Perdendo a liga

Por Rafael Lima — Quinta, 16 de outubro de 2003

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O grande valor e o maior problema do segundo volume de The League of Extraordinary Gentlemen, de Alan Moore e Kevin O’Neill, mini-série recém-concluída nos EUA, têm a mesma fonte: o fato de os personagens e do cenário já serem conhecidos, a maior familiaridade dos autores para com eles.

Se é um prazer dobrado ver como os personagens interagem entre si com maior desenvoltura e exposição, também tem algo de decepcionante ao vê-los se comportarem de modo tão transgressor: todos eles, mais cedo ou mais tarde, acabam quebrando algum tabu. O que não era, absolutamente, algo esperado, afinal, trata-se de uma "liga de cavalheiros extraordinários".

Uma das poucas decepções do volume está no traço de Kevin O’Neill, que perdeu muito em detalhe e precisão, apresentando-se mais corrido e mais solto – provavelmente culpa de algum prazo. Isso não o impede de dar luz à imaginação louca de Alan Moore, ao colocar no papel um exército de marcianos gigantes, a invasão do rio Tâmisa por alienígenas que convertem suas águas num lodo pegajoso vermelho ou os requintados interiores do British Museum.

No entanto, excetuando-se as cenas passadas em Marte, no primeiro capítulo, é raro encontrar um delírio visual comparável ao que rolou no volume anterior. Parte disso se explica pela diagramação adotada em muitas páginas, retalhadas em tiras horizontais (técnica pela qual Frank Miller ficou famoso em Demolidor ou Ronin), que foca no detalhe, reduzindo o espaço da invenção visual.

O roteiro é simples: após curta batalha em Marte, uma tribo de alienígenas parte em naves espaciais rumo ao terceiro planeta dos Sistema Solar, aterrisando nas vizinhanças de Londres. Dali para saírem disparando raios incineradores no exército real e chegarem até a capital são dois capítulos. Contra seu poderio, mesmo toda a tecnologia bélica do submarino Nautilus é inútil, e os nobres membros da Liga pouco podem fazer. O serviço secreto rapidamente percebe isso e destaca dois de seus membros, Mina Murray e Allan Quatermain, para ir em busca de uma arma secreta contra todos os males, uma espécie de... mãe de todas as bombas?

A diversão maior está em ver a evolução de cada personagem, tanto em seu comportamento individual como nas interações com seus pares. Mr. Hyde, particularmente, ganha muito destaque a partir do segundo capítulo, onde tem um diálogo esclarecedor para os rumos da história e horripilante com Mina Murray, um daqueles que se lê em pleno estado de tensão. Só essa cena já vale as seis revistas em quadrinhos, mas ainda é possível descobrir se o Homem Invisível era mesmo o canalha traidor que aparentava e se o Capitão Nemo ainda nutre desprezo pela humanidade ou se foi regenerado para seu convívio, questões pendentes na primeira história. Ou mesmo descobrir que tipo de sentimento secreto Mina nutria por Quatermain.

Dado que a história foi escrita por Alan Moore, autor conhecido por colocar referências e significados obscuros em suas histórias, não é excessivo tentar uma interpretação do que ele queria dizer com essa história. E a interpretação não pode ser outra: o segundo volume de Liga Extraordinária é uma crítica ao comportamento imperialista assumido pelos EUA após o atentado de 11 de setembro.

Pistas para isso:
1) Alan Moore é de orientação política oposicionista e critica o totalitarismo governamental desde V de Vingança;
2) A metáfora de invasores alienígenas simbolizando “estrangeiros perigosos” é usada desde a década de 50 nos filmes B de ficção científica, contra a chamada “ameaça comunista”. Nos anos 70, por causa do escândalo Watergate e da guerra no Vietnã, os alienígenas voltaram, e agora, no princípio do século XXI, estariam fazendo as vezes de terroristas fundamentalistas;
3) Há vários comentários nas entrelinhas dos diálogos criticando o modo como o império (no caso, o britânico) se comporta quando atacado por estrangeiros. O mais descarado é feito por Allan Quatermain em um coche, sobre a arrogância em face de inimigos desconhecidos que causa a derrota – comentário que se aplica tanto ao atentado de 11 de setembro quanto à derrota no Vietnã;
4) Por fim, a solução da história passa por uma versão do século XIX das temíveis armas de destruição em massa, motivo alegado para a recente invasão ao Iraque.

Qualquer leitor de quadrinhos de longa data é capaz de perceber todos esses comentários ao longo da história, mas nem por isso ela consegue ser melhor do que o primeiro volume.




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