Ponto de Encontro: Zuatanerro

Por Édnei Pedroso — Quarta, 3 de novembro de 2004

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Adaptações para o cinema de livros e contos do mestre Stephen King sempre foram uma incógnita quando anunciados.

Já estivemos cara a cara com o terror mais profundo proporcionado pela solidão do Hotel Overlook em O Iluminado, do inigualável diretor Stanley Kubrick e com um Jack Nicholson profundamente inspirado ( e quando é que ele não está, certo? ). Já choramos de raiva por ter alugado Tommyknockers e já vimos o lado mau do cachorrão Beethoven em Cujo. Bocejando, é verdade, mas vimos.

Presenciamos também os maus bocados que um escritor pode passar quando pára nas mãos de sua fã Nº 1 em Louca Obsessão e já vimos o palhaço Bozo com outros olhos toda vez que nos lembramos de IT, porém, fica a pergunta: qual filme surge como referência imediata de uma produção arrasadora, não só transcendendo a barreira de um conto fantástico de King, mas como o melhor filme do gênero “prisão”, na cabeça de quase todos os cinéfilos?

Não precisa pensar muito para chegar em Um Sonho de Liberdade, adaptação de um conto do livro As Quatro estações de King, dirigida e roteirizada por Frank Darabont. Como uma grande surpresa de uma década atrás, esta relíquia arrancou lágrimas e inspirações por onde passou, contando a história de Andy Dufresne ( Tim Robbins, em interpretação sutil e arrebatadora ), um banqueiro jovem e direito, que se vê enjaulado em prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e o amante dela.

De cara, o público simpatiza com a simplicidade e tranqüilidade emanadas de Dufresne, que chega no presídio de Shawshank já ganhando a antipatia de alguns prisioneiros, por seu jeito frio, quase mecânico, no processo popularmente conhecido como “carne fresca”. Porém, mesmo com caras feias espalhadas por onde passa, o banqueiro caminha com a serenidade e esperança características de um tipo que não é comum num lugar desses: o de um homem inocente. Isso chama a atenção de Red Redding ( Morgan Freeman, que dispensa comentários ), um prisioneiro que cumpre pena há vinte anos e que comanda o mercado local. Red ironiza a situação de Andy, dizendo que todos são inocentes por lá, mas não demora muito para que os dois dêem uma lição de amizade à platéia.

Em um drama penitenciário, nem tudo são flores, é verdade, e neste não é diferente. Andy também desperta a curiosidade do homem que comanda este lugar desolador: o diretor do presídio Warden Samuel Norton ( Bob Gunton, perfeito no papel ). Fervoroso leitor da Bíblia, Samuel é um sociopata da pior espécie: daquela que acredita piamente na “bondade” de seus atos, mesmo que alguns desses atos variem entre jogar prisioneiros na solitária por alguns meses, até mandar matar detentos na calada da noite.

As provações passadas por Andy nos primeiros dias, psicológica e fisicamente falando, fazem com que o espectador desacredite que um homem tão franzino e pacato como o protagonista vá agüentar os dois terços de filme restantes, mesmo que sua força motriz seja a esperança de, um dia, o crime pelo qual está pagando seja desvendado. Mas, como dizia o velho sábio, o mundo dá voltas e, gradualmente, os conhecimentos bancários de Dufresne, bem como seu jogo de cintura, acabam colocando-o numa posição privilegiada. Ele é chamado pelo diretor do presídio, a fim de controlar as finanças de Shawshank e, de quebra, fazer um “pé de meia” para Norton ( leia-se, desviar verbas do governo na cara de pau ). Em troca, o ditador libera certas regalias à Andy, como alguns projetos sociais implantados pelo banqueiro ( usados para passar o tempo ) e outros caprichos, como uma simples autorização para pendurar pôsteres de beldades na parede da cela ( sim, as coisas caminhavam na linha casta por lá ).

Passam-se meses, anos, década. Vemos isso nos cabelos brancos do banqueiro e do negociador Red, assim como nos ditos pôsteres, que variam de Rita Hayworth à Marylin Monroe. O tempo voa e Andy continua sua caminhada rumo a redenção. Passa por todos os tipos de adversidades e não esmorece, mesmo ao ver seus sonhos de um dia ser inocentado legalmente irem por água abaixo ou assistir seus colegas de cárcere sucumbirem à tirania de um pretenso poder maior. Em certa altura do campeonato, Dufresne confidencia a Red que tem um porto seguro no mundo real. Uma prainha do México chamada Zuatanerro, na qual suas lembranças se apegam toda vez que a realidade torna-se cruel, e onde seu espírito sedento de liberdade pretende passar o resto de seus dias, quando chegar a hora de sair daquele flagelo.

Por fim, o personagem de Robbins é só lições de vida. Ele nos mostra o quanto pode se ter uma vida dura e, do mesmo modo, cultivar sentimentos como esperança e companheirismo, bondade e determinação. Quase dá para sentir seu olhar de espera certeira durante o espetáculo, como se a salvação fosse apenas uma questão de tempo, de matemática. Com toda esta paixão pela vida e obstinação, alguém aí duvida que Andy Dufresne tenha conseguido dar uma lição inesquecível no tirano Samuel, efetuado a fuga mais espetacular já registrada na tela grande e alcançado as areias douradas de Zuatanerro?

Num filme amadurecido ao zênite, Darabont debutou na direção e acertou no milhar. Seu longa é considerado um dos melhores filmes da década de 90. Concorreu a sete Oscars e é considerado por muitos fãs de Stephen King como a melhor adaptação de uma história do autor, um páreo duro já que temos o supracitado O Iluminado na parada ( estranhamente, King não gostou do filme de Kubrick, sabe-se lá porquê ), mas uma coisa não se pode negar...

...Um Sonho de Liberdade é um filme poderoso. Ontem, hoje e para sempre.




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