Começo da tarde de sexta, dia 8 de outubro, e o motor do não tão poderoso Cavalier vermelho estava rodando tranquilo e calmo em seu caminho para Nova Iorque. Dentro do carro, três loucos maravilhados com a idéia de ver mais um show fenomenal. Até a Big Apple ainda tinha muito chão e, dentro do carro, fitinha k7 tocando sem parar hits como Blitzkrieg Bop, só pra instigar mais a vontade de pular feito louco. O entusiasmo não era pra menos, o objetivo era chegar no show "Be Well", organizado por CJ Ramone e Arturo Vega. Na idéia inicial da produção, este seria um show comemorativo do aniversário de CJ e de Johnny, mas como este último morreu, transformaram a festa em concerto beneficente em prol do estudo do câncer. A grana irá para o Cedars Sinai Cancer Research Centre and the Lymphoma Cancer Research Foundation. Sem problema. Terá Ramones no palco? Ótimo! A promessa era de festão. Junto com CJ, subiriam ao palco Blondie, The Strokes, Sonic Youth e vários artistas convidados. A viagem era imperativa.
Depois de muito chão, pedágios chatos, paradas estratégicas para atividades estratégicas e muito roquenrou no toca-fitas do carrinho vermelho, atravessamos o Lincoln Tunnel e dirigimos mais uma vez pela tal "cidade que nunca dorme". Quem não ia dormir de jeito nenhum era o grupo do tal Cavalier, até mesmo porque a grana curta nos impediu de esquematizar um hotelzinho honesto. Depois de pagar $50 pelo ingresso e desviar um tanto para pedágios e gasolina, sobrariam mirrados dólares para uma cervejinha, e só. Achamos um lugar mocado para guardar o possante e, andando, fomos pra porta do
SPIRIT, lugar do show. Não dava pra perder tempo, até mesmo porque uma fila bem sugestiva já estava formada na porta do buraco. Fila muito diversificada, por sinal, com moicanos, gel, cores, preto, sorrisos, caras fechadas, velho, novo, etc. Agora, nela, três brasileiros. Desses três, só eu tinha tido a felicidade de ver Os Ramones no palco, na última turnê do grupo, coisa que não abafava minha satisfação de estar ali na fila, junto com toda aquela cabeçada heterogênea.
Quando o relógio marcou 18:00h, as portas do Spirit abriram. A galera foi euforicamente pra dentro do buraco, correndo para ficar o mais perto possível do palco, enquanto uns punks mais ortodoxos faziam cara de blasé e se preparavam para alguma rodada de algo mais acachapante em algum canto escuro, brincando com coisas impublicáveis. Eu, como bom brasileiro, resolvi ficar escondido no meio da multidão, quietinho, esperando o começo da confusão musical. Coisa que, por sinal, demorou umas duas horas pra começar. Enquanto esperávamos, íamos curtindo a exposição de objetos dos Ramones, que incluia o troféu do Rock’n’Roll of Fame e guitarras de Johnny, jaquetas de DeeDee, calça e óculos esquisito de Joey e uma pá de inutilidades legais. Fora esses ítens pessoais, a exibição contava com fotos feitas pela elite dos fotógrafos do punk de Nova Iorque, como
Bob Gruen, Godlis, Leland Bobbe, Roberta Bayley e
Stephanie Chernikowski, que imortalizaram a geração CBGB. Também me deliciei um tanto com o set list do último show da banda, todo autografado pelos músicos que fizeram parte da despedida.
Saímos corridos da área de memorabilia. Alguém gritava a plenos pulmões que o show ia começar. No palco um tal de
Mickey Leigh fazia as vezes de apresentador do evento junto com Arturo Vega, diretor de arte dos Ramones, criador da primeira camisa do grupo. E eles faziam o show demorar pra começar, embromavam, queriam construir um clima de mistério. Nada agradável... Enquanto os malucos iam falando, descobri que o bizarro Mickey era irmão de Joey ( explicado o motivo dele estar ali? ).
