Ouça no volume máximo (1ª parte)

Por Marcos Vasconcelos — Quarta, 6 de outubro de 2004

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Dizem que odiar uma coisa é um grande passo para amá-la. Isso aconteceu comigo exatamente no ano de 1986.

Uns seis meses antes, quando o rock Brasil já bombava nas rádios, corações e mentes dos jovens, uma banda esquisita fez sua primeira aparição na televisão. O baterista era um moleque com cara de menino criado pela avó. O guitarrista, um dandizinho que era uma cópia perfeita de Johnny Marr, dos Smiths. O baixista, um negão que parecia congelado em carbonite, tamanha sua falta de ginga. Mas o pior deles era o vocalista: um sujeito estranho, com cara de quem não tomava banho há algumas semanas, uns oclinhos quadrados, voz de cantor de jovem guarda (Jerry Adriani, para ser mais específico) e um jeito de dançar que - para um cara que nunca tinha ouvido falar em Michael Stipe e que já achava Arnaldo Antunes, no mínimo, no mínimo, um freak - era para lá de bizarra. O nome da música: Será. A banda: Legião Urbana. Eu jamais poderia supor que aquele amonntoado de bizarrices na minha frente iria se tornar a maior banda de rock brasileira de todos os tempos.

E não demorou muito para acontecer. Em 86, eu me mudei de Fortaleza para o Rio de Janeiro. Fui morar em um condomínio enorme e o Legião já era uma febre. Eu continuava achando as músicas Será e Ainda é Cedo, os primeiros sucessos do grupo, muito chatas. A massificação foi me convencendo, mas um dia eu escutei Teorema. E Soldados. E O Reggae. O golpe de misericóridia veio com Baader-Meinhof Blues e Por Enquanto.

Em 86 mesmo seria lançado o segundo álbum da banda. Tempo Perdido, Índios, Andrea Doria e Eduardo e Mônica vieram retirar de mim e de todos à minha volta qualquer chance de resistência. Estávamos todos apaixonados pela banda de Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Renato Russo.

A história do Legião Urbana todo mundo conhece: surgiu com o fim da banda Aborto Elétrico (da qual derivou também o Capital Inicial), na cena pós-punk de Brasília, no início dos anos 80. Isso tudo se encontra no detalhado encarte do terceiro álbum do grupo, Que País é Esse 1978-1987, que também foi um sucesso arrebatador. Todas as músicas do disco eram excelentes, desde a melódica "working track" Angra dos Reis, passando pela arrebatadora Eu Sei, pela já mitológica Química até chegar na música que, sem dúvida foi o grande fenômeno radiofônico da era Legião: Faroeste Caboclo.

Não me recordo de nenhum sucesso estrondoso de rádio mais longo que os 9 minutos (Infinita Highway, dos Engenheiros do Hawaii, tem 6min10s, e Eduardo e Mônica, 4min32s) da épica saga de João de Santo Cristo.

Em 1989, dois anos depois de Que País é Este, o Legião voltava a lançar um disco. Já não contava com a presença de Renato Rocha, o baixista. Evitando o clichê do Then There Were Three, do Genesis, a banda lançou um álbum com o sugestivo título de As Quatro Estações.

Se Que País é Este era um trabalho mais batido, mais barulhento, mais com a cara do primeiro disco, As Quatro Estações retomava a trilha do melodioso Dois. Mais melodioso, mais religioso, mais romântico - ainda que tenha sido um choque para muita gente se dar conta de que tipo de romântico era Renato Russo - foi um trabalho de grande sucesso, de músicas inesquecíveis como Pais e Filhos, Meninos e Meninas e Há Tempos, legítima continuação de Tempo perdido.

E então, em 1991, o Legião gravou o álbum V. Muita gente o tem como o melhor disco do Legião, ainda que seja o mais hermético, o mais obscuro e sem dúvida, o mais triste. Renato Russo começava a sentir os efeitos da doença que lhe venceria cinco anos mais tarde. Mas, apesar da estranheza inicial com que foi recebido, várias músicas do disco tocaram bastante no rádio: O Teatro dos Vampiros, a melódica música de trabalho, legítima sucessora de Tempo Perdido e Há Tempos; O Mundo Anda tão Complicado e Vento no Litoral, que remetia a Angra dos Reis.

Nesse álbum, também havia a longuíssima Metal Contra as Nuvens, música de ascendência medieval que era um rasgado protesto contra o governo Collor, que então começava, confiscando os bens e a esperança de milhões de brasileiros.




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