Papo Reto no show do Dead Fish

Por Felipe Ricotta — Quarta, 10 de novembro de 2004

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Dead Fish, Ignite, Forgotten Boys e Matanza. Rio. Circo Voador.

"Por que não levar uma paty prum show de hardcore?"

Ela não sabia o que era hardcore nem death metal.
E eu ficava lá todo Pimpão filosofando sobre os rótulos idiotas que alguém um dia inventou pra explicar as diferentes vertentes do rock.
"Bem, o hardcore vem do punk que surgiu em..."
Enquanto falava e me confundia nas idéias, percebi que era totalmente irrelevante gastar tempo tentando explicar pra alguém o que seria um determinado estilo musical e acabei me sentindo bem idiota. Na hora, muito passou pela minha cabeça sobre como nós estamos sempre nos fechando em grupinhos e limitando nossos horizontes com rótulos e pré-conceitos quando o mais bacana seria que a diversidade fosse celebrada com mais tolerância.
Curto mesmo é imaginar pessoas que possam estar no show do Dead Fish num dia, e que no outro estejam na academia fazendo jiu jitsu, andando de skate por aí e se vestindo largado como um Hippie pra pegar uma balada Clubber ou um show de Death Metal no Garage.
Não são coisas diferentes, mas sim diferentes lados de uma mesma coisa.
Normalmente, esse tipo de gente é taxada de 'sem personalidade' por não pertencer a nenhum grupo.
Talvez elas tenham muita personalidade e esse seja o problema.
Consequentemente, querendo fazer parte de vários grupos, acabam sendo mal vistas por todos.
Por que eu não posso falar que curto o Bon Jovi sem que os Brothers Alternatives com camisetas do Sonic Youth me olhem torto?
Por que você, pra gostar de Bob Marley, tem que ser maconheiro?
Por que você, pra ser maconheiro, tem que gostar de Bob Marley?
Acho absurda a idéia de que temos que limitar nossas ações em prol de um coletivo.
E idiotas são aqueles que se contentam com um leque mínimo de opções na vida.
(...)
O Matanza tocava e debatíamos se fazia mesmo algum sentido aqueles caras batendo cabeça metaleiramente e falando de pé na porta e soco na cara. Na verdade, grande parte da noite foi gasta com discussões altamente fundamentadas sobre as principais diferenças entre shows de rock e Micaretas da vida. E logo de cara, assumi pra mim mesmo que Pé na Porta e Soco na Cara pode ser sim tão imbecil quanto Levantar Poeira dependendo do ponto de vista.
Mas é lógico que não dei o braço a torcer.
(...)
"Os instrumentos são tão barulhentos que você não consegue ouvir nem a voz do cara!"
"Duvido que a Débora Falabela goste do som do namorado dela!"
"I wanna live until i die? Reparou nessa frase? Não faz o menor sentido!"
Durante o show do Forgotten Boys, a gente dançava e se pegava no meio da galera enquanto beijávamos os beijos mais tesudos da noite e ela foi obrigada a ouvir uma das verdades mais dolorosas de sua vida.
"Numa Micareta, você nunca ia ganhar um beijo desses."
E me desculpem todos os bombados jiujiteiros, fãs de axé, playboys e variantes que saem por aí indo pra Chicletes e Ivetes da vida ganhar beijos forçados.
Nesse aspecto, quem é do rock faz muito melhor, amigo.
(...)
"E o show do Ignite? O que você achou?"
"Pô, o cara tava de calça da Gang! Fala sério!" - disparou sem perdão minha amiga Diana Bouth Cover.
E de repente quando me dei conta, eu era o cara que deixou Ela de lado pra falar com suas amigas sobre as suas coisas chatas. Ela deu brecha, ele se aproximou ("Eu não dei brecha, tá louco? Cara feião, pô!") e se fortaleceu na minha falha. Ela estava ali sozinha querendo atenção e alguém pra conversar e eu, o mané, paguei pela mancada. Já era.
"Aí Diana, se liga no cara aqui do lado. Chegando na minha mulé na cara dura e nem se ligou que ela tem dono."
""Não tô acreditando nisso."
"Depois as pessoas ficam achando que eu invento as minhas histórias, olha só isso, que absurdo!
"Você não vai fazer nada?"
"Nem, vamos ficar aqui só sacando."
E enquanto eu, Diana e sua amiga assistíamos pasmos à cena que acontecia a centímetros de nós, minha girl estava tão roxa de constrangimento que mal conseguia ouvir o xaveco do Barbudo Grunge Bebum.
Ele enfim se tocou da situação - após a interferência simples e direta de Diana - e veio me pedir desculpas pela rata.
"Que isso, cara. Acontece. Mas vai lá. Tenta de novo. Quem sabe até rola alguma coisa." - eu fiz questão de dar todo o apoio moral ao cara e ganhei o prêmio Miss Simpatia da noite pela tolerância e o bom humor.
O cara, enfim, assumiu ser o Loser Mor e se despediu melancolicamente de seu alvo.
"Olha, você está de parabéns pelo cara que você tem, viu?"
"É, eu sou foda mesmo." - abusei do momento, eu confesso.
"É por isso que eu estou com ele faz três anos." - e ela finalizou com classe.
Enquanto isso, em algum outro canto do Circo, um cara se aproximava de uma girl qualquer sem saber que o namorado dela estava prestes a chegar.
"Coé a tua, cúmpadi? Essa mulé é minha!"
"Olha, desculpa aí, eu não sabia. Tô caindo fora."
"Mas peraí, tá achando que é assim? Chega junto da minha mulé e vai ficar nisso mermo?"
"Olha, amigo. Vai ficar nisso mermo SIM porque eu já pedi desculpa e tô saindo fora. Agora vem cá, você tava aqui o tempo todo? Como que eu ia saber? Da próxima vez, coloca uma PLACA nela pra mostrar pros outros que ela é tua, falou?"
Às vezes, a porrada verbal dói muito mais que um olho roxo.
(...)
O show do Dead Fish ainda não tinha começado e ela ansiosa.
"Olha, amor. Acho que tá na hora da gente ir embora."
"Mas a gente está aqui trabalhando!"
Ela acabou se divertindo muito mais pelos Moshes Acrobáticos que rolavam o tempo todo do que pela performance da banda, que agitou todo mundo menos ela.
Mas antes de fazer a vontade de minha dona e vazar na encolha, ainda deu tempo pra presenciar O Primeiro Mosh Topless Peitinhos de Chocolate da História do Circo Voador.
(e é lógico que você não vai me pedir detalhes, certo?)




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