
Num lance de grande oportunismo, a
editora Conrad lança um álbum dos
Fabulous Furry Freak Brothers, depois de um intervalo de vinte anos sem quadrinhos de
Gilbert Shelton no Brasil.
No depoimento presente na contra-capa do álbum, Alan Moore diz que os
Freak Brothers foram o mais próximo que os quadrinhos chegaram de Jacques Tati ou Charles Chaplin. Exagero. Mesmo que ele estivesse levando em conta apenas o aspecto humorístico, exagero. Bastaria ter dito que os
Freak Brothers são os
Irmãos Marx dos quadrinhos para a comparação ser mais adequada, sem ficar um pingo menos laudatória.

Gilbert Shelton se inspirou, assumidamente, em Groucho, Harpo e Zeppo e nos 3 Patetas para criar seus personagens no esquema clássico das trincas de cômicos: o mais esperto, racional, normalmente autoritário:
Freewheelin' Franklin; o intelectualmente limitado, idealista, que tenta fazer as coisas do jeito certo e sempre há de pagar pelas lambanças dos outros:
Phineas Phreak, e o completamente desmiolado, burro de dar dó, escravo dos baixos desejos que o levarão a se meter numa roubada atrás da outra e farão dele o personagem mais engraçado do trio:
Fat Freddy.
Terry Jones não exagera quando diz que os
Freak Brothers inventaram os anos 60, e aqui é preciso anotar algo sobre Robert Crumb antes de ir em frente. A contra-cultura está entre os fenômenos sociais mais mal interpretados dos século passado. Até hoje atribuem-se a Crumb rótulos que ele sempre refutou, a última delas sendo uma recente comparação com Michael Moore no lançamento brasileiro do álbum
América. Ainda que com severo olhar crítico, Crumb sempre foi um patriota, orgulhoso de seu país e suas tradições. Crumb sempre esteve muito mais para Tom Wolfe do que para Abbie Hoffman, é o sobrevivente que deu certo.

Já Shelton nunca deixou dúvidas de seu ponto-de-vista anarquista; se usou os
Freak Bros. para levantar críticas ao sistema, não se furtou a evitar piadas com os
hippies, os
freaks, os cabeludos em geral, quase sempre da maneira mais estúpida o possível: gozações sobre falta de banho, sobre as roupas ridículas, sobre a eterna falta de grana – um mote comum para o começo das histórias era, “só temos 20 dólares. Vai comprar maconha para a gente porque
dope will get you through times of no money better than money will get you through times of no dope” – sobre um modismo qualquer da época. Assim, Fat Freddy resolve comprar uma Harley Davidson depois de assistir
Easy Rider no cinema, Phineas Phreak compra ingressos para ir a um grande show ao ar livre (Woodstock? Altamont?), os 3 pegam a estrada para o México, qual Kerouac. Só que eles se ferram, em algum momento pagam o pato, e é nisso que reside a essência de seu humor: a imprevisibilidade. Até quando conseguem terminar uma história ilesos, Shelton acha um jeito de colocar viradas e situações inesperadas nas histórias, aliás, verdadeiras aulas de roteiro: aventuras completas transcorridas em uma única página.
Esse senso de ritmo e humor compensa completamente a quase ausência de tema nas histórias; quase sempre são os rolos em que um dos irmãos se mete indo comprar drogas, ou depois de tomarem essas drogas, ou ainda alguma novidade que leram no jornal e da qual querem fazer parte, ou as tentativas de fugir da temida “dura” policial – exatamente os mesmos temas dos filmes da dupla
Cheech e Chong. A diferença é o olho para o risível de Shelton, para o detalhe torto; como Jaguar, no
Pasquim, Gilbert Shelton poderia estar no órgão político mais radical e uniria sua voz aos gritos de protesto, mas não abriria mão de fazer as piadas mais banais se seu senso de humor apontasse naquela direção, correndo inclusive o risco de ser injusto (hoje em dia, diria-se: “politicamente incorreto”). Exatamente como Jaguar. E para quem notou as citações a Mao Tse-Tung e ainda tem dúvidas do que realmente se passa pela cabeça de Gilbert Shelton, basta dar um pulinho na página da sua editora, a
Rip Off Press, e ver para
quais países eles não enviam seus quadrinhos – ativistas sim, mas negócios são negócios.

Talvez por isso é que os
Freak Brothers tenham envelhecido em bem melhor estado que certos quadrinhos de Crumb: o distanciamento que permitia a Shelton olhar de fora, criticamente, a contra-cultura e, portanto, satirizá-la, é o mesmo que quem não viveu aqueles dias sente ao ler as história, hoje. Descontado o pano de fundo histórico – eximiamente retratado – o que fica são histórias genuinamente engraçadas, bem estruturadas, com excelente ritmo narrativo e detalhamento visual acima dos padrões dos quadrinhos alternativos. Para ler e viajar.