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Compartilhando a bagunça: os universos das HQs
Por Leonel Dorkboy — Terça, 19 de outubro de 2004
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Olá e bem-vindos de novo a este fórum de discussão de inutilidades, fanboys e fangirls. Hoje vestimos mais uma vez nossos colantes para outra coluna sobre super-heróis. Mais especificamente, sobre os universos de super-heróis. Estou ouvindo alguém dizer “iiihhh...”?
Se estou, então é porque vocês já sentiram o drama de discutir os mega-complexos universos e continuidades super-heróicas (e, se não estou, são só os duendes que falam comigo pregando peças de novo). Na verdade, eu pensei em intitular esta coluna “Ei, você não estava morto?”, o que é um panorama resumido mas acurado da lambança que são os mundos onde vivem os nossos supers.
À primeira vista, um universo gigantesco como o de uma Marvel ou DC parece algo maravilhoso. Quer dizer, aí está um panorama intrincado e rico onde se passam literalmente centenas de histórias fascinantes (e outras nem tanto). Parece o playground ideal para um escritor imaginativo: quem não desejaria ter um elenco de personagens tão extenso, imaginativo e adorado para brincar? A resposta é: aparentemente, muita gente.
Devido à influência das gigantes do mercado, os quadrinhos super-heróicos viraram quase sinônimo de uma coisa que alguns chamam de “mundo compartilhado” (shared world é uma expressão bem comum em inglês, embora eu nunca tenha ouvido o seu equivalente em português). Os supers obrigatoriamente vivem em mundos povoados de outros seres como eles, mundos cujas histórias são relatadas em diversos títulos e cuja geografia e pontos de interessa são detalhados ao longo dessas histórias. Isso é ótimo à primeira vista e durante os primeiros tempos de existência dos tais “mundos compartilhados”, mas logo começa a atrapalhar. Experimente explicar para alguém a continuidade dos X-Men. Pessoalmente, eu acho impossível. Não só porque, com décadas de histórias mensais, os X-Men têm um passado complicado demais, mas também porque há contradições extensas e variadas, que simplesmente impossibilitam a existência de uma “história contínua”. Ou você leva em consideração algumas histórias e descarta outras, ou esquece o próprio conceito de continuidade. Isso, é claro, é fruto dos inúmeros escritores que trabalharam com esses personagens ao longo dos anos (é claro que os X-Men são só um exemplo), e que, em um certo momento não têm mais, obviamente, como ler tudo o que veio antes. Daí entramos em contradições. Daí ocorrem os conflitos. Daí vira bagunça.
Mas a tal da continuidade é só um dos aspectos complicados e problemáticos dos mundos compartilhados. Outro, talvez mais grave, é a própria contradição de elementos do mundo. Quer um exemplo? Na revista New X-Men (só pra continuar citando os mutantes) temos o curandeiro Xorn habitando a Mansão X. Na revista Uncanny X-Men, esse tal curandeiro nunca aparece, cabendo à enfermeira (!!!) Annie tratar de todos os ferimentos de todos os X-Men. Não é continuidade: é coerência.
Aí nós vemos tanto os problemas de se ignorar o trabalho dos outros num “mundo compartilhado” quanto os problemas de levar isso sempre em conta. O escritor (o pavoroso Chuck Austen, se bem me lembro) queria introduzir uma personagem enfermeira. O Grant Morrison já tinha introduzido o tal curandeiro super-poderoso. Ao colocar a enfermeira na história, Austen criou uma situação absurda. Contudo, se levasse em conta o trabalho do Morrison, ele não ia poder trabalhar a personagem! É uma situação sem saída.
O que ocorre é que, obrigatoriamente, o desenvolvimento de um personagem vai limitando as possibilidades de situações com ele. Por exemplo, se nós estabelecemos que o Batman não mata, isso impossibilita que se crie uma história sobre ele chacinando uma gangue de traficantes. Esse exemplo é bem simples (e bobo), mas dá para sentir o problema, não é? É claro que escritores de talento conseguem trabalhar dentro dos parâmetros do universo que lhes é dado, mas, em um certo momento, os personagens já foram colocados numa quantidade tão absurda de situações (e foram detalhados tão extensamente) que começa a ser necessário um nível de competência irreal dos escritores. Afinal, nem todos podem ser ganhadores do Nobel de literatura...
Esse é um problema sem solução? Na minha opinião, não. Basta, para evitar bagunçar ainda mais os universos de HQs, se preocupar com acrescentar novidades, e não voltar ao passado ou reformular o que já foi feito. Talvez o Batman não vá chacinar uma gangue de traficantes, mas ele pode, sei lá, deixar que a tal gangue morra por omissão, e depois lidar com as conseqüências morais disso. Contudo, muitos escritores parecem querer deixar a sua “marca” no personagem, e, por isso, acabam complicando as coisas e entrando em contradição. Parece que todos querem “finalmente revelar o passado negro de Jubileu!” ou “contar a verdade sobre o velhinho que Matt Murdock salvou no acidente que lhe deixou cego!”. O que houve com simplesmente entreter os leitores?
Outra solução (necessariamente utilizada em conjunto com a primeira) é a simples presença de um editor ativo. O trabalho dos editores, entre outras coisas, é não deixar que histórias absurdas ou inadequadas sejam publicadas. É claro que, aí, nós caímos no velho problema do “conhecimento enciclopédico”: nenhum editor é um computador para ter na memória todas as histórias da Marvel ou da DC. Mas ele pode pelo menos tentar.
Tomando como exemplo (estou adorando exemplos hoje) o universo Ultimate, parece que nem isso os editores andam fazendo. Os títulos desse (ainda restrito) universo entram em contradição uns com os outros, partem de premissas que se cancelam mutuamente, e, com toda a franqueza, nem tentam conviver em harmonia. Será que isso é tão difícil numa linha de HQs com menos de cinco anos de idade, escrita por apenas três escritores que são todos amigos entre si?
Sim, nós poderíamos simplesmente ignorar tudo isso e aproveitar a história (e, sim, eu tenho consciência de que não vale a pena perder o sono por causa disso ;) ). Mas aí, eu pergunto, qual é o propósito dessas drogas de universos então?
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