Onomatopéia é a tentativa fonética de se imitar um som ou ruído. Tentativa porque nem sempre é exata, e nem poderia ser. Algumas delas estão no nosso cotidiano – o tic-tac do relógio, o triiimmm do telefone, o ding-dong da campainha... – de maneira tal que imediatamente as reconhecemos e identificamos num texto, num filme ou numa História em Quadrinhos. Ao ver um quadrinho totalmente preto com apenas a onomatopéia Bang! desenhada, imediatamente você deduzirá que um tiro de revólver foi disparado. Essa é a função básica da onomatopéia numa HQ: sonorizar a história. É nesse sentido que eu pretendo tratá-la neste texto, sem me preocupar com suas várias definições e características ou me aprofundar no seu sentido morfológico ou semântico. (Há um texto excelente escrito por Naumim Aizen que trata sobre isso no livro Shazam! organizado por Álvaro de Moya e publicado pela Editora Perspectiva em 1977.)
Estamos tão familiarizados com as onomatopéias em inglês que vemos nas Histórias em Quadrinhos que não nos apercebemos que elas surgiram a partir de verbos que simplesmente enfatizam a ação das personagens. Algumas das mais conhecidas são: smack!, usada para caracterizar um beijo, sendo que nada mais é do que o verbo “to smack” que significa “beijar”; sniff-sniff (to sniff), cheirar; splash!! (to splash), salpicar de água; crack (to crack), quebrar e crash! (to crash), espatifar. Provavelmente você vá se lembrar de outras tantas. Perceba que as onomatopéias mais comuns nas HQs não tentam imitar o som, mas simplesmente enfatizá-lo, quase que descrevendo a ação, embora a própria palavra em inglês tenha se originado do ruído e, portanto, lembrando-o. Ilustrativamente, traçando um pequeno paralelo com o que estou afirmando, em português, por exemplo, temos os verbos cacarejar originado do co-co-ri-cóóó da galinha e tique-taque que originou tiquetaquear.
Procurando uma representação fonética para o ruído do relógio neste texto, até o momento usei duas onomatopéias: tic-tac e tique-taque. A primeira tem uma influência americana e a segunda está aportuguesada.
As onomatopéias nas Histórias em Quadrinhos devem interagir com a arte de maneira agradável, fazer parte do desenho e não simplesmente estar sobre ele. Algo difícil de se fazer, mas não impossível.
Howard Chaykin é um dos desenhistas que mais abusam do som em suas HQs. Em
Time 2 (leia-se
“Time Square”) além das suas “tentativas” de imitar ruídos, amplifica gritos e ainda usa partituras musicais para compor a cena. Metaforicamente, a cacofonia em algumas páginas desta série chega a ser ensurdecedora. O mestre
Will Eisner em
New York – A Grande Cidade (Ed. Martins Fontes, 1989) faz o mesmo, sem o exagero de Chaykin, e consegue um efeito bastante interessante utilizando as onomatopéias de maneira secundária, mas sem desmerecer o seu valor. Outro excelente exemplo é
Walt Simonson. Seus recursos “onomatopéicos” são tão grandes que para mostrar o esperado combate entre Órion e Darkseid, publicado pela DC Comics em
Orion #5 em outubro de 2000, surpreende fazendo-o praticamente sem diálogos e abusando das onomatopéias, o que enfatiza o poder dos dois gigantes e a grandeza da ação.
Nos três casos os trabalhos mencionados são autorais, pois atualmente as onomatopéias estão a cargo dos letristas e há muito tempo deixaram de ser função dos desenhistas, principalmente devido à carga de trabalho que a indústria dos quadrinhos impõe aos artistas.
Laerte em
Piratas do Tietê não usa o tradicional “Bang” mas sim um sarcástico “Pôu”, e um tiro de canhão que poderia ser “Boom” ou “Ka-Boom” torna-se um sonoro “P-Kôu!”. Mas, percebe-se que embora faça isso Laerte não é xenófobo pois em vários de seus trabalhos pode-se encontrar, entre outras “onomatopéias americanas”, uns “Smacks”. Uma das onomatopéias mais famosas nas HQs brasileiras é certamente o
top-top dos
Fradinhos de
Henfil (1944-1988) que atualmente tornou-se tão popular, sem mensurar o quanto isso se deve aos Fradinhos, que nem é preciso mais repetir o gesto característico do “fodeu-se”, bastando dizer “top-top” para que o receptor entenda a mensagem.
Durma-se com um barulho desses!
Tchau! Até mais ver!