Ouça no volume máximo (2ª parte)

Por Marcos Vasconcelos — Quinta, 14 de outubro de 2004

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Em 1992, o Legião Urbana, que até então nunca tinha lançado um álbum ao vivo, gravou "Música para Acampamentos", disco duplo que trazia algumas faixas de grandes shows, outras do Acústico MTV (que só mais tarde viria a ser lançado em CD), trilhas gravadas em programas de rádio (pois o Legião jamais se apresentou na televisão, em programas como Xuxa, Faustão e similares) e músicas obscuras de estúdio, como "A Canção do Senhor da Guerra". No ano seguinte, 93, era lançado "O Descobrimento do Brasil", uma espécie de acerto de contas com o punk, uma pacificação com guitarras potentes, bateria bem marcada e temas mais ácidos nas letras, como no sucesso "Perfeição". E enquanto os antigos fãs apostavam na decadência do grupo, uma nova leva de aprendizes começava, a partir desse disco, a idolatrar o Legião e a fazer de canções como "O Descobrimento do Brasil", "Vinte e Nove" e "Os Anjos", palavras de ordem, assim como também tentar manter viva a frase "ouça no volume máximo", que havia em todos os encartes dos discos do grupo. Dois anos depois, em 95, era lançada a box de lata com os seis primeiros discos do Legião, um sonho de consumo caríssimo que eu só vim a comprar muito tempo depois.

Mas já não havia muito tempo. Renato Russo, que assim como Kurt Cobain nunca teve uma relação amistosa com a fama e com os fãs, já estava no limite de sua paciência. E foi então que ele começou a buscar outros caminhos, que o afastassem do messianismo que a liderança do Legião colocava em suas costas. Renato gravou um disco de standards em inglês ("The Stonewall Celebration Concert", 1994), e depois em italiano ("Equilíbrio Distante", 1995) . Restou-lhe fôlego para apenas mais um trabalho frente à banda, o obscuro "A Tempestade", gravado entre janeiro e junho de 1996. Este, e não o disco "V", finalmente seria o réquiem da banda. Renato morreu em outubro do mesmo ano e a banda morreu com ele. Apenas uma música deste álbum, ainda que na voz de Cássia Eller, chegou a fazer sucesso: "1º de julho", ainda que os tardios fãs tivessem tentado transformar a canção "Dezesseis" no canto do cisne do grupo.

Dado Villa-Lobos, o guitarrista alçado a produtor musical, cuidou então de remexer o baú de Renato Russo. Desde então foram lançados o "Acústico da MTV", o disco "Uma Outra Estação", que trazia as últimas gravações de estúdio da banda e algumas canções antigas, a coletânea "Mais do Mesmo" e dois álbuns duplos com apresentações ao vivo: "Como é que se diz Eu te Amo?", gravado no Metropolitan em 1994, o último show do grupo, e "As Quatro Estações ao Vivo", antológica apresentação realizada no Parque Antártica, em São Paulo, no ano de 1991. Além disso, ainda foram lançados mais dois discos solos póstumos de Renato Russo: "O Último Solo" (1997) e "Eterno Presente", que em 2003 ainda teve fôlego para alçar a canção "Mais uma Vez", música gravada em 1987 em parceira com Flávio Venturini, à condição de uma das mais tocadas no rádio naquele ano. Tenho para mim que somente "Velha Infância" dos Tribalistas, tocou mais.

Fechou-se assim o ciclo do Legião Urbana, ainda que, como as flores de plástico dos Titãs, seja difícil imaginá-los sendo esquecidos ou ignorados pela história. O legado de Renato Russo e Cia., tanto melodica como filosoficamente, retrata como poucas obras, a face de um país - e da juventude desse país - que buscava se descobrir e se encontrar, mas não sabia quem era. O país e seus jovens ainda não sabe quem são, mas sem dúvida sempre será possível dizer que somos tão jovens e temos todo o tempo do mundo. Eles, apesar de tudo, o tiveram, na fração infinita de sua existência. Urbana Legio Omnia Vincit.

Para encerrar, uma das coisas boas de se ter na cabeça e na estante toda a discografia de uma banda, é poder brincar com certas listagens. Como, por exemplo, indicar o "best of the best" da obra do Legião
Urbana.

- 1º sucesso: "Será" (Legião Urbana, 1984)
- Último sucesso: "1º de Julho" (A Tempestade, 1986)
- A música mais característica do grupo: "Será" (Legião Urbana, 1984)
- A música mais tocada em acampamentos: "Tempo Perdido" (Dois, 1986)
- O grande fenômeno de rádio: "Faroeste Caboclo" (Que País é Esse, 1987)
- A música mais tocada em bares: "Pais e Filhos" (As Quatro Estações, 1989)
- A música mais triste: "Vento no Litoral" (V, 1991)
- A melhor letra: "Índios" (Dois, 1986)
- A melhor melodia: "Angra dos Reis" (Que País é Esse, 1987)
- A minha música preferida: "Eu Sei" (Que País é Esse, 1987)
- A mais irônica: "Metrópole" (Dois, 1986)
- As mais obscuras: "Sagrado Coração" (Uma Outra Estação, 1997), que apesar de ter letra foi gravada apenas instrumental, pois não havia registro na voz de Renato Russo; e "O Grande Inverno na Rússia", que foi citada no disco "Que País é Esse", mas jamais foi gravada.
- A mais polêmica: "Dado Viciado" (Uma Outra Estação, 1997)
- A mais romântica: "O Mundo Anda tão Complicado" (V, 1991)
- A mais raivosa: "Mais do Mesmo" (Que País é Esse, 1997)
- A mais longa: "Metal contra as Nuvens" (V, 1997)
- A mais curta: "Central do Brasil" (Dois, 1996)
- A melhor música que nunca foi sucesso de rádio: "Fábrica" (Dois, 1986)
- O sucesso de rádio mais chato: "Quase Sem Querer" (Dois, 1986)
- A música mais difícil de cantar: "Faroeste Caboclo" (Que País é Esse, 1997)
- A música mais difícil de tocar: "Música Urbana 2" (Dois, 1986)
- A que ninguém lembra: "Acrilic on Canvas" (Dois, 1986)
- A que ninguém esquece: "Ainda é Cedo" (Legião Urbana, 1984)
- O retrato de uma geração: "Geração Coca-Cola" (Legião Urbana, 1984)
- O retrato de um tempo: "O Teatro dos Vampíros" (V, 1991)
- O retrato de um país: "Perfeição" (O Descobrimento do Brasil, 1993)


Discografia:
- Legião Urbana, 1984
- Dois, 1986
- Que País é Esse, 1987
- As Quatro Estações, 1989
- V, 1991
- Música para Acampamentos, 1992
- O Descobrimento do País, 1993
- Por Enquanto (lata), 1995
- A Tempestade, 1996
- Uma Outra Estação, 1997
- Mais do Mesmo (coletânea), 1998
- Acústico MTV, 1999
- Como é que se diz Eu te amo? (ao vivo), 2001
- As Quatro Estações Ao Vivo, 2004.




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