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A semana do tubarão
Por Luiz Eduardo Ricon — Quarta, 29 de setembro de 2004
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Se lá nos idos de 1975, Steven Spielberg não tivesse resolvido transformar um romance meia-boca de Peter Benchley no clássico Tubarão (Jaws), um dos três mais perfeitos e impressionantes filmes de suspense de todos os tempos (ao lado de Psicose e de mais outro à escolha do leitor) hoje o mundo seria um lugar bem diferente.
Além do estrondoso sucesso de bilheteria, o filme de Spielberg (e a música-tema de John Williams, vamos ser justos) acabou desencadeando um profundo e complexo fenômeno psico-social, que transformou o tubarão num verdadeiro monstro.
Eu não tenho a menor dúvida de que anualmente morre muito mais gente no mundo em virtude de ataque de abelhas do que devorada por tubarões. Mas como explicar então o misto de medo, fascínio e repulsa que os tubarões nos provocam, com a mera visão daquela barbatana sinsitra ou daquela bocarra escancarada, com suas fileiras e mais fileiras de dentes farpados? O tubarão é hoje muito mais do que um peixe. É um verdadeiro mito moderno. E é por isso que todo ano temos de aturar a Semana do Tubarão no Discovery Channel.
Sabendo disso tudo, os estúdios Dreamworks (que, coicidentemente, pertencem ao mesmo Steven Spielberg), resolveram pescar o tubarão lá no fundo do baú e do inconsciente coletivo e jogá-lo em sua nova produção de animação em 3D, O Espanta Tubarões.
Obviamente pegando a onda de Procurando Nemo, da concorrente Pixar, esse filme dos mesmos produtores de FormiguinhaZ e Shrek 1 e 2 é uma divertida e amalucada versão daquela velha história onde uma mentira inocente acaba se transformando numa tremenda confusão.
As aventuras e desventuras do gaiato peixe Oscar (nas vozes de Will Smith em inglês e de um surpreendentemente adequado Paulo Vilhena em português) são entremeadas com ótimas citações e tiradas cinematográficas, fazendo referência a filmes como Tubarão (óbvio!), Titanic, Os Intocáveis, Matrix (inevitável) e até ao obscuro Car Wash, um musical da época Disco, mais famoso pela excelente trilha sonora, que literalmente fazia a festa da galera nos embalos de sábado à noite.
O roteiro sem surpresas mostra como Oscar, um peixinho malandro e pobretão que sonha em ficar rico e famoso acaba alcançando fama e fortuna ao ser confundido com um impiedoso matador de tubarões, quando todos pensam que ele liquidou Frankie, o filho preferido do cruel Don Lino (Robert de Niro), o chefão da máfia dos tubarões. Ao lado de Lenny (Jack Black), o irmão efeminado vegetariano do finado Frankie, Oscar arma uma farsa que engana quase todo mundo, mas não por muito tempo.
Na verdade, durante a projeção, a gente lembra o tempo todo do Nemo, ou de outro personagem submarino de muito sucesso, o Bob Esponja. A cidade do Recife (nada a ver com Chico Science, apesar de alguns caranguejos no filme) desse filme é bem parecida (e bem menos interessante) com a Fenda do Bikini, por exemplo. Os artrópodos amalucados, os equinodermos esquisitos e os moluscos malucos estão todos lá, lembrando o Sr. Siriguejo, o Patrick e o Lula Molusco, só que menos engraçados e bem mais previsíveis.
Tirando algumas piadas e tiradas realmente boas (quase todas passadas na “casa” de Don Lino), o filme é um amontoado de clichês, com o infalível final feliz um pouco forçado demais.
Ok, talvez eu seja mesmo um peixe fora d'água, mas nesse mundo de celebridades vazias e de ídolos falsos, fabricados pela mídia, acho que o filme perdeu uma ótima chance de ir bem mais fundo nesse tema. Os roteiristas preferiram não morder a isca, mas acabaram fisgados pela tentação do caminho mais fácil, construindo uma historinha banal, recheada de referências e piadas-citação.
Certamente, o filme vai agradar tanto adultos quanto crianças. Porém, ao contrário dos filmes da Pixar, por exemplo, onde a história e os personagens são muito mais profundos e melhor estruturados, O Espanta Tubarões é um filme raso, que não vai ficar na memória por muito tempo.
Quando a maré baixar, ou quando terminar a semana do tubarão, a gente só vai lembrar mesmo é do Nemo e do Bob Esponja. ¤
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