Nós Vimos: Offspring no RJ

Por Marcelo Tavela — Segunda, 25 de outubro de 2004

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(ou envelhecendo com o punk rock)


Outubro de 1997. Inxay on the Hombre, quarto álbum do Offspring, saíra há alguns meses. All I Want martelava nas rádios. Completando, a banda passava por terra brasilis pela primeira, passagem tão marcante para banda (da onde vocês acham que saíram aqueles um, dois, três, quatro, cinco, cinco, seis usados em Pretty Fly for a White Guy?) quanto para os vários fãs brazucas que aguardam a vinda desde a explosão da banda com o Smash. O ingresso do Metropolitan custa R$ 20. O povo de 14 anos vai ao delírio.

Outubro de 2004. Splinter, sétimo álbum da banda californiana, saíra há quase um ano. Hit That, (Can’t Get My) Head Around You e Worst Hangover Ever se revezam nas rádios. E o Offspring passa pela terceira vez no Brasil. O ingresso do Claro Hall custa R$ 100. O povo de 14 anos vai ao delírio. E, junto com eles, alguns sujeitos com cara que saíram direto do trabalho, outros recriminando os punks de boutique numa espécie de autocrítica e, definitivo amadurecimento - até biológico -, gente trazendo seus filhos.

Cervejas no estacionamento, compradas através da grade com o pessoal da CDD que foi lá ganhar sua grana honesta. Logo ao adentrar o recinto, Atom Willard começa a marcação no surdo, e conclama o público. Bancarei o resenhista honesto: não tenho a mínima idéia de qual foi a música de abertura. Parei depois do Americana, só conheço o que tocou nas rádios. Nem achei boa, mas os meninos do meu lado gostaram bastante. Serviu para os técnicos ajeitarem o som, que começara sofrível.

Posso estar presumindo errado, mas a banda parecia consciente da recepção mais fria entre os mais velhos. Os “iaiaiaiaiaiá” de um semi-roliço Dexter Holland (não chega ser um Frank Black, mas um dia ele chega lá) na introdução de All I Want resolvem a questão. Pulo no meio dos meninos do meu lado. Todos temos 14 anos. E Come out and play em seguida só ajuda na regressão.

Algumas simpáticas músicas mais novas, como Want you Bad e Hit That, me colocaram de volta no meu tempo. Noodles e sua camisa anti-Bush pulavam na minha frente. Parei para pensar se os cabelos brancos do guitarrista eram pintados. Parei com qualquer divagação na introdução de Gone Away.

E os tempos iam e vinham pelas 1h20 de apresentação. Iam com Gotta Get Away e Bad Habit. Vinham com Pretty Fly for a White Guy e Why Don’t You got a Job. Ficavam parados/indiferentes nas músicas atuais. Ponto alto para a empolgante The Kid’s Aren’t Alright, música com citação The Whoriana, que traduz bastante da degradação econômica de algumas regiões centrais dos Estados Unidos. Se aplica a classe média brasileira também.

Após a pausa para a água (ou derivados), o bis começa com uma fria tributação através de Blitzkriek Bop, daquela banda que começa com R. Meio desnecessário. A bacana (Can’t Get My) Head Around You faz o recheio. Antes da última música começar, o povo já está gritando seus “la-la-la-la-lá”. Self Esteem é a cereja do bolo.

Talvez a mais conhecida música do Offspring – não fecha show à toa – já exerceu, no seu locus espaço-temporal, a função “hino de incerteza adolescente”. Paranoid do Black Sabbath e Creep do Radiohead jogam na mesma posição. Mas é bem curioso, até engraçado, ver aqueles trintões realizados, felizes, fazendo o que querem, com milhares (talvez milhões?) de dólares no bolso, cantando “Sou um otário com nenhuma auto-estima”. E também curioso ver na platéia pessoas que, mesmo não tendo milhares de dólares, não são mais “otários sem nenhuma auto-estima”. Mas, enfim, o (punk) rock nunca se propôs a ser a resposta, somente a indagação, a voz para estas perguntas, respondidas mais tarde na vida. E, como diz um dos entrevistados do documentário Hype, enquanto houver um moleque frustrado, o (punk) rock continuará existindo.

Em tempo: Que saber como foi o show de São Paulo? Dexter e Atom já escreveram sobre no diário da banda. Clique aqui e leia como eles deixam clara a posição geográfica da cidade.




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