E começou! Vieram as distoções provenientes do
Sonic Youth, logo de cara. A galera foi ao chão! Nunca imaginei que uma música do quarteto punk do Queens pudesse ficar mais suja do que já era, mas esta outra banda de Nova Iorque ia me mostrando que era possível, sim. Pena que por culpa de um possível protocolo mal desenhado, os caras tenham que ter pulado dali com certa pressa, deixando todo mundo com aquele gostinho de “quero mais” bem clichê. Sorte que tudo estava só começando.
Com o "tchau" dos nova-iorquinos na Juventude Sônica, sobe ao palco
C.J. Ramone, tacando logo na cara da platéia um seco "One, Two, Three, Four!", seguido firmemente por um time de músicos que mais pareciam uns bárbaros ávidos por sangue, tamanho o empenho. No palco, nada menos que gente como
Daniel Rey, Joan Jett, Andrew WK, David Johansen, Alan Vega... Gente a dar com pau! Todos se revezando entre instrumentos para pregar na testa da audiência músicas célebres e petardos do lado B, como a mítica Carbona not Glue. Certa vez, na bateria, um tal de
Elvis Ramone mostrou-se bastante íntimo do trabalho. Pra quem num sabe, este fulano durou semanas nos Ramones, entre a safra Ritchie/ volta de
Marky. Andrew WK, com seu melhor estilo "party hard", não deixou a desejar. O cara cativa no palco, mesmo soando forçado. Só devemos considerar que ele tocando algo dos famosos três acordes fica muito bem, devido sua energia que parece inesgotável. WK merece o troféu pulmões de ouro da apresentação e os louros de suador profissional. Dando espaço para Joan Jett, o show ganhou um certo ar sexy. Ficou bem mais agradável de se ver. A mulher detona! Mas, o que mais me alegrou foi a presença do líder do Queens of the Stone Age, Josh Homme. Essa jam foi qualquer coisa de orgásmica! Amigo de CJ há anos, Josh também provou que tem intimidade com o baixista dos Ramones no palco. A quantidade de riffs bem-feitos e coesão foi de maravilhar até o mais cético. Homme conseguiu aliar inventividade e tradicionalismo nas suas leituras, e agradou gregos e troianos. Foi ovacionado!
Ok, calma, geral precisa de um ar. Eis que entra no palco um ancião. Disseram ser
Tommy Ramone. O homem das baquetas primordiais estava irreconhecível. Ele apareceu, entretanto, para ler uma mensagem, quase um agradecimento. Disse, mais ou menos, que Os Ramones eram especiais, os grandes conhecedores do verdadeiro rock e todo aquele papo de salvamento da música, abolição de solos chatos de bateria e lisergia castrada. Gabou-se de ter feito parte de um grupo que inspirou
NY Dolls, The Stooges e
MC5. Disse também que
Os Ramones foram a junção perfeita entre talento, inteligência e psicoses. Terminou agradecendo Johnny por ter sido o pilar da banda por todos os 22 anos de estrada, e aproveitou para reler a mensagem que o guitarrista tinha mandado para a platéia do show de 30 anos da banda, três dias antes de morrer, agradecendo aos seus fãs pela lealdade e dedicação.
Aplausos, banner com Johnny aparece do nada, gritos em geral. O cara merece. Não duvido que algum punk dos mais imundos tenha deixado uma lágrima furtiva rolar por seu rosto... Verdade, chegou a ser comovente.
