Metalinguagem nas HQs – Ficção vs. Realidade
Colaboração de Humberto Yashima
Os recursos característicos das Histórias em Quadrinhos (balão, requadro, onomatopéias...) são tantos que vários roteiristas se utilizam deles para contar histórias. Somente uma arte tão rica e com uma estrutura tão bem definida como esta poderia proporcionar situações como as que descreverei e comentarei nesta CMYK. Sem querer fechar questão, muito pelo contrário, aqui estão algumas situações nas HQs de super-heróis onde o artista faz uso de um tipo de metalinguagem para nos entreter e, às vezes, nos fazer pensar.
Provavelmente as mais famosas dessas histórias sejam as do
Homem-Animal escritas por
Grant Morrison. A mais contundente delas é Deus Ex Machina, a conclusão desta saga, onde o escritor se encontra com o personagem que está roteirizando. Na forma de metalinguagem utilizada por Morrison, o Homem-Animal se reconhece como parte da história que está se desenrolando. Isso foi muito comentado na época em que essa história foi originalmente publicada e ainda hoje é motivo de discussão entre os leitores. O que pode parecer apenas uma saída simplista e sem compromisso para um roteiro confuso, é justamente o contrário: um final extraordinário para uma história altamente elaborada. No Brasil essas histórias foram publicadas pela Editora Abril em
DC 2000 #3-7, 11, 13-14, 16-19, 21, 26-36 entre março de 1990 e dezembro de 1992 e tiveram parte delas republicada pela Brainstore em dois volumes. Como personagem, Grant Morrison foi morto em uma aventura do Esquadrão Suicida escrita por John Ostrander e Kim Yale, publicada em Suicide Squad #58, outubro de 1991, infelizmente inédita no Brasil.
O escritor aparecer em uma aventura do herói que está roteirizando não é um privilégio exclusivo de Morrison.
John Byrne também se fez presente em
She-Hulk #50 em 1993, edição especial que teve a colaboração de
Dave Gibbons,
Frank Miller,
Wendy Pini,
Walt Simonson,
Howard Chaykin,
Adam Hughes e
Howard Mackie, todos desenhando a heroína de cabelos verdes no seu próprio estilo, fato explorado por Byrne no roteiro e um deleite para os fãs que procuravam prestar atenção nesse detalhe ao ler a aventura. Byrne abusou das “piadas” (entre aspas mesmo!) que chegavam a chocar o leitor menos preparado para o absurdo. Beirando o
nonsense e o estapafúrdio essa saga foi parcialmente publicada pela Editora Abril em
O Incrível Hulk #111, 114, 116-118, 125-128, 133, 139-140 e 142 entre setembro de 1992 e abril de 1994, e
Grande Heróis Marvel #36 em junho de 1992.
Em Mulher-Hulk tudo era possível e, para provar isso, Byrne satiriza até a si próprio. Na história publicada em O Incrível Hulk #139 o desenhista chega a deixar páginas inteiras em branco para satirizar o que fez em
Alpha Flight #6, de 1984 (
Superaventuras Marvel #52, Editora Abril, outubro de 1986) onde “desenhou” cinco páginas somente com requadros sem absolutamente nada em seu interior e onomatopéias para “mostrar” uma seqüência que ocorria numa nevasca com a Pássaro da Neve. A própria Mulher-Hulk grita:
“– Byrne! ... Você sabe que os fãs odiaram essa piada naquela saga da Tropa Alfa!” Parece ter sido uma vingança do polêmico John Byrne! Será?! O fato é que eu me deliciei com isso, embora tenha pensado que em Tropa Alfa ele estava atrasado com o prazo de entrega e fez isso para ganhar tempo. Isso é só especulação, não há informações sobre isso ter ocorrido de fato.
Em
Supremo – A História do Ano, publicado em 1993 pela Brainstore, o escritor
Alan Moore vai bem mais longe. O início da saga se baseia no que acontece com os personagens que depois de reformulados caem no ostracismo, no jargão dos quadrinhos conhecido como “limbo”. (Uma outra visão do “limbo” também foi explorada por Grant Morrison em Homem-Animal.)

Na HQ, versões do herói de várias épocas vivem em um lugar chamado Supremacia, construído pelos primeiros “reformulados” e mantido pelos que vieram a seguir, incluindo os personagens secundários e
sidekicks, pois reformulações acontecem quase que constantemente na indústria dos quadrinhos e tornou-se quase uma necessidade na virada de uma década para outra. Moore é simplesmente genial, especialmente nesta série onde faz uma verdadeira homenagem às Histórias em Quadrinhos e, nem é preciso pensar muito para entender que Supremo é o Super-Homem. Lendo com essa visão, as histórias de Supremo escritas por Moore se tornam ainda mais atraentes e surpreendentes.
Tchau! Até breve!