Era uma vez uns garotos (e outros nem tão garotos, é verdade) que, depois de passar a vida emprestando seus gibis pros amigos e pros amigos dos amigos, resolveram que havia um jeito mais inteligente de fazer isso. Compraram uns scanners vagabundos, começaram a digitalizar seus gibis e criaram uma biblioteca de respeito com obras bacanérrimas como “Watchmen”, “Crise nas Infinitas Terras” e “Cavaleiro das Trevas” figurando entre as sensacionais coleções. Tudo disponível para todo mundo de graça via Internet.
Os abnegados se davam ao trabalho de digitalizar revistas apenas porque queriam que qualquer pessoa pudesse tê-las. Os principais objetos desses sites eram obras mais antigas, outras que não estavam sendo publicadas no Brasil ou material que só havia sido publicado no exterior.
Logo começou um jogo de gato e rato desses rapazes com as editoras. O último sinal foi a publicação de um artigo do Sidney Gusman na “Wizard” número 1, lançamento da ótima Panini Comics. Ali ele levantava a bola para o que já iria acontecer, a notificação de todos os sites para que parassem de veicular material ilegal. Essa iniciativa sepultou os dois sites mais bacanas de scans de HQs, o Rapadura Açucarada e o Immateria.

Gusman é um jornalista experiente, entende muito do que está falando e lembra em seu artigo que, ao trocar arquivos digitais com histórias em quadrinhos, esses sites podem estar matando a própria indústria que dizem amar (e que já anda bem mal das pernas), já que as HQs digitalizadas podem roubar leitores preciosos das suas contrapartes físicas.
A bola levantada por Gusman é válida. Mas acho também que a paranóia de que esses arquivos vão acabar com a indústria dos comics é meio que um desespero típico de uma fase de transição cultural afetada pelas mudanças tecnológicas. O fato é que o surgimento dessas iniciativas devia ser um sinal de alerta para a indústria de que as pessoas estão interessadas em ler aquelas determinadas revistas e tê-las até em um formato imortal. A Marvel entendeu o recado e está tentando se adaptar. Lançou um CD que traz exatamente isso, histórias clássicas digitalizadas. Não sei se é bem isso que o povo quer, mas pelo menos tem alguém se mexendo nessa direção.

Da mesma forma, as pessoas descobriram que podem ter música de outro jeito que não em um CD fechadinho com 15 composições das quais elas só gostam de uma ou outra, que os amantes de filmes e seriados querem ter seus programas preferidos e estão de saco cheio de esperar a hora x ou y para assisti-los de um jeito analógico, linear, irreversível.
A tecnologia mudou o nosso jeito de ver esses produtos. Queremos ter todos os gibis, os filmes, os seriados, os livros, as músicas. Queremos isso entregue em nossa casa de um jeito mais confortável no horário que preferirmos. Isso nem é novidade, mas a cada novo negócio que essa tecnologia afeta, a discussão ressurge.
Acho que a moda dos scanners de HQs, que está longe de terminar, é só o reflexo do fato de que essas pessoas querem ler revistas que não conseguem encontrar em lugar nenhum. Afinal, a era digital acena para o fim daquela balela da escassez. Não tem mais esse negócio de imprimir 100 mil exemplares de uma revista que tem potencial de venda de 150 mil só para que as revistas valham uma fortuna daqui a alguns anos. Em um mundo de reprodução digital, o que trafega são só bits e bytes e todo mundo pode ter a sua maldita revista.

Um bom exemplo do bom trabalho dos garotos do scanner é o “Desvendando os Quadrinhos”, de Scott McCloud. O livro estava esgotado há anos no Brasil e ressurgiu em uma cópia digitalizada com carinho. Um achado. Momento em que os sites de scanner viram formadores de leitores fiéis a custo baixo. Aliás, McCloud está tentando materializar essa idéia. Ele foi o pioneiro em um sistema de micropagamentos e vendeu uma HQ sua feita em flash por US$ 0,25. Pode ser um caminho. Vamos torcer.
Eu sei que isso não é simples assim. Mas o debate não pode parar na morte ou hibernação do Rapadura e do Immateria. Em vez de fechar todas as iniciativas novas, as editoras deviam fazer o que a RIAA não fez, se perguntar como diabos elas deveriam capitalizar o fato de que o formato de produto que elas comercializam é absolutamente viável para uma venda online, por exemplo. Não. Peraí. Estou sendo injusto, porque uma editora brasileira, a Nona Arte, matou a pau e lançou mais de 150 gibis online. Palmas para eles.
Saiba mais:
www.nonaarte.com.br
www.scottmccloud.com
www.eudeshonorato.blogger.com.br
www.immateria.blogger.com.br