Depois de Tommy, foi a vez do
Strokes fazer seu barulho. Confesso que brochei transtornantemente. Uma bandinha muito sem sal, que consegue ficar chata até tocando Ramones. Sem falar da total falta de carisma e habilidade do tal vocalista, filho do chefão de uma agência de modelos, que tem grandes chances de ser um ótimo poser decadente. Qualquer banda de garagem teria feito homenagem mais expressiva e decente. Pelo entusiasmo decrescente ao longo da apresentação dos caras, deu pra notar que eu não estava sozinho na crítica negativa ao som deles. O clima de chateação tava tão dilatado, que foi possível encontrar vários focos de fumaça estranha e alguns pontos de atrito físico, com possibilidade de gritos e coisas voando, tudo com um teor meio violento.
A paz e diversão voltaram com
Blondie sob as luzes.
Debby Harry, abusando de um charme já antigo, aparece com jaqueta de couro e uma voz que poderia causar furor em qualquer homem do planeta. Todos embasbacados, babando, enquanto a coroa enxuta dançava confortavelmente. Foi o ponto charmoso de uma festa recheada de suor, tatuagens e caras feias. Era possível querer parar de pular só para ficar vidrado, hipnotizado por Debbie. Apesar de sua idade quase que dinossáurica, a mulher provou ser filha do rock, com coração e alma vendidos pra Satã. Nunca vi tanto punk com cara de bobo. Ok, tá no clima...
O repertório de todos foi o de praxe, algo tipo Loco Live, numa levada
We´re Outta Here. Da mistureba total de estilos e poses, conseguiu-se fazer um show inesquecível pra quem curte distorção e punk. Ainda era possível sair do show com a sensação de ter ajudado, já que a grana iria para causa nobre. E ainda tem gente que sugere que Os Ramones acabaram. De jeito nenhum, It’s Alive!, como o nome do primeiro disco ao vivo sugeria.
Os Ramones continuam mais vivos do que nunca, apesar dos pesares, e ainda tacam fogo na galera. Aliás, alguém duvidava disso!? Como disseram: Se tiver um Ramone no palco, já basta para que o inferno corra solto. Sugestivo para quem curte o bom e velho rock’n’roll, certo? E foi o que aconteceu.
Arturo Vega terminou a festa dizendo por muito tempo vários “Thank you very much”, “Long live for rock’n’roll” e “Ramones forever”. Foi maravilhoso. Na saída do tal Spirit, ainda foi possível virar platéia de uma briga cinematográfica, com direito a polícia, baculejo geral e alguns rodando pra “DP”. Não achava que pudesse existir tanto punk sanguinário no mundo de 2004, mas tive de mudar de opinião e ficar esperto. O clima pesou e ficou perigoso. Chegamos a ver dois caras atracados, rolando na rua, cada um com mais gana de sangue que o outro. Pelo que deu pra entender, aquele era o feliz encontro de duas facções rivais de punks. Foi instrutivo.
Acabado o show, ainda tínhamos toda uma noite pela frente antes de pegar a estrada pra casa. Um barzinho aqui, papo furado ali... Até o sol nascer. Não conseguimos rever o CBGB ( lixo mais memorável de NY ) e quase levamos a pior no Spanish Harlem, mas nos saímos bem. Até a Maria de Loudes, o carrinho vermelho, resistiu de forma inesperada e chegou sã e salva em DC. Entre mortos e feridos, todos se salvaram, felizes da vida e com a sensação de ter visto uma das últimas vezes que um Ramone sobe no palco. Agora, ficamos aqui, esperando mais um motivo pra voltar pra Big Apple, casa de fatos tórridos e cenas dignas de uma cidade atormentada pelo status de capital do mundo. Aquela selva é muito divertida! Por culpa de NY, descobri que ainda tem gente que faz uso de soco-inglês e usa um moicano verde com orgulho. Fascinante!
P.S.: Anteriormente, comentei que a febre da biografia se abatia sobre os EUA, certo? Pois é, preparem-se para a biografia de um cara chamado
John Cummings.
P.S. 2: Josh Homme, em pleno show, garantiu que o novo disco do
Queens of the Stone Age, previamente entitulado Queens Album, estará nas prateleiras em março de 2005.