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A verdadeira história de Pai Mei
Por Luiz Eduardo Ricon — Sexta, 22 de outubro de 2004
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Quem assistiu ao filme Kill Bill vol.2 pode ter ficado meio intrigado com o pequeno desvio que a história faz num momento crucial, só para mostrar em flash-back o treinamento da Noiva (aka Black Mamba), interpretada por Uma Thurman, com Pai Mei, um mestre chinês grosseiro e rigoroso, de longas madeixas, sobrancelhas e barbas brancas. Mimetizando a fotografia, os enquadramentos, os movimentos de câmera, os truques, cacoetes e “defeitos” especiais característicos do gênero, Quentin Tarrantino fez, nesse pequeno capítulo da sua hitstória, mais uma grande homenagem aos filmes de kung fu.
Para quem (como eu) costumava frequentar as saudosas sessões “sexo & caratê” dos pulgueiros, aqueles cinemas decadentes do subúrbio nos anos 70, essa parte do filme foi uma verdadeira volta no tempo, um agradável reencontro com um personagem pra lá de conhecido: o notório Pai Mei, eternizado nas telonas como o malvadão preferido de 9 entre 10 filmes que tinham a palavra Shaolin no título.
O Pai Mei de Tarantino
Em Kill Bill vol.2, Pai Mei é interpretado por Gordon Liu (ou Jia-hui, ou ainda Lau Kar-fai, em cantonês), que interpetou o papel de Johnny Mo, da gangue dos 88 loucos, trucidados impiedosamente no vol.1. Gordon Liu é um dos atores mais reconhecidos e populares dos filmes de kung fu da velha escola do estilo Shaolin. Durante mais de 10 anos, ele foi uma das estrelas do legendário stúdio dos Irmãos Shaw, onde estabeleceu sua imagem como o monge bonzinho de cabelos raspados, que defendia seu amado monastério Shaolin das investidas dos violentos e opressores imperialistas Manchu, ajudando a disseminar o conhecimento das artes marciais através da China.
Gordon Liu nasceu em Cantão, na China, em 1955. Seu verdadeiro nome é Xian Qixi, que foi anglicizado como Louis Sin. Quando sua família se mudou para Hong Kong, ele foi morar próximo a uma escola de artes marciais dirigida pelo lendário Lau Char, mestre do estilo Hong Gar de kung fu. Foi seu mestre quem o introduziu no mundo do cinema. Por conta dessa relação tão próxima entre os dois, mais tarde, Gordon Liu adotaria o nome de Lau Far, numa homenagem ao seu mestre e padrinho. Sua estréia nas telas aconteceu em 1978, no sucesso internacional “A 36ª Câmara de Shaolin”, felizmente batizado em inglês como “The Master Killer” (O Mestre Assassino). E ele ainda pode ser visto hoje em dia, frequentando os filmes de kung fu que volta e meia são exibidos pela rede Bandeirantes.
Pai Mei ou Bai Mei?
Na verdade, nos meus tempos no monastério Shaolin (acredite, foram anos e anos diante dos filmes mais inacreditavelmente toscos de que se tem notícia!), Pai Mei se chamava Bai Mei, e olha, esse cara tem uma história absolutamente infame, que mistrura lenda e verdade, como quase tudo que cerca os grandes mitos das artes marciais.
Essa história começa durante a dinastia Qing, (1644 a 1911), com um monge do templo Shaolin de Henan, chamado Bai Mei (“Sobrancelhas Blancas”). Ele era chamado assim devido à cor de suas sobrencelhas, o que podia se dever tanto à sua idade avançada quanto ao fato dele ter nascido albino.
Conta-se que Bai Mei foi um dos únicos cinco sobreviventes do incêndio do monastério Shaolin, provocado pelos manchus em 1768. Muito provavelmente, o monge Bai Mei (também conhecido como Pak Mei, em Cantonês, ou Pai Mei, como em Kill Bill) é um dos vilões mais notórios das artes marciais, apontado como o culpado por uma das maiores tragédias de toda a história do kung fu, quando teria taído o templo Shaolin do Sul. Existem diversas lendas que apresentam Bai Mei como um dos resposáveis pela destruição do monastério Shaolin, enquanto outras dizem que ele decidiu permanecer numa posição de neutralidade durante a revolta contra o regime Qing, e que um dos seus descípulos, um famoso lutador, foi contratado pelos manchus para caçar e matar os monges rebeldes. Outra versão diz que Bai Mei foi capturado pelos manchus e, temendo por sua vida, decidiu unir-se a eles, ajudando uma tropa manchu a se infiltrar no templo. Depois disso, o monastério teria sido reduzido a cinzas num grande incêndio, deixando como saldo alguns poucos sobreviventes.
Porém, de acordo com o mestre Chou Deji, de Foshan, descendente direto de Bai Mei, seu ancestral nada teve a ver com o incêndio de 1768 e esta história errônea teria sido propagada pelo povo, o que fez com que o estilo de kung fu desenvolvido e ensinado por Bai Mei tivesse praticamente desaparecido do conhecimento público, já que os seus praticantes eram considerados como traidores, sendo constantemente perseguidos.
Se isso é verdade ou mentira, eu não sei.
Quem deve saber disso muito melhor do que eu é o Marcelo Del Debbio, nosso companheiro aqui no SoBReCarGa, que nas horas vagas tira umas casquinhas como mestre de kung fu e de RPG.
O fato é que Quentin Tarrantino resolveu resgatar Bai Mei (ou Pai Mei, se vocês preferirem...) das brumas do passado, trazendo-o de novo às telas, para delírio dos fãs do kung fu cinematográfico, com suas coreografias e acrobacias mirabolantes, seus golpes e movimentos impossíveis, seus efeitos sonoros e dublagens desencontrados e principalmente, aquele encanto inocente e genuíno e o gostinho doce das memórias afetivas.
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