 |
Entrevista com Marcelo Cassaro
Por Raphael Di Cunto — Quarta, 29 de setembro de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Conhecido por seu trabalho a frente da Dragão Brasil, a primeira revista brasileira de RPG a ultrapassar a marca de 100 edições, e como roteirista de Holy Avenger, em uma das maiores sagas dos quadrinhos já produzida no Brasil, Marcelo Cassaro nos cedeu uma entrevista exclusiva, onde ele fala sobre seu trabalho com RPG, quadrinhos, e a futura animação de Holy Avenger, além de seus projetos para o futuro.
SoBReCarGa - Primeiramente, fale um pouco sobre você. Como foi sua introdução ao RPG e o que o levou a ler revistas em quadrinhos?
Marcelo - Como muita gente, eu lia quadrinhos quando criança, principalmente Disney e Turma da Mônica. Meus títulos favoritos foram mudando com a idade — super-heróis, Garfield, Calvin, Asterix... Já os RolePlaying Games eu conheci bem mais tarde, no começo dos anos 90, quando nossa turma havia ouvido falar de um “jogo diferente”; jogamos uma antiga versão portuguesa de Dungeons & Dragons, depois GURPS, e mais tarde AD&D, Vampiro e outros. Também tive a sorte de conhecer os livros-jogos Aventuras Fantásticas - uma introdução muito divertida aos RPGs, e que infelizmente não existem mais.
Sabemos que a Dragão Brasil foi idéia sua, e sobreviveu com sua ajuda, passando por diversas fases para atender ao público consumidor. Como você avalia esta nova fase, com a volta do formato antigos e de algumas seções, da entrada de novas seções, etc?
No início, sem um caminho já existente para seguir, a DB seguia os moldes de revistas norte-americanas de RPG — a Pyramid, Inphobia, InQuest, Dragon Magazine e outras, mas adaptando certas coisas para a nossa realidade. Com o tempo, entendemos que a “receita” não funcionava bem aqui: RPGs e outros jogos de mesa são uma tradição americana e européia, mas no Brasil a maioria das pessoas nem conhece o jogo. Então passamos a concentrar fogo no público iniciante, formando e abastecendo novos jogadores.
Uma das razões para o formato americano sempre foi tornar a revista mais atraente para novatos, e também posicioná-la nas bancas junto com os quadrinhos. Agora estamos voltando ao formato antigo porque precisamos de mais espaço. É verdade que tivemos aumento de preço, mas o tamanho atual tem uma área 30% maior, enquanto o preço subiu menos de 20%.
Além do espaço extra, também esperamos atingir um número maior de leitores com matérias mais curtas, permitindo assim abordar mais assuntos diferentes. Isso tornou possível o retorno dos jogos eletrônicos.
Nas edições anteriores (e posteriores ao número 100), algumas matérias suas apareciam, mostrando que você não tinha largado ela por completo. Entretanto, no número 108, não temos nenhuma matéria sua. Você ainda colabora com alguma parte dela, ou agora largou por completo?
Todas as matérias não-assinadas são minhas, como o Samaritano e a Série Animada de Holy Avenger. O novo projeto gráfico também é meu. Ainda estou trabalhando firme na DB e outros títulos de RPG, eu apenas não faço questão de ter meu nome nos créditos o tempo todo.
Depois de tantos números é provável que você já esteja cansado de trabalhar com ela, mas deve ser difícil de largar um trabalho ao qual você dedicou muitos anos. Você pretende voltar algum dia, ou largou-a totalmente?
Eu nunca estive fora da DB. Mesmo quando anunciei minha “partida”, deixando-a nas mãos de meu sucessor misterioso (não, eu não direi quem é), sempre estive por perto. Ainda não encontrei uma forma de fazer com que a revista continue sem minha intervenção — mas isso é algo que acontecerá cedo ou tarde. A produção da Holy Avenger animada logo vai começar pra valer, tomará muito tempo, e eu não estarei mais disponível como editor de revistas.
Mudando de assunto, a revista Tormenta tem sido bastante elogiada pelo público. Vocês pretender mudar a revista, assim como a Dragão Brasil, ou ela permanecerá igual por enquanto?
Tormenta também será reformulada, mas não temos certeza de quando acontecerá. A idéia é que não será mais uma revista com várias matérias, mas sim uma aventura ou suplemento completo. Essa mudança ainda está em estudo e o título fica suspenso por enquanto.
Já faz alguns meses que ela não chega as bancas. É verdadeiro o boato de que ela se tornou trimestral?
