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Os Porquês da Violência – Parte 2
Por Celso Antonio Almeida — Quinta, 7 de outubro de 2004
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O quê? Uma Tragédia?
Platão (428-348 a.C.) pregou contra as tragédias gregas e os épicos homéricos, argumentando que eles davam uma idéia falsa dos deuses e fomentavam o medo e a pena, emoções que deviam ser evitadas. Platão estava certo: a violência pode inflamar “as paixões”. Quando eu era garoto, após terminar de assistir a Rocky III, saí dando murros no ar, pronto a enfrentar qualquer outro moleque da vizinhança. Recentemente, saí da sessão de Tróia me sentindo como Aquiles, capaz de sobrepujar qualquer um que se atrevesse a cruzar meu caminho. Curiosamente, entretanto, a violência de A Paixão não teve esse tipo de efeito sobre mim. Não é o tipo de violência de Matrix, por exemplo, com suas “armas, muitas armas” e lutas de kung fu em pleno ar. A violência de A Paixão nos deixa paralisados, entorpecidos. Platão não pensou duas vezes antes de banir os poetas trágicos da sua República ideal. Já nós não devemos ficar tão prontos para banir A Paixão.
Como Aristóteles se perguntava sobre as tragédias gregas de seu tempo, da mesma forma devemos nos perguntar sobre A Paixão: por que alguém quer assistir a tanto sofrimento, afinal? Aristóteles concordava com Platão que aquelas obras despertavam medo e pena, mas, ao contrário de Platão, Aristóteles achava que isso era benéfico. Assistir a tragédias leva a uma catarse, uma limpeza destes sentimentos e emoções. De fato, este efeito catártico é parte da definição clássica de tragédia de Aristóteles.
Então A Paixão é uma tragédia? Não em qualquer sentido que Aristóteles reconheceria, não da forma como Antígona e Édipo Rei são tragédias, não do modo como Hamlet e Rei Lear são tragédias. Na definição de tragédia de Aristóteles, homens bons não deveriam sofrer tanto como o mostrado no filme de Gibson. Os personagens das tragédias clássicas citadas acima são perturbados, contraditórios – bem diferentes, portanto, do Cristo totalmente seguro de si mostrado na película de Mel Gibson.
O Sublime e o Divino
Então, se nós não nos beneficiamos de uma catarse trágica, por que assistir a A Paixão? O fato de tantas pessoas acorrerem às salas de projeção é fácil de explicar: o filme teve uma campanha de marketing tão gigantesca que fica fácil entender seu sucesso. Explicar por que gostamos do filme é mais difícil. Talvez a experiência seja sublime? Mas o que é “o sublime”? As Escrituras podem nos dar uma idéia da magnitude deste assunto. Na Bíblia, onde quer que Deus se manifeste ou fale, alguma coisa terrível na natureza acontece para engrandecer o assombro e a solenidade causados pela presença divina. Os salmos e os livros proféticos estão cheios de situações assim. A terra treme (diz o salmista) e os céus se curvam perante o Senhor.
O sublime, assim como Deus, inspira reverência, mas nós não temos medo dele. Então o que é o sublime? Enquanto as primeiras visões modernas do sublime o associam a visões de objetos naturais, como grandes montanhas cobertas de névoa, visões contemporâneas aplicam o sublime à arte, ajudando a responder à perene questão de Aristóteles: por que nós voluntariamente contemplamos este tipo de arte que produz emoções dolorosas? Bem, por que uma pessoa de oitenta anos pula de pára-quedas? Por que uma garota de catorze anos vai à montanha-russa três vezes seguidas? Por causa do frio na barriga, da sensação de estar vivo que acompanha o medo.
O conflito entre dor e prazer distingue o sublime do belo. A experiência da beleza é uma forma de escapar da realidade, ao passo que a experiência do sublime é uma confrontação com a realidade. O Silêncio dos Inocentes, bem como a maioria dos filmes de terror, explicita o conflito entre dor e prazer, embora não seja uma experiência do sublime. A Paixão produz conflito emocional. Conforme Jesus é brutalmente flagelado, nós queremos cobrir os olhos, escapar da dor, ainda que nós saibamos que a vitória final será dele.
Agora pense em Matrix e no despertar de Neo em meio à infinidade de baterias humanas. A verdade quase ultrapassa nossa capacidade de compreensão. Pense em Tróia e nas milhares de embarcações se revelando gradualmente enquanto a câmera se afasta. Enquanto Matrix e Tróia têm cenas sublimes, A Paixão é poderoso e nos deixa atônitos praticamente durante toda a sua duração. As torturas sofridas pelo Homem-Deus são demais para o nosso estômago, além da indignidade de ser estapeado, zombado e cuspido.
Usando de licença poética, Gibson nos mostra o demônio encarnado como uma figura andrógina encapuzada. No decorrer do filme, vemos Satã como um espectador, com sua grotesca cria nos braços. Judas também é tratado de forma grotesca, à medida que a loucura causada pela culpa toma conta dele. Crianças perdem sua inocência em favor de uma incomum virulência e o perseguem até o seu amargo fim. É demais para suportar.
(continua)
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