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Os Porquês da Violência – Parte I
Por Celso Antonio Almeida — Quinta, 23 de setembro de 2004
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O filme A Paixão de Cristo, que está sendo lançado agora em DVD, causou muita controvérsia e debate, mas quase todos concordam em pelo menos um ponto: trata-se de um filme difícil de assistir. A violência e o sangue tornam o filme muito doloroso para alguns espectadores.
Então qual a razão de assistirmos com prazer a obras “dolorosas”?
A estética, ramo da filosofia dedicado ao estudo da arte, nos ajuda a responder a esta questão, que tem preocupado filósofos desde os tempos de Aristóteles (384 – 322 a.C.). Para direcionar esta questão e justificar a violência do filme de Mel Gibson, vamos considerar A Paixão em termos de três importantes categorias: beleza, tragédia e o sublime.
O Belo e a Moral
O que quer que beleza seja, ninguém pode chamar A Paixão de Cristo de Mel Gibson de “belo”. Nem pode alguém negar que a Pietà de Michelangelo, que se encontra no Vaticano, seja bela. Isso porque a escultura e o filme são formas de arte bem diferentes, embora haja uma alusão à Pietà em A Paixão, quando vemos Jesus ensangüentado nos braços de Maria aos pés da cruz.
Exceto por Immanuel Kant (1724 – 1804), a maioria dos filósofos reconhece que o conceito de beleza é contextual, que saber sobre a obra de arte e seu assunto influi na maneira como nós a avaliamos. A Pietà de Michelangelo é triste, delicada e é, sem dúvida, de uma beleza incrível, mas não inspira pensamentos profundos e reflexões morais. De fato, a beleza da Pietà nos distrai do próprio tema que ela aborda. Nós não nos sentimos levados à reflexão sobre o sofrimento de Jesus e Maria. Ao invés disso, o que temos é a sensação de estar diante de algo nunca antes visto, e nos maravilhamos pela realização artística em si. De fato, a beleza da Pietà de Michelangelo chega a ser inapropriada para a triste cena que retrata.
A Escolha da Violência
Poderia A Paixão ter sido belo? Quentin Tarantino tem sido erroneamente aclamado pela “violência elegante” de filmes como Kill Bill e Pulp Fiction: Tempo de Violência. Enquanto que a violência coreografada de Kill Bill é espetacular, não é bela e nem chega a transmitir nenhuma verdade moral (muito pelo contrário). A violência gratuita de Pulp Fiction traz uma verdade moral, a de que a redenção é possível, mas falta ao filme beleza. A escolha de Mel Gibson em mostrar violência para contar a história da paixão é acertada na medida em que nos direciona para a verdade moral. Keats pregava que verdade não é beleza, e vice-versa. Como diria Pilatos, Quid est veritas?, ou, em bom português, “o que é a verdade?”. Ela não é bonita.
“É muito violento, tem muito sangue. Não consegui terminar de assistir ao filme”. Estas são algumas queixas comuns sobre A Paixão de Mel Gibson. Para muitos cristãos, A Paixão falha ao não dar relevância ao ponto do ministério de Jesus que se acredita ser o mais importante, a saber, sua mensagem de amor e paz. O filme poderia ter sido diferente. A violência e o sofrimento foram uma escolha, não exatamente uma necessidade.
Mas Gibson não escolheu contar a história de todo o ministério de Jesus com ênfase na paixão. Ele escolheu contar a história da paixão (“Como é mesmo o título do filme?”, foi a resposta que um amigo seminarista me deu quando eu lhe disse que o filme não era “completo”). Então como ele deveria ter contado tal história? O filme é, se o leitor me permite o neologismo, uma “cruci-ficção”. Cientes de que “cruz” e “crucificação” eram sinônimos de tortura para o Império Romano, o que deveríamos esperar? Tortura nas mãos dos soldados romanos era de longe pior que a praticada pelas mãos dos soldados americanos no Iraque. Então ecce homo, “eis o homem”, através do horror de sua flagelação, destroçado como está, banhado em sangue, coroado com espinhos e carregando sua própria cruz até o local da execução. Este é o “Cristo Sangrento” de A Paixão, não o “Cristo Camarada” de Dogma.
Pode-se argumentar e conjeturar que a flagelação verdadeira não teria sido tão severa como Mel Gibson a retrata. Talvez. Mas as escrituras dizem que Simão de Cirene carregou a cruz , então podemos seguramente assumir que a tortura foi suficiente para deixar Jesus incapaz de carregá-la. E, indubitavelmente, a agonia interior e a humilhação da crucificação real foram muito piores que qualquer coisa mostrada no filme. De qualquer forma, testemunhar pessoalmente tal tortura sangrenta deve ter sido muito pior do que meramente assisti-la na tela, mesmo que a versão cinematográfica supere a realidade.
As escolhas de um diretor sobre quais partes da história enfatizar inevitavelmente desapontarão algumas pessoas. Em filmes que retratam situações delicadas como as de A Paixão, não se pode agradar a todo mundo, e não se deve sequer tentar. Tomemos como exemplo filmes que retratam o Holocausto. Não importa quão bem feitos sejam, sempre há pelo menos um crítico pronto a desmerecê-los. A Lista de Schindler, de Steven Spielberg mostra a inacreditável desumanidade dos campos de concentração, mas algumas pessoas reclamam que o filme transforma Oscar Schindler em herói. Talvez ele fosse um herói, mas seu heroísmo merecia tal atenção? Spielberg não deveria ter focado a atenção em outra coisa? Já A Vida é Bela, de Roberto Begnini, é uma história de esperança sem limites, um triunfo do espírito, um tributo à perseverança, mas foi criticado por mostrar o Holocausto de maneira cômica. Sim, Begnini e Spielberg podem ter feito escolhas diferentes, podem ter feito filmes diferentes. Mas os filmes que eles fizeram são para ser apreciados pelo que são, não para ser rejeitados pelo que poderiam ter sido.
Os espectadores que rejeitam A Paixão por causa da ênfase dada por Mel Gibson à flagelação de Jesus incluem muitos daqueles que imaginam Jesus como uma espécie de Barney, o Dinossauro cantando “eu te amo, você me ama, vamos ser amigos na Galiléia”. Estes espectadores escolheram focar suas atenções na mensagem de amor, deixando de lado a paixão e indo diretamente à ressurreição. Claro que esta não é uma descrição fiel de todas as pessoas que rejeitam A Paixão, e que esta pode ser uma maneira de se contar a história de Cristo. Mas não foi a maneira escolhida por Mel Gibson. Se Jesus não sofreu por nossos pecados e não voltou da morte, então ele não passa de um simples filósofo. Mas o cristianismo sustenta que ele foi muito mais que isso.
Não há como negar, no entanto, que a escolha de Gibson em retratar tão graficamente a violência da paixão torna o filme difícil de assistir, e é aí que está o busílis.
(continua)
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