Prefiro dizer que ela é “ocasional”.
Quais os próximos lançamentos para o cenário de Tormenta que você estará envolvido? E de Ação!!!?
Nesta semana terminamos Holy Avenger 3D&T, que é a versão RPG da revista em quadrinhos, com regras para Defensores de Tóquio 3ª Edição. Agora vamos trabalhar firme em dois títulos muito esperados: A Libertação de Valkaria em versão 3D&T e o Manual da Magia. Para D20, estamos finalizando uma versão 3.5 do cenário, que agora será separado em dois livros básicos — Guia do Jogador e Guia do Mestre. Também estamos finalizando O Panteão D20.
Para Ação!!! estamos preparando o suplemento Magia e Psi!!!, e também lançando um concurso para selecionar entre os leitores o primeiro cenário oficial do jogo — da mesma maneira que a Wizards of the Coast fez recentemente com seu Eberron. O regulamento estará na DB 109.
Mas o destaque vai mesmo para nosso primeiro romance — Tormenta: O Inimigo do Mundo, de Leonel “Dorkboy” Caldela. É uma história pesada, adulta, muito diferente de Holy Avenger — e sem nada a dever às Crônicas de Dragonlance. Por enquanto eu li apenas alguns trechos, mas estou muito impressionado: tem tudo para ser a melhor história de Tormenta.
Então o mundo de Arton está ganhando dois livros básicos. Pode nos adiantar o que cada um terá? Existe alguma previsão para o lançamento deles, assim como O Panteão D20? E o romance?
Essencialmente, os dois Guias contêm o mesmo material do TD20 original — mas, como houve alguns acréscimos, uma nova versão em um só volume ficaria muito maior e mais cara. Além disso, como as mudanças para 3.5 são relativamente pequenas, quem já tinha a versão 3.0 pode se atualizar com apenas um dos Guias.
TD20: Guia do Jogador explica como são, em Arton, as raças e classes do Livro do Jogador e as classes de PdMs e classes de prestígio do Livro do Mestre. Ele oferece também seis novas raças (Centauro, Goblin, Elfo-do-Mar, Minotauro, Nahga, Sprite), duas novas classes básicas (Samurai e Swashbuckler) e dez classes de prestígio ligadas ao cenário: Baloeiro Goblin, Engenhoqueiro Goblin, Explorador da Tormenta, Gladiador Imperial, Lenhador de Tollon, Mago da Tormenta, Nômade, Pistoleiro, Ranger das Cavernas e Sacerdote Negro. Todas as raças e classes de prestígio têm ilustrações inéditas de Erica “Ethora” Horita. Este primeiro volume também trata de magia e deuses.
TD20: Guia do Mestre oferece a descrição do cenário, seus reinos, personagens importantes e criaturas, todos atualizados com a edição 3.5. A formação do Reinado, a chegada da Tormenta e a origem da Aliança Negra dos Goblinóides são explicadas neste volume. Foram acrescentados os históricos e fichas de Shivara Sharpblade e Blackskull, dois PdMs importantes nesta nova fase. No final também teremos uma aventura introdutória, Pequenas Mãos de Ferro, que também será publicada na Dragão Brasil 109. Nossa intenção é lançar ambos os Guias durante o próximo Sampa RPG, em novembro.
Boa parte da personalidade de Tormenta vem de seus vinte deuses, que são muito influentes no cenário — por isso O Panteão D20 será um livro muito importante. Estamos cuidando para que ele possa ser empregado mesmo sem os outros Guias. O livro vai conter informações completas sobre cada divindade, suas fichas de personagem, seus sumo-sacerdotes e, é claro, seus clérigos e paladinos. PD20 será cronologicamente posterior à Libertação de Valkaria, por isso a Deusa da Humanidade será apresentada em sua forma atual. Todos os deuses terão ilustrações inéditas de Erica “Holy Avenger” Awano. Não temos ainda uma data para PD20 e o romance O Inimigo do Mundo, mas estamos trabalhando para que ambos saiam ainda este ano.
Como surgiu a idéia de uma revista em quadrinhos baseada no mundo de Arton? Foi algo que vocês planejaram desde a criação do mundo, na Dragão Brasil 50, ou surgiu como uma idéia posterior sua?
Quadrinhos são algo que eu faço quando tenho oportunidade — e quando você é editor, a oportunidade sempre existe. Esta foi a principal razão que teria me levado a tornar-me editor, em vez de apenas autor: a chance de produzir e publicar minhas próprias HQs.
