O químico francês Antoine Lavoisier, foi quem deduziu, a partir das suas experiências, a célebre lei da conservação da matéria: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa frase foi fantasticamente adaptada pelo comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que vivia a repetir, “Na tevê nada de cria, tudo se copia”. Alguns podem dizer que em algum momento a televisão criou alguma coisa, pois ela teve um início. Eu posso retrucar que a televisão usurpou tudo, ou quase tudo, do rádio, que por sua vez, usou do que era apresentado no teatro e no circo... Acho melhor parar por aqui e ir direto ao ponto: nas Histórias em Quadrinhos isso também ocorre, e bem mais freqüentemente do que se possa imaginar.
Pretendo me ater não na criação de personagens, mas em títulos de revistas em quadrinhos e seus logotipos. E vou dissertar sobre três deles: Superamigos, Heróis da TV e SuperPowers. O título Superamigos, com 44 edições publicadas pela Editora Abril entre 1985 e 1988, já havia sido utilizado pela Ebal – Editora Brasil-América em uma revista que teve três séries publicadas de 1975 a 1979. O logotipo de Superamigos é um ótimo exemplo de design, arrojado para a época, sempre caía muito bem no frontispício da publicação. Superamigos #1 surgiu com um logotipo “chapado” que foi mudado com um mais parecido com o da Ebal na edição #13 de maio de 1983.
Heróis da TV com um total de 112 edições lançadas foi publicado pela Abril de 1979 a 1988, anteriormente a própria Abril utilizara o mesmo título para publicar material da Hanna/Barbera (Tor, Homem-Pássaro e Herculóides, entre outros) e, mesmo depois do cancelamento de sua “segunda encarnação” voltou a utilizá-lo para uma revista sobre animes, que chegava às bancas com um vídeo de brinde. O que poucos sabem é que o nome Heróis da TV surgiu na década de 1960 numa publicação de
O Cruzeiro intitulada
Almanaque Super-Heróis da TV, que também publicava material da Hanna/Barbera, entre eles
Homem-Pássaro,
Trio Galáxia (Galaxy Trio) e
Jonny Quest. O logotipo de Heróis da TV utilizado pela Abril trazia em suas raízes a profundidade e tridimensionalidade que o logo de Superamigos mostrou funcionar muito bem. Os logotipos de Superamigos e Heróis da TV funcionam pelo sentido de força e firmeza que passam ao leitor.
Por iniciar ou encerrar grandes sagas,
SuperPowers tornou-se uma revista famosa entre os Decenautas, nome pelo qual são conhecidos os aficionados pelos heróis da DC Comics. Ao contrário do que muitos possam afirmar, o nome SuperPowers não é uma criação da Abril, mas sim da própria DC Comics. Trata-se de uma mini-série de cinco edições escrita e ilustrada por Jack Kirby e publicada em 1984. Esse logotipo, embora espalhafatoso, é genial por usar a idéia de “explosão” e lembrar algo como “– O cara levou uma pancada tão grande que ficou vendo estrelas!” Metalinguagem no logotipo de SuperPowers? Claro!
O que a Abril não contava era que o logotipo de SuperPowers não funcionaria na publicação que editava. Quando Kirby o utilizou originalmente o fez concebendo as artes da capa, com uma ótima interação. Na edição #7, de novembro de 1987, por esconder boa parte da imagem de capa, os editores de SuperPowers optaram por tirar algumas estrelas do logotipo, diminuindo assim o seu
glamour. Na edição #11, de novembro de 1988, um novo logo foi adotado, mas também não funcionou. A palavra Super “em néon” sobreposta a Powers deu fragilidade ao título que deveria lembrar algo poderoso, ou melhor, super-poderoso. Em SuperPowers #26, de novembro de 1992, o que era um logotipo que não funcionou tornou-se apenas um selo aplicado no lado superior esquerdo da capa. SuperPowers, criado em 1986, foi cancelado na edição #37 em 1996.
Não sou contra a continuidade de um nome desde que os direitos de criação sejam respeitados, o que é claro, a Abril sempre respeitou, sem dúvida nenhuma. Minha intenção foi somente mostrar a origem de alguns deles e como foram utilizados no decorrer dos anos; buscar um pouco das raízes desses nomes e dar exemplos de trabalhos bem feitos. Para mim, Superamigos e Heróis da TV são dois nomes de revistas em quadrinhos que me trazem ótimas recordações. Esses dois nomes são clássicos! Muito possivelmente, talvez até de uma maneira inconsciente, eu deva estar prestando uma homenagem a eles. Hah?!... eu espero que vocês tenham também aprendido um pouco sobre criação e desenvolvimento de logotipos, algo que, nos quadrinhos, assim como no mundo dos negócios, têm grande importância.
Aproveitando o tema, veja só o que o “mago”
Alex Ross fez com a clássica capa de Superamigos. Viu só como a teoria do
Velho Guerreiro – como também Chacrinha é conhecido – funciona?!
Até semana que vem. Tchau!