40 anos sem O Amigo

Por Rafael Lima — Quarta, 25 de agosto de 2004

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O adolescente pernambucano Péricles de Andrade Maranhão deve ter sido um daqueles desenhistas com talento em estado bruto de enlouquecer professor de perspectiva. Leitor da era de ouro dos quadrinhos, começou tentando imitar Dick Tracy, Agente Secreto X-9, Flash Gordon - isso nos momentos em que não se imaginava como um deles, certamente.

Ainda menor de idade, chegou ao Rio de Janeiro, carta de recomendação para Leão Gondim de Oliveira debaixo do braço: Leão era o grão-vizir dos Diários Associados, então a mais poderosa rede de comunicações do país. Em sua estréia, a 6 de junho de 1942, era o funcionário mais jovem da empresa (Millôr - até pouco antes Milton - Fernandes faria 18 anos pouco depois). Em menos de um ano, emplacaria seu primeiro personagem cômico no Diário da Noite: Oliveira, o trapalhão.

Em 1943 O Cruzeiro já iniciara a escalada de vendas que lhe tornaria a revista mais vendida do Brasil em todos os tempos, baseada numa equipe jovem e prenhe de talentos em gestação, quando não prontos. A edição já se fixara em determinadas seções e nomes de consistência e qualidade suficientes para merecerem a estabilidade, e a Péricles seria encomendado um tipo humorístico para ocupar piadas de uma página, que traduzisse "a verve típica e o humor carioca", que captasse "o estado de espírito daquele que vive no Rio de Janeiro, não importa onde tenha nascido". Tarefa nem um pouco trivial, aliás.

Rabisca pra cá, rabisca para lá, Péricles coloca o lápis para pensar e emerge uma figura que lhe parece apropriada para gags visuais: baixinho, cabelo penteado para trás à base de gumex, summer jacket, bigodinho safado, olhar de peixe morto. Era alinhado demais para ser um dos cafajestes de Nélson Rodrigues, tinha o jeito cínico demais para ser um dos personagens encarnados por Zé Trindade ou Oscarito nas chanchadas da Atlântida e, ao mesmo tempo, moleque demais para ser a versão tupiniquim dum golpista internacional interpretado por David Niven. É curioso notar a semelhança com Lamartine Babo, sobretudo depois da meia-idade, ainda que o mais provável é que Péricles tenha buscado um retrato genérico: uma foto da redação d'O Cruzeiro em meados dos anos 50 traria uma coleção de sujeitos de cabelo penteado para trás, bigodinho e paletó branco... (Aliás, a semelhança da redação d'O Cruzeiro com o Amigo da Onça não era apenas física, mas psicológica; não é difícil imaginar quantas idéias devem ter surgido a partir de pilhérias entre os funcionários da revista.) Além da contratação, coube a Leão Gondim o batismo do personagem, baseado numa piada gasta, em voga naqueles dias:

Dois caçadores conversam em seu acampamento:
- O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
- Bom, então eu matava ela com meu facão.
- E se você estivesse sem o facão?
- Apanhava um pedaço de pau?
- E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
- Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Assim, o Amigo da Onça estreou em 23 de outubro de 1943, capturando de imediato a atenção dos leitores. Ao batizar o personagem, Gondim percebeu sua característica fundamental, responsável pela chamada "identificação" do público: a ausência de caráter que denuncia o anti-herói brasileiro, de Brás Cubas a Macunaíma.


O sucesso do Amigo da Onça entre os leitores não pode ser explicado apenas pelo efeito de catarse que ele provocava ao cometer as maldades que, secretamente, seu público desejava mas nunca levara a cabo: pregar uma peça na sogra, dar uma cama-de-gato no chato que sempre pedia dinheiro emprestado, botar uma armadilha para o chefe mal-humorado. Havia algo mais ali, havia um deleite sádico em se comprazer com a desgraça alheia (mesmo que sem motivo), o sentimento precisamente descrito por uma palavra alemã: schadenfreude. Era o humor despido de sua armadura vingativa, de suas cores redentoras, que brada a nudez do rei, que castiga a moral rindo; humor em sua forma mais simples: ilógico, anárquico, estúpido, universal.

Não que diversas vezes Péricles não tenha preferido localizar a piada, utilizando o Amigo da Onça para fazer jornalismo ou crítica de costumes. Em dois exemplos notáveis, o Amigo incentiva Boris Pasternak, escritor vítima do stalinismo, a ir buscar seu prêmio Nobel e convida Nat King Cole a fazer uma turnê na Cidade do Cabo, em pleno apartheid. Também é fácil encontrar muitas situações em que o Amigo da Onça esculhamba instituições como o casamento ou as forças armadas e desnuda a hipocrisia social contida nos bons modos forçados, na falsa elegância, no jogo de aparências. Nada que diminuísse o caráter universal do personagem, afinal, exército e casamento são alvos de humoristas até hoje - para não sair da mesma revista, algumas páginas antes podiam-se encontrar gracinhas de Millôr Fernandes ou Carlos Estevão sobre os mesmos temas - e crítica social era algo que Moliére já fazia em suas peças, 200 anos atrás. O que atraía os leitores era mesmo o retrato do homem como lobo do homem.

O Amigo da Onça foi publicado durante mais de 20 anos ininterruptos em O Cruzeiro. Não era o único trabalho de Péricles, mas logo se veria o quão difícil era desvincular seu nome do personagem, ao contrário de repórteres como David Nasser e Jean Manzon, desenhistas de humor como Carlos Estevão ou escritores como Rachel de Queirós, que transformaram seus nomes em grifes. Na década de 50, uma pesquisa de opinião indicou que O Amigo da Onça era a seção preferida, com boa margem de folga, entre os leitores, revista então lida em todo o país, ultrapassando a televisão e rivalizando com o rádio na penetração junto ao público.

É apressado enxergar no Amigo um alter ego da personalidade instável de Péricles, boêmio inveterado -- o que não o fazia diferente de inúmeros colegas de redação. Esse tipo de hipótese clichê costuma ser levantada toda vez que se busca uma razão para o suicídio de Péricles Maranhão, ocorrido há 40 anos - como se houvesse razão num suicídio. Foi incorporado pelo personagem. Matou-se para não matá-lo. Não soube lidar com a fama. Seja como for, Péricles manteve até os estertores o espírito gozador: no bilhete que deixou, após ligar o gás e fechar portas e janelas, lia-se: "Não risquem fósforos". Como se houvesse razão no humor.

O cartunista Carlos Estevão continuou fazendo as páginas do Amigo da Onça após a morte do companheiro, sem, no entanto, a sutileza característica. Além dessa tentativa, pelo menos 2 outras vezes o personagem foi revivido, sem o mesmo sucesso de audiência. Nesse ano, em que se completam 4 décadas da morte de Péricles, foi produzido e está indo ao ar na TV Senac um documentário, com entrevistas de colecionadores, artistas e da viúva do cartunista. O site Memória Viva tem sido atualizado periodicamente com páginas digitalizadas do arquivo d’O Cruzeiro e já é possível encontrar até mesmo encarnações virtuais do Amigo da Onça, provando que a memória de Péricles permanece. ¤




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