Assim, uma série em quadrinhos baseada em um cenário de RPG que eu ajudei a desenvolver foi inevitável. Havia muitas vantagens para ignorar: a existência de um cenário detalhado, muitas ilustrações disponíveis, reunir os públicos de HQ e RPG... muito mais prático que começar uma história a partir do nada. E quando trabalhamos em uma editora de pequeno porte, com recursos limitados, praticidade é coisa importante.
Em muitas outras entrevistas ou declarações você afirmou que ela só sobreviveu porque teve como alvo o público RPGista. Quais outros fatores ajudaram em seu sucesso?
Não é verdade que Holy Avenger tenha sido bem-sucedida APENAS porque era baseada em RPG — este foi com certeza um dos fatores, mas não o único. Uma série de outras condições (nem todas conhecidas por mim) foi responsável por sua sobrevivência.
Em minha lista estão: regularidade em bancas, pois os leitores estão cansados de revistas que atrasam e/ou são canceladas; estilo mangá, antecipando uma febre que viria em breve (Holy teve início antes das edições brasileiras de Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e outros); identificação com o público, pois mesmo sendo uma história de fantasia medieval, seus personagens falam e agem como brasileiros; uma equipe talentosa; o apoio da mídia especializada; e claro que uma elfa gostosa seminua sempre ajuda...
Como surgiu a idéia de tornar Holy Avenger um desenho animado? Antes da oportunidade surgir, você já tinha sonhado tornar a história um desenho animado?
Não foi idéia minha. Trabalhei durante algum tempo nos Estúdios Maurício de Souza com desenho animado, conheço as dificuldades de produzir animação no Brasil — por isso nunca imaginei tentar algo assim, nem me passava pela cabeça.
Quem veio com a proposta foi o cineasta e diretor de animação Sérgio Martinelli: depois de algum tempo e esforço para me convencer da empreitada, ele acabou se tornando patrono do projeto. Agora divido meu tempo entre cuidar das revistas na Talismã e preparar a pré-produção da série, escrevendo storyboards, refazendo character designs... essas coisas. Retornar à animação tem sido divertido.
Fale-nos um pouco sobre o desenho. Além da introdução, que foi exibida durante o AnimeFriends, o que mais já foi feito, e quais seus planos para o desenho?
O clip exibido no AnimeCon 2004 (não no AnimeFiends) era ainda uma versão inacabada, faltavam muitos detalhes. Só agora está finalizado. Com esse material em mãos, a Martinelli Films já pode começar a captar recursos para seguir com a produção. Enquanto isso não acontece, eu e alguns artistas — Erica Awano, Lydia Megumi, Denise Akemi, Rod Reis — estamos preparando o primeiro episódio, que está ainda na etapa de planejamento.
Uma pergunta que vem à mente dos fãs é se ocorreram mudanças no enredo da história. Na matéria sobre Holy Avenger, presente na Dragão Brasil 108, falou-se sobre personagens sendo retirados e outros novos adicionados a história. Isso afetará a trama de maneira significativa ou servirá apenas para dar um gostinho novo?
Trabalhar com uma história pronta é mais prático, por isso vamos inicialmente seguir o roteiro original. No entanto, quero aproveitar a chance de mudar alguns personagens e eventos importantes — no Japão, é bastante comum que um anime não seja idêntico ao mangá em que foi baseado.
A versão animada vai explorar certas partes da história que não apareceram na HQ, mas aconteceram em off, como a luta entre Arsenal e o Paladino. Certos fatos e personagens serão apresentados mais cedo, como os poderes de Lisandra, os pais de Sandro e o dragão Sckhar.
A história também será mais carregada de humor: nos quadrinhos, Sandro fica burro-burro-burro com passar do tempo (uma conseqüência natural de estar apaixonado, como todos sabem...), mas na TV ele será assim desde o começo. Depois fica pior!
Haverá citações ao RPG no desenho? Talvez algo no estilo do que acontecia na revista, ao menos explicando o que é o RPG, em uma tentativa de trazer mais pessoas ao hobbie?
Não pensei nisso ainda. Holy Avenger será levada a um público totalmente novo, então acho perigoso fazer referências diretas a um jogo que poucos conhecem. Mas suponho que o próprio fato de ser sobre fantasia medieval seja um atrativo — O Senhor dos Anéis não faz nenhuma “citação RPGista”, mas mesmo assim desperta interesse pelo hobby.
