto, pude perceber que são dois grupos distintos de aventureiros, estou certo?

Na verdade, é um grupo só, mas a ilustração está dividida entre “capa” e “contra-capa” (as duas formam uma única ilustração, num estilo bem conhecido dos livros de Dragonlance). Basicamente, os personagens são um grupo de aventureiros (nove, na tradição das grandes obras de fantasia medieval (risos)), vistos pela minha ótica pessoal. Ou seja, o líder do grupo (Vallen Allond, um guerreiro), por exemplo, tem uma visão de mundo e um modo de agir bem diferente da clériga da Deusa da Vida. Acho que posso dar uma palhinha dos personagens sem estragar nenhuma surpresa.

Vallen Allond: líder do grupo, guerreiro.
Ellisa Thorn: “namorada” de Vallen, arqueira.
Masato Kodai: samurai, Executor Imperial (leiam o livro para saber o que é isso! :) )
Rufus Domat: mago, ex-aluno da Academia Arcana.
Artorius: minotauro, clérigo de Tauron, o deus da força.
Nichaela: meio-elfa, clériga de Lena, a deusa da vida.
Gregor Vahn: paladino de Thyatis, o deus da ressurreição.
Andilla Dente-de-Ferro: bárbara das Montanhas Uivantes (um território gelado e inóspito).
Ashlen Ironsmith: jovem “ladrão” (embora não seja um ladrão de verdade, ele assume as tarefas tradicionalmente “ladinas” dos grupos de RPG).

Pelo que pude ler do romance, seu estilo é bem sombrio (alguns comparam ao do Trevisan). Você deu uma aliviada nele enquanto escrevia o livro, ou podemos esperar algo bem pesado?

Bem, para falar a verdade, eu não considero o meu estilo tão “sombrio” assim, mas acho que o livro é bem mais sério e pesado do que a média dos textos sobre Arton (e sobre fantasia medieval publicados no Brasil). Não que eu não goste de textos mais leves e divertidos: o próprio tema (a chegada de uma ameaça até agora incontrolável, que já matou milhares de pessoas) acaba exigindo uma abordagem mais pesada. Honestamente, eu não tive que “aliviar” nada no texto (como eu disse, o Trio Tormenta deu uma liberdade impressionante para criar e desenvolver as minhas idéias). Existem momentos, sim, bem sombrios e pesados (e por isso nós não estamos recomendando o livro para crianças), e outros mais leves, de aventura e ação. O que eu acho (espero) que o leitor pode ver no livro é honestidade: eu tento não embelezar, por exemplo, a vida e a mentalidade de um grupo de pessoas que são, essencialmente, mercenários (como são a maior parte dos aventureiros de D&D). Da mesma forma, os crimes que o fugitivo cometeu são horrendos simplesmente porque é assim que as coisas são: um assassinato, uma situação em que alguém perde a vida são fatos trágicos e horríveis. Eu tento ser honesto com o leitor e com os personagens.

E, sim, eu acho o meu estilo bastante parecido com o do Trevisan. Acontece quando dois escritores têm muitas das mesmas referências e favoritos. (risos)

Vocês planejam lançar outro romance ambientado em Arton? Tem algum outro projeto?

O projeto surgiu como uma trilogia. Este primeiro livro (O Inimigo do Mundo) é independente, e não necessita de continuações. Contudo, se a vendagem for boa e o romance for bem recebido pelo público, é quase certo o lançamento de mais dois ou três romances, lidando com as conseqüências dos eventos do primeiro. Ou seja, não são continuações diretas, mas “desenvolvimentos” da trama. Em tempo: enquanto OidM se passa cerca de quinze anos no passado de Arton, os próximos romances serão “contemporâneos”, lidando com os eventos que vêm acontecendo no cenário no presente.

Vamos mudar um pouco de assunto. Você tem alguma técnica especial para escrever? Pode dar algumas dicas para quem está começando?

Não existe técnica especial: o que existe é trabalho. Eu, particularmente, gosto de ler e reler as obras dos meus escritores favoritos quando estou começando um novo projeto, para me deixar “contaminar” por um estilo de escrita que eu aprecie. Escritores mais experientes dizem que isso é prejudicial justamente porque você acaba absorvendo um pouco do estilo do outro, mas, enquanto eu ainda não sou nenhum Stephen King, acho que tenho mais é que absorver os estilos dos mestres mesmo. (risos) Fora isso, trabalho. Sentar todos os dias na frente do computador (máquina de escrever, bloco de papel, parede e carvão, o que seja) e escrever sempre, e com disciplina. Se eu posso dar uma dica para alguém que está começando (ei, eu também não sou tão experiente: acabo de escrever meu primeiro livro (risos)) é: não pensem que escrever é questão de inspiração. A inspiração é o combustível da criação (coisas básicas sobre os personagens e a trama). O combustível da escrita é, mas uma vez, trabalho. Sentem e escrevam. E leiam muito!

Vamos a um bate-bola rápido:

Livro favorito:
A Grande Arte, de Rubem Fonseca. Mas, se eu puder incluir uma trilogia inteira, As Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell, competem acirradamente.

HQ favorita: Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon.

Desenho favorito: Empate entre Neon Genesis Evangelion e Capitão Harlock e a Nave Arcádia.

Filme favorito: Empate entre E aí, meu irmão, cadê você? e Kill Bill.

Banda favorita: Ramones, a melhor banda da história do universo. Bônus em XP para quem identificar a referência aos Ramones no livro. (risos)

Música favorita: Varia muito entre diversas dos Ramones.

Personagem favorito: Empate entre Jesse Custer, de Preacher, Derfel Cadarn, das Crônicas de Artur, e Capitão Harlock.

Objetivo que alcançou: Escrever e publicar um romance.

Objetivo que quer alcançar: Escrever e publicar o resto da série de Tormenta. Escrever e publicar uma série de livros baseados na minha campanha de RPG. Publicar pelo menos uma das trocentas séries de HQ que eu tenho na cabeça.


Obrigado pela entrevista, e boa sorte com todos os seus projetos. Quer deixar algum recado? Mandar um beijo para algum parente, amigo, fã ou animal de estimação? Sinta-se à vontade, o espaço é seu.

Eu é que tenho que agradecer esse espaço. (risos) Deixo então um abraço para o pessoal do SoBReCarGa e para o Trio Tormenta, pela oportunidade (oi, chefinhos!). Um beijo para a minha noiva (isso tá parecendo programa da Xuxa) e um recado para quem quer escrever:
ESCREVAM.




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