Os Porquês da Violência – Final

Por Celso Antonio Almeida — Segunda, 8 de novembro de 2004

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Voltemos ao sofrimento de Jesus. Os místicos freqüentemente passam por grande dor para alcançar uma verdade superior que a mente racional não consegue compreender e a linguagem não consegue expressar. A experiência do místico é inefável e, da mesma forma, o retrato do sofrimento de Jesus engendra uma resposta inefável no espectador. Compartilhando da dor de Jesus, o espectador é levado ao prazer de perceber que nem tudo está perdido. Pelo contrário, tudo está ganho.

O pensamento em si é agradável. “Todas as pessoas, por natureza, desejam saber” é a primeira linha da Metafísica de Aristóteles. Nós buscamos, através do pensamento, a satisfação do conhecimento. Exercitar a mente, não menos que o corpo, embora às vezes seja um processo doloroso, leva a um resultado prazeroso (há, no entanto, filmes que não são sublimes, embora nos mantenham maravilhados e nos recompensem com conhecimento no final, como Snatch: Porcos e Diamantes. Nem todo conhecimento é do tipo que vem ao custo de sofrimento transformador).

Consideremos agora o uso das línguas originais (aramaico e latim) na película de Gibson. O uso destas línguas aumenta nosso senso de sublime por nos lembrar de que não se trata de mais uma de tantas versões romanceadas da paixão de Cristo; pelo contrário, ao empregar as línguas originais na feitura de seu filme, Gibson dá a A Paixão ares de documentário, torna a narrativa mais verossímil.


Não foi nada sublime para mim
Certamente que nem todas as pessoas que assistiram a A Paixão acharam o filme sublime. O que isso quer dizer? Que o senso de sublime é relativo? Não necessariamente.

"Assistir a um filme na segurança de uma sala de projeção, bem como assistir a uma tempestade no mar estando em terra firme, permite uma experiência do sublime. A terrível visão que temos pode ser afastada simplesmente se cobrindo os olhos. É nesse ponto que a dor misteriosamente se mistura ao prazer. O filósofo Kant acreditava que o sublime nos põe em contato com uma verdade sobre nós mesmos, que nossa natureza racional e nosso livre arbítrio nos tornam superiores aos objetos sublimes da natureza, como tornados e maremotos, mesmo que estes fenômenos tenham poder suficiente para nos esmagar.

Ainda assim, porém, nem todos gostam de assistir a tornados ou maremotos, sentindo medo mesmo estando a uma distância segura. Pessoas que agem dessa forma perdem a sensação de sublime. Um tornado é perfeitamente capaz de despertar a experiência do sublime, mas o medo fica no caminho. Eu suspeito que algo similar ocorra no caso de alguns devotos cristãos que assistem a A Paixão. A despeito da segurança, a despeito de saberem que “é só um filme”, o medo fica no caminho da experiência do sublime. Não podemos insistir para que tais pessoas assistam novamente ao filme para experimentar o sublime, da mesma forma que não podemos insistir para que certas pessoas contemplem uma tempestade que se aproxima. Mas, em ambos os casos, a experiência do sublime aguarda aqueles que deixam o medo de lado.


Em defesa da violência
Para concluir: as expectativas e desejos que trazemos em nosso interior é que moldam nossas reações a uma obra de arte. Um diretor de cinema deve fazer escolhas a respeito de como filmar e contar uma determinada história e, quando esta história já foi contada inúmeras vezes, as escolhas finais do diretor fatalmente desapontarão alguns espectadores. Para ser o mais fiel possível aos fatos, Mel Gibson teve de fazer um filme que é difícil de assistir. Então reemerge a perene questão filosófica: Por que voluntariamente assistimos a obras de arte que misturam dor e prazer? No caso das tragédias, pode ser que Aristóteles estivesse correto, ou seja, se trata de uma catarse, uma experiência de “limpeza” de emoções reprimidas. Mas, como vimos, a história da paixão não pode ser contada como uma tragédia. Então o sangue e a violência de A Paixão são simplesmente gratuitos? Não, eles se justificam pela tentativa de Gibson de nos dar uma experiência do sublime.




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