Luz verde desfaz as trevas

Por Rafael Lima — Quinta, 14 de outubro de 2004

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No meio da década de 80, um leitor qualquer da Marvel ou DC era um completo refém da Abril, detentora dos direitos dos personagens das 2 editoras no Brasil. O que ela decidisse publicar, chegava ao público; todo o resto, estava sujeito a dificuldades de importação, conhecimento da língua inglesa e um câmbio desfavorável. Eram tempos complicados para qualquer leitor que quisesse fugir minimamente do mundo Batman-X-Men. Por isso é que hoje eu dou saltos de alegria quando encontro numa gibiteria uma edição como a da Opera Graphica para o Lanterna Verde e Arqueiro Verde de Dennis O’Neil e Neal Adams.

Muito da poeira que subiu no mundo em 1968 já estava mais do que assentado em 1970, mas pouco havia chegado às histórias em quadrinhos, quanto mais as de estúdio, os super-heróis. Julius Schwartz, o notável editor, teve a sensibilidade de juntar dois nomes de destaque do mercado (Adams acabara de revitalizar os X-Men, embora não tenha evitado o cancelamento da revista) para experimentar possibilidades na revista de um personagem meio gasto, o Lanterna Verde, contando com um coadjuvante de luxo (também em baixa): Arqueiro Verde. Além disso, Julius deve ter dado de presente a coleção completa de discos do Bob Dylan para O’Neil. E ele fez o dever de casa.

A grande sacada de O’Neil na série foi ter, de alguma maneira, tornado verossímil a disputa entre dois super-heróis inacreditavelmente poderosos e os malfeitores mais rastaquera possível: coronéis do interior, donos de creches, líderes religiosos fundamentalistas. Ao criar um Lanterna Verde inseguro, menos poderoso, cria um terreno perfeito para a exploração de mazelas humanas, para a inserção da chamada "contrapartida social" em meio a uniformes verdes. Não era original nesse enfoque – todos os personagens da Marvel estavam em sintonia fina com seu tempo, quando foram lançados no começo da década de 60, mesmo que o tal conteúdo social passasse longe dos temas centrais, mesmo que, quase 10 anos depois, a revolução já estivesse no horário nobre – nem foi perfeito (Howard the Duck saiu-se muito melhor, apesar da galhofa) – mas era transformador ao agregar esses temas ao discurso oficial: por muito tempo, as revistas da DC foram identificadas com o partido republicano e o "sistema", e agora Dennis provava que eles também sabiam das coisas.
Funcionou – tanto quanto qualquer história de super-herói com conteúdo pode funcionar.

É meio estranho ver aqueles dois seres ultra-poderosos caindo como frutas podres frente aos ladrões de salame que haviam sido banidos das Hqs há 3 décadas. Mais estranho ainda é ver o ex-milionário Oliver Quinn, o Arqueiro, fazendo discurso social inflamado e levando Hal Jordan, o Lanterna, para conhecer o outro lado do sonho americano. Aliás, esse equilíbrio entre o radical (Quinn é o perfeito limousine liberal, o morador do Leblon que vota no PT) e o ponderado, o cidadão classe média que estranha as mudanças, é um dos pontos altos da série de histórias – tanto que exatamente aquela personalidade foi pinçada por Frank Miller para imbuir o Arqueiro nas duas edições d’O Cavaleiro das Trevas: Quinn é o comunista, ainda que radical chic, enquanto Batman porta as cores do anarquismo.

Já Adams não precisava inventar nada quando assumiu o lápis da série. Como o personagem título estava decadente, ele teve liberdade para inovar nos enquadramentos – não a liberdade completa que desfrutou nos X-Men, quando arrepiou rachando a página diagonalmente, mas o suficiente para destacar-se claramente em seu meio. A concepção realista dos coadjuvantes (herdada da publicidade), as perspectivas tonteantes e as cenas de ação superiores inspiraram uma coleção de seguidores do porte de Mike Grell, Bill Sienkiewicz, John Byrne, Dave Sim, todos donos de brilhantes estilos pessoais depois que pararam de imitá-lo. E Neal Adams ainda desenhava as mulheres mais bonitas dos quadrinhos.


A edição da Opera Graphica peca por trazer apenas 2 histórias (além de longo texto remissivo), por refazerem todas as cores e pela digitalização das imagens, que mata os traços finos e detalhes do traço. Tem por mérito principal publicar, em formato decente, histórias marcantes, que não aparecem no Brasil há mais de 20 anos – a última vez foi nos formatinhos de Heróis em Ação e Superamigos, não raro com páginas faltando e diálogos truncados. Mas dessa vez os editores parecem ter sido mais iluminados. Nem que seja com a luz verde.




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