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Super-heróis: esses preguiçosos...
Por Leonel Dorkboy — Quinta, 16 de setembro de 2004
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Olá, leitor. Ei, calma, não saia correndo. Sim, você achava que esta coluna tinha morrido, mas isso não quer dizer que ela é um terrível zumbi online. Sim, senhoras e senhores, a Fanboy voltou (onde foi que vocês já ouviram isso antes?). Bem, deixando de lado as minhas constantes promessas de desta vez manter a coluna atualizada, vamos ao que interessa: quadrinhos.
Eu tinha toda a intenção de escrever sobre HQs alternativas, mangás, ou qualquer coisa que não fossem super-heróis. Afinal, a maior parte da minha “carreira” de leitor de HQs foi passada devorando títulos indies. Mas, fazer o quê, eu prometi mestrar uma campanha de RPG baseada no universo Marvel essa semana, e os supers estão na minha cabeça. Preparem-se então para mais uma Fanboy vestindo colante e de cueca por cima das calças. Para o alto e avante!
O que vem à cabeça quando se pensa em super-heróis? O que vem à cabeça da maioria das pessoas? por experiência própria, eu posso dizer: gente usando capa, impedindo um assalto a banco. É isso. Ou então, heróis de queixo quadrado e cérebro reduzido impedindo o “plano maligno” de um gênio do crime qualquer (ei, por que o vilão é sempre mais inteligente que o herói?). É triste, mas é isso: na cabeça de quase todo mundo (e vamos incluir aí muitos editores e roteiristas de comics), os supers são só uns caras poderosos que tentam impedir que coisas ruins fantasiosas aconteçam.
Notaram? Os supers tentam impedir que coisas ruins aconteçam. Eles não fazem nada de bom. Já pensou se fosse assim no seu emprego? Você não precisaria produzir nada, só impedir que as coisas piorassem.
O ponto onde eu quero chegar é: isso me parece muito, mas muito idiota. Quer dizer, ótimo que a maior parte das HQs não queria lidar com temas “maduros” como a fome no mundo e a guerra no Oriente Médio. Tudo bem que os roteiristas queiram continuar na “fantasia” e não meter os seus personagens no meio de problemas do “mundo real”. Mas será que os heróis têm de ser tão preguiçosos? Essa gente só fica em casa (na base/edifício supertecnológico/mansão/torre/etc.) o dia inteiro, esperando que algo de ruim aconteça. Por que eles não tentam melhorar o mundo? Mesmo na fantasia, é possível fazer isso. Tudo bem, talvez o Capitão América não vá dar uma surra no Bush e mostrar o que é um patriota de verdade, mas por que ele não lidera um ataque à Hidra? Por que o Aranha não usa o seu conhecimento científico para ajudar a criar uma prisão que contenha o Doutor Octopus? Por que o Reed Richards não procura firmar um acordo diplomático com os habitantes das trocentas dimensões que ele visita por semana?
O que falta nas HQs super-heróicas, na minha opinião, são heróis pró-ativos. Os supers são, há muito, considerados uma espécie de “modelo” para as crianças (e por isso tantos objetam contra sexo e violência em suas histórias). O que nós queremos ensinar, então, para os pirralhos? Que é legal ficar “coçando” até alguém fazer algo de errado, ou que se deve fazer a coisa certa todos os dias, sem precisar de uma “ameaça”?
As grandes companhias (leia-se Marvel e DC, como se vocês não soubessem) têm um medo tão grande de “estragar” franquias lucrativas que acabam caindo nessa lenga-lenga inútil que são as vidas dos supers. Uma postura pró-ativa não “destruiria” franquia alguma (todo mundo sabe que a resposta para a eterna pergunta “por que o Batman não mata o Coringa?” é: “por que daí o Coringa não venderia mais gibis”), apenas daria um novo fôlego a essas propostas cansadas.
Existem, contudo, as sempre bem-vindas exceções, em variados gêneros de HQs super-poderosas. Na Marvel, o universo Ultimate (sabe, aquela linha alternativa escrita quase exclusivamente pelo Brian Michael Bendis) adota uma postura bem mais “pró-ativa” para os seus heróis. Na versão “ultimate” do Quarteto Fantástico (SPOILERS MENORES À FRENTE), o Reed Richards revolucionou o armazenamento de informações, e trabalha para fazer o mesmo com os transportes (FIM DOS SPOILERS INSIGNIFICANTES). Nos Supremos, o Tony Stark “praticamente projetou a internet”, de acordo com a Viúva Negra. Ainda nos Supremos, o Thor forçou o governo americano a aumentar a ajuda para países do terceiro mundo. E o Aranha, ainda adolescente, fez e aconteceu, mas atacou o Rei do crime como pôde, e afundou o nome do gordão na lama. Viram? Não é tão difícil. Esse pessoal eu posso chamar de heróis: eles deixam o mundo um pouquinho melhor do que era quando o encontraram.
Fugindo das duas gigantes, nós temos um “playground” ainda mais fértil de heróis pró-ativos. O exemplo mais brilhante, interessante e fascinante (e outras palavras hiperbólicas que rimem com “ante”), é o Authority. Os meus super-heróis preferidos têm como lema justamente a frase “fazer um mundo melhor”. No início, isso se resumia a utilizar a tecnologia dos super-vilões para realizar avanços tecnológicos e médicos para a população em geral, mas logo os supers mais perigosos e idealistas do planeta aumentaram as apostas. Eles começaram a chacinar ditadores nas horas vagas. Acabar com o poder de grandes conglomerados industriais e trustes multinacionais inescrupulosos. Ver a Rapina (a chinesinha mais sexy que já nasceu de um ovo) com a cabeça decepada do Bill Gates na mão me deixou sorrindo o dia inteiro. Chegou a um ponto em que o Authority simplesmente chantageou o governo dos EUA para que assumisse políticas mais amigáveis para com o resto do mundo e o meio-ambiente. Para mim, isso são heróis (engraçado saber que, na visão do Warren Ellis, o criador do grupo, o Authority são os vilões...).
No mesmo universo Wildstorm (onde se passam as aventuras do grupo), os Wildcats deixaram de ser clones dos X-Men para virarem a parte operativa de uma corporação que tem por objetivo justamente melhorar o mundo. Através da invenção de uma fonte de energia inesgotável, Spartan, o andróide líder do grupo, revoluciona o mundo, acabando com, por exemplo, a crise do combustível. Com certeza ele nunca havia sido tão útil enquanto vestia colante e espancava demonitas.
Indo ainda mais longe, vamos nos deparar com o excelente (e quase desconhecido) Classwar, onde um grupo de supers (que na verdade é mais uma releitura da Liga da Justiça) declara guerra ao governo dos EUA. Para ter uma idéia do que é Classwar, imagine um Super-Homem muito, mas muito irritado com George W. Bush... E sem medo das conseqüências dos seus atos.
Enfim, os heróis seriam muito mais relevantes e até divertidos se tirassem as mãos do bolso de vez em quando. Me chateia saber que, para ter esse tipo de história, eu preciso ler os Supremos (nunca os Vingadores) e uma versão da Liga da Justiça (nuna a própria Liga). O que é tão aterrorizante assim para os editores?
E ficam aqui, publicamente, os meus votos para que os jogadores da minha campanha sejam heróis pró-ativos, e não reativos. O mundo conta com vocês, rapazes!
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