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Quem tem medo do vilão?
Por Leonel Dorkboy — Terça, 21 de setembro de 2004
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Olá mais uma vez, fiéis leitores. O que foi? Por que essas caras? Sim, eu sei. Duas semanas seguidas de Fanboy realmente parece coisa de universo alternativo, mas está aqui, na frente de vocês. Espero não ter dado um ataque cardíaco no pessoal aqui do site também...
Bom, para começar, aqui vai um aviso: esta coluna contém spoilers. Sim, spoilers grandes e malvados, prontos para estragar a sua diversão. Spoilers das séries Wanted , de Mark Millar, e Identity Crisis , o novo “mega-evento” da DC Comics. Leiam por sua conta e risco (a coluna, não as séries; pelo menos Wanted é obrigatória). Para os que continuam, vamos em frente (certo pessoal? Pessoal...?).
O tema hoje são vilões, garotos e garotas. Caras malvados que fazem coisas terríveis e que devem ser detidos por gente superpoderosa (ou nem tanto). Sim, caras vis e desprezíveis que fazem coisas abomináveis como... hã... roubar bancos! Sim! Roubar bancos é uma coisa feia pra danar! Ou... deixa ver... ameaçar heróis com armadilhas mortais! Sim! (Mas, peraí, se eles só ameaçam os heróis que são seus inimigos, então por que nós devemos ter medo deles?) Bem, eu estou exagerando, mas vocês entenderam a mensagem, não é? Raramente se vê vilões que fazem coisas ruins de verdade. Nas HQs (óbvio que é nas HQs, isso nós combinamos desde o começo, né?) os vilões parecem, muitas vezes, estar muito preocupados com planos mirabolantes de dominação mundial ou outros esquemas improváveis para serem realmente ameaçadores. E, mesmo quando eles fazem atrocidades reais, estas são cobertas por uma camada tão grande de irrealidade que nem nos afeta (e, por vezes, parece não afetar nem mesmo os heróis). Quer dizer, o Toupeira pode fazer um terremoto imenso bem no meio de Manhattan, mas nós não vemos o Quarteto Fantástico muito preocupado com as prováveis centenas de mortes, não é?
E nem nós. Quando um vilão genérico comete um ato maligno, em geral, pela lógica, haveria um genocídio. Mas isso não nos incomoda, porque nós não vemos. Isso me lembra uma cena da fase do Homem-Animal do Grant Morrison: uma pessoa inocente é assassinada, e alguém justifica: “...o homem não tinha importância. Ele não tinha passado, não tinha nome. Era um personagem incidental.” As tragédias são menos tragédias porque as pessoas que morrem são “incidentais”. Isso pode ser ótimo numa série meta-lingüística como esta fase do Homem-Animal, mas, na maior parte das HQs, põe abaixo a credibilidade da história.
Em suma, os vilões nunca fazem nada que afete de verdade a história, ou ameace de verdade os heróis.
Recentemente, em Identity Crisis (viu? Eu falei que ela ia aparecer) a esposa do Homem Elástico, Sue Digbny, é assassinada. Pior, revela-se depois que ela estava grávida. Pior: revela-se que, anos antes, ela havia sido estuprada. Horrível, não é? Pode crer. Sue era parte de um dos únicos casamentos felizes e (relativamente) descomplicados dos comics. Ela era uma personagem simpática, agradável e inocente, e que não havia feito nada para merecer um destino tão cruel. A sua morte, então, tinha tudo para ser o trampolim para um ótimo vilão, que realmente pusesse em risco os personagens principais da DC (um vilão ainda não revelado; um dos melhores aspectos de IC é que a história toda é um mistério tradicional, onde há muitos suspeitos e nenhuma certeza). No entanto, o que ocorreu foi uma onda de indignação por parte dos fãs. Longe de ser considerado um evento forte e importante, a morte de Sue Digbny virou “apelação”, “truque de marketing” ou até mesmo “fantasia do escritor pervertido”. Dá para acreditar? O escritor (o romancista Brad Meltzer) foi julgado por alguns fãs como um lunático psicótico por causa das ações do seu vilão. Estes mesmos leitores não vêem nenhum problema em assistir ao Darkseid explodir um mundo inteiro, desde que eles não conheçam as “vítimas”. Exatamente o tipo de postura que leva a histórias sem relevância e sem imaginação.
A (fantástica) minissérie Wanted é outra tentativa de deixar os super-vilões mais ameaçadores e interessantes. A história se baseia na premissa de que os vilões venceram uma guerra com os super-heróis e agora controlam o mundo às escondidas. O filho do maior assassino super-humano do mundo recebe o legado do pai após a morte deste, e herda os poderes e treinamento que o transformam num matador quase invencível. Mark Millar (que às vezes resolve aparecer com umas idéias geniais que poderiam salvar os quadrinhos) começa inovando por apresentar puramente a perspectiva dos vilões. Seu protagonista, Wesley Gibson, não é um anti-herói, não é um “cara normal”, não é relutante: ele é um vilão com V maiúsculo, abraça a herança paterna rapidinho e aprende a ser escroto como os piores. Millar segue de forma interessante ao apresentar os vilões como vencedores. Não há aqui espaço para conversões de última hora ou reviravoltas em favor dos heróis: os vilões ganharam, os mocinhos estão mortos. E, por último, o bom MM faz os seus vilões muito, mas muito aterrorizantes. Imagine alguém sem quaisquer restrições morais, que tem poder para fazer o que quiser. Wesley Gibson mata por vingança, diversão, por tédio, para extravasar as tensões do dia-a-dia e sem razão nenhuma. Estupra qualquer mulher que lhe chame a atenção, toma o que bem entender de quem quer que seja, e em geral faz o que lhe dá na telha (e nunca passa na cabeça dele nenhuma idéia saudável). Eu teria medo de um sujeito assim. Este é um vilão de verdade: alguém que pode matar sem se preocupar com nenhuma conseqüência, alguém que faz da sua rotina um festival de atrocidades, alguém que não tem nenhum “grande plano”, porque já venceu.
Estes dois sujeitos (Gibson e o nosso amigo desconhecido de Identity Crisis) são, para mim, vilões de verdade. O tipo de gente que o Super-Homem, o Aranha e todo o resto deveria estar caçando. Danem-se os pseudo-conquistadores do mundo! Pro diabo com os gênios do crime! Eu quero abrir os meus gibis sem saber quem vive e quem morre no final, e pronto para ficar chocado com as barbaridades que o vilão comete.
Enquanto isso não acontecer, vou continuar rindo da cara do Dr. Destino.
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