Os irmãos cara-de-pau

Por Rafael Lima — Quarta, 27 de outubro de 2004

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Num lance de grande oportunismo, a editora Conrad lança um álbum dos Fabulous Furry Freak Brothers, depois de um intervalo de vinte anos sem quadrinhos de Gilbert Shelton no Brasil.
No depoimento presente na contra-capa do álbum, Alan Moore diz que os Freak Brothers foram o mais próximo que os quadrinhos chegaram de Jacques Tati ou Charles Chaplin. Exagero. Mesmo que ele estivesse levando em conta apenas o aspecto humorístico, exagero. Bastaria ter dito que os Freak Brothers são os Irmãos Marx dos quadrinhos para a comparação ser mais adequada, sem ficar um pingo menos laudatória.

Gilbert Shelton se inspirou, assumidamente, em Groucho, Harpo e Zeppo e nos 3 Patetas para criar seus personagens no esquema clássico das trincas de cômicos: o mais esperto, racional, normalmente autoritário: Freewheelin' Franklin; o intelectualmente limitado, idealista, que tenta fazer as coisas do jeito certo e sempre há de pagar pelas lambanças dos outros: Phineas Phreak, e o completamente desmiolado, burro de dar dó, escravo dos baixos desejos que o levarão a se meter numa roubada atrás da outra e farão dele o personagem mais engraçado do trio: Fat Freddy.

Terry Jones não exagera quando diz que os Freak Brothers inventaram os anos 60, e aqui é preciso anotar algo sobre Robert Crumb antes de ir em frente. A contra-cultura está entre os fenômenos sociais mais mal interpretados dos século passado. Até hoje atribuem-se a Crumb rótulos que ele sempre refutou, a última delas sendo uma recente comparação com Michael Moore no lançamento brasileiro do álbum América. Ainda que com severo olhar crítico, Crumb sempre foi um patriota, orgulhoso de seu país e suas tradições. Crumb sempre esteve muito mais para Tom Wolfe do que para Abbie Hoffman, é o sobrevivente que deu certo.


Já Shelton nunca deixou dúvidas de seu ponto-de-vista anarquista; se usou os Freak Bros. para levantar críticas ao sistema, não se furtou a evitar piadas com os hippies, os freaks, os cabeludos em geral, quase sempre da maneira mais estúpida o possível: gozações sobre falta de banho, sobre as roupas ridículas, sobre a eterna falta de grana – um mote comum para o começo das histórias era, “só temos 20 dólares. Vai comprar maconha para a gente porque dope will get you through times of no money better than money will get you through times of no dope” – sobre um modismo qualquer da época. Assim, Fat Freddy resolve comprar uma Harley Davidson depois de assistir Easy Rider no cinema, Phineas Phreak compra ingressos para ir a um grande show ao ar livre (Woodstock? Altamont?), os 3 pegam a estrada para o México, qual Kerouac. Só que eles se ferram, em algum momento pagam o pato, e é nisso que reside a essência de seu humor: a imprevisibilidade. Até quando conseguem terminar uma história ilesos, Shelton acha um jeito de colocar viradas e situações inesperadas nas histórias, aliás, verdadeiras aulas de roteiro: aventuras completas transcorridas em uma única página.

Esse senso de ritmo e humor compensa completamente a quase ausência de tema nas histórias; quase sempre são os rolos em que um dos irmãos se mete indo comprar drogas, ou depois de tomarem essas drogas, ou ainda alguma novidade que leram no jornal e da qual querem fazer parte, ou as tentativas de fugir da temida “dura” policial – exatamente os mesmos temas dos filmes da dupla Cheech e Chong. A diferença é o olho para o risível de Shelton, para o detalhe torto; como Jaguar, no Pasquim, Gilbert Shelton poderia estar no órgão político mais radical e uniria sua voz aos gritos de protesto, mas não abriria mão de fazer as piadas mais banais se seu senso de humor apontasse naquela direção, correndo inclusive o risco de ser injusto (hoje em dia, diria-se: “politicamente incorreto”). Exatamente como Jaguar. E para quem notou as citações a Mao Tse-Tung e ainda tem dúvidas do que realmente se passa pela cabeça de Gilbert Shelton, basta dar um pulinho na página da sua editora, a Rip Off Press, e ver para quais países eles não enviam seus quadrinhos – ativistas sim, mas negócios são negócios.


Talvez por isso é que os Freak Brothers tenham envelhecido em bem melhor estado que certos quadrinhos de Crumb: o distanciamento que permitia a Shelton olhar de fora, criticamente, a contra-cultura e, portanto, satirizá-la, é o mesmo que quem não viveu aqueles dias sente ao ler as história, hoje. Descontado o pano de fundo histórico – eximiamente retratado – o que fica são histórias genuinamente engraçadas, bem estruturadas, com excelente ritmo narrativo e detalhamento visual acima dos padrões dos quadrinhos alternativos. Para ler e viajar.




COMPRAS
Livro > Zap Comix (Robert Crumb)
Livro > Minha Vida (Robert Crumb)
Livro > Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos (Robert Crumb)
Livro > Fritz the Cat (Robert Crumb)
Livro > Mr. Natural: Vai ao Hospício e Outras Histórias (Robert Crumb)
Livro > Gênesis (Robert Crumb)
Livro > Kafka de Crumb (David Zane Mairowitz)
DVD > DVD O Dia do Terror (Katherine Heigl, Jamie Blanks, Denise Richards, Marley Shelton, David Boreanaz, Dylan Sellers)

 

VEJA TAMBÉM...
08/02 > Primeira imagem do filme dos Freak Brothers
22/10 > Freak Brothers lançados pela Conrad

 

 

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