Quais seus novos projetos, além da confecção de Holy Avenger animado? Alguma nova HQ ou livro de RPG? Algo fora desta linha editorial? Algo novo sobre Invasão, cuja reimpressão está sendo feita pela Editora Daemon, e sobre o qual você tinha anunciado uma versão 2.0, com regras para Ação!!!?
São tantas coisas acontecendo que tenho medo de esquecer alguma. Eu e Edu Francisco estamos preparando uma mini-série em quadrinhos de ficção científica, com o Capitão Ninja. Na Mythos, já terminei de escrever o segundo arco de Dungeon Crawlers, que está sendo desenhado por Roberta Pares. Por enquanto não estou preparando pessoalmente nada para Invasão ou Ação!!!, além de matérias curtas na DB. Quando encontrar tempo (tá, certo, claro...) quero também preparar um cenário D20 baseado em Lua dos Dragões.
Agora um bate-bola rápido:
HQ favorita: não posso apontar apenas uma, sem chance. Mas se tivesse uma arma na cabeça, eu diria Calvin & Haroldo.
Desenho favorito: tenho muitas animações Disney guardadas no coração, especialmente A Guerra dos Dálmatas — por causa desse filme, até hoje eu sei desenhar cães melhor que seres humanos.
Filme favorito: O Senhor dos Anéis. Cada vez que passa na TV, eu digo “vou ver só o comecinho”, mas só consigo largar quando eles estão saindo de Moria...
Banda favorita: não ouço rádio, não conheço nenhuma banda pelo nome. Gosto de trilhas sonoras, mas em geral não me preocupo em descobrir quem as executa.
Música favorita: ultimamente tenho na cabeça uma chamada “Pain”, tema de encerramento do jogo XenoSaga.
Personagem favorito: fico entre Capitão Ninja e Niele. Ah, de outros autores? Sherlock Holmes, Ultraman, Godzilla, Deadpool, e uma porção de Street Fighters.
Objetivo que alcançou: conduzir uma HQ longa durante vários anos, com a mesma família de personagens. Venho sonhando com isso desde que tive contato com os mangás; para alguém habituado a ler apenas comics, uma história com final (e com personagens mortos que FICAM mortos...) parecia algo fantástico. Também fui bem-sucedido em realizar duas coisas que muitos diziam ser impossíveis: publicar uma série mensal regular no Brasil, e publicar um projeto brasileiro no exterior.
Objetivo que quer alcançar: com a Holy Avenger animada, provar que o Brasil tem meios para produzir animação comercial e assim abrir um novo mercado, com muitas novas obras e empregos para muitos artistas.
Muito obrigado pela entrevista, e nós do SoBReCarGa lhe desejamos muito sucesso em todas as suas empreitadas. Para finalizar, deixe um recado para os leitores, família, fãs, amigos, animais de estimação, ou quem mais você quiser.
Um leitor me disse uma vez que um de seus momentos favoritos em Holy Avenger é quando Mestre Arsenal fala com Lisandra pela primeira vez: “Se não existe um meio de vencer o inimigo, CRIE um meio! Se não há chance de vitória, ENCONTRE uma!”
É bom ter sorte. É bom ter a ajuda de Deus. Mas contar apenas com isso para realizar seus sonhos não é nem um pouco inteligente. Choramingar, reclamar da vida, culpar os outros por seus próprios problemas não adianta nada. Se você quer algo, lute para conseguir. Se o mundo não oferece uma chance para realizar seu sonho, faça você mesmo sua chance.
Quando Holy Avenger começou a ser feita, as condições não eram ideais — longe disso. Sua produção exigiu muito esforço, improviso e soluções incomuns. O mesmo desafio aguarda a Holy Animada: o país não tem tradição, não tem a estrutura ou os profissionais necessários para produzir animação comercial em episódios de 20 minutos. Novamente, vamos precisar de muito esforço e criatividade. Mas é melhor que cruzar os braços e esperar por condições ideais — pois condições ideais não existem.
Jogamos com as cartas que a vida nos dá. ¤
- Ilustrações de Holy Avengers por Erica Awano (com exceção do personagem Paladino - traço de Marcelo Cassaro) e cores de Rod Reis.
Links:
Nós lemos: Dragão Brasil n°108 - confira aqui.
Nós lemos: A NOVA Dragão Brasil - confira aqui.
Site oficial de Holy Avenger: www.holyavenger.com.br
Site oficial da Dragão Brasil: www.dragaobrasil.com.br
Site de fãs de Tormenta (entenda mais sobre o cenário): www.tormenta.com.br
|
 |