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Pesadelo Spaghetti
Por Leonel Dorkboy — Terça, 21 de outubro de 2003
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Quando eu tinha tenros 13 anos de idade, a editora Record publicava excelentes títulos em quadrinhos. Entre estes, destacavam-se Cripta do Terror, Love & Rockets e um gibi italiano pra lá de estranho, um título de horror chamado Dylan Dog. Eu era fã de todos estes títulos, mas um dos meus favoritos era mesmo o Sr. Dog, que tinha a alcunha de “Investigador do Pesadelo”. Qual não foi a minha felicidade quando o velho Dylan voltou a ser publicado, 10 anos depois. Na verdade, depois dessa alegria toda veio um certo medo: e se não fosse a mesma coisa? Um guri de 13 anos é bem mais impressionável do que um (adulto? pós-adolescente?) de 23, e, principalmente no gênero horror, quanto mais calejados nós ficamos, mais chatos e exigentes também vamos nos tornando. Mas eu comprei um exemplar da nova fase do investigador, e, surpresa!, as histórias eram ainda melhores do que eu me lembrava.
Bem, vocês já sentiram que hoje eu vou falar sobre este título, não é mesmo? Mas, ao invés de ficar explicando o gibi, vou dar uma pincelada rápida e sugerir que todo mundo compre um exemplar e veja por si mesmo (Dylan Dog é publicado no Brasil pela Editora Mythos). Em resumo: Dylan Dog é um detetive particular que investiga casos sobrenaturais. Ele tem um parceiro chamado Groucho, que é igual ao antigo comediante Groucho Marx, e que vive fazendo piadas absurdas. A cada edição, Dylan resolve um caso escabroso e transa com uma mulher linda, por quem quase sempre se apaixona. Pronto. Simples, não? E o que faz este gibi tão formulaico (que literatice: quis dizer, este gibi que sempre segue uma fórmula) ser tão bom?
Dylan Dog, para nós, é diferente. Para começar, não é americano (como a maioria dos gibis que costumamos ver) nem japonês (como a invasão mangá que acontece hoje em dia). É europeu, é inteligente, e, por incrível que pareça, é inteligente sendo ao mesmo tempo totalmente pop. As histórias têm diferentes níveis: você pode ler a história do detetive fantasma (DD da Editora record n° 6: “A Beleza do Demônio”) como uma metáfora para o amor impossível, ou apenas como uma HQ estranha e muito assustadora...
O horror de Dylan Dog é mutável. Ele já enfrentou lobisomens, zumbis, feiticeiros e outras criaturas tradicionais. Mas também já se deparou com o fantasma de uma mulher que não morreu, uma onda de suicídios provocada pela televisão, um macaco astronauta com uma consciência super-expandida e outras esquisitices. Dylan sempre nos oferece algo novo. Quando ele enfrenta, por exemplo, zumbis, não cai nos erros dos personagens de filmes B, não demonstra total ignorância sobre o assunto. Ao contrário, ele assiste a uma maratona de filmes sobre zumbis e, como todo bom aficcionado do horror, sabe que um tiro na cabeça dá cabo dos mortos-vivos. O roteirista Tiziano Sclavi usa de um diálogo (eu ia dizer “intertextualidade”, mas ia ficar muito pedante) com todo o imaginário de terror que temos na cultura pop, e isto é uma lufada de ar fresco. Algo que, ok, já foi feito (com muito menos criatividade, diga-se de passagem) nos filmes da série Pânico, mas vale lembrar que Dylan veio quase 10 anos antes...
Da mesma forma, há um humor em todas as histórias capaz de desconcertar e nos fazer rir sozinhos. Ao invés de cair no clichê fácil de tiradas espitituosas por parte do herói, Sclavi faz do assistente Groucho o autor de um humor completamente anárquico e nonsense. É impossível não se surpreender quando Groucho, fugindo por sua vida junto a Dylan, continua com piadinhas extremamente infames. Os personagens dentro da história ficam desconcertados, e nós também. Ao invés de forçar um realismo, Sclavi usa o recurso do inverossímil ao máximo.
E daí vem outro pulo do gato em DD: o autor não procura fugir do que torna a história irreal. Dylan Dog, como os super-heróis, não envelhece. Então, Sclavi mantém suas histórias sempre no mesmo período (os anos 80, quando Dylan começou). Nós não vemos o investigador usar a internet ou um celular. Não precisamos fingir que não vemos que é um pouco idiota alguém ter a mesma idade e passar por décadas e décadas de história. Os personagens estão firmemente plantados nos anos 80, usam roupas e cortes de cabelo da época e falam sobre Margareth Thatcher.
E isso nos leva a outro ponto: Dylan vive na Inglaterra, embora a HQ seja produzida totalmente na Itália. Mais uma vez, Sclavi não é hipócrita. Como a maioria de nós, ele deve ter crescido com livros, gibis e filmes ingleses ou americanos, e certamente conta histórias baseadas nestes materiais. Então, não força uma “identidade cultural” de seu país em histórias obviamente mais talhadas para um ambiente de fog e Scotland Yard. Como nos antigos westerns spaghetti (filmes de faroeste produzidos na Itália), Sclavi trabalha com o cenário que seus personagens exigem. Assim, ele é fiel a si mesmo, ao seu personagem e até mesmo ao seu país. O que? Acham falta de patriotismo ambientar histórias em países estrangeiros? Bem, ao meu ver, Sclavi faz um serviço bem maior para a cultura italiana produzindo um gibi que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares em um mês...
Dylan Dog é autêntico, diferente e cheio de idiossincrasias. É divertido se acostumar às manias do quadrinho italiano (nomes com aliteração, o herói sempre tem um parceiro, histórias longas e fechadas, desenhos em preto-e-branco), e é interessante ver como ele é verdadeiro consigo mesmo.
Talvez seja disso que precisamos aqui no Brasil. Não heróis “brasileiros” que sigam os moldes dos estrangeiros, apenas com nomes locais. Talvez, quando os autores daqui assumirem suas influências e contarem suas histórias sem constrangimento de um pseudo-nacionalismo bobo, possamos ter um mercado tão forte quanto o estrangeiro. Já houve iniciativas deste tipo, e elas devem ser incentivadas, mesmo que os heróis sejam “Johns” e “Jennifers”.
Em tempo: para quem curte Dylan vale a pena conferir os outros títulos da editora italiana Sergio Bonelli publicados no Brasil: Nick Raider, Martin Mystère, Mr. No, Tex, Zagor e, principalmente, o ótimo Mágico Vento.

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