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Por um cinema mais próximo de você
Por Paula Machado — Terça, 24 de agosto de 2004
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Há muito pouco tempo atrás, só poderíamos assistir a um documentário em cinemas tipo os do Grupo Estação. Hoje, até os mercenários Cinemark e UCI colocam esse tipo de filme em cartaz. Tudo bem que são películas polêmicas, como Fahreinheit 11 de Setembro e Super Size Me, mas é nesse momento que testamos o efeito Tostines: eles vendem mais porque são mais exibidos ou são mais exibidos porque vendem mais.
Lembro que, há quase dois anos atrás, tive que atravessar a cidade para conseguir assistir à Dolls, de Takeshi Kitano. Filmes orientais, com raras exceções (como O Tigre e o Dragão, de Ang Lee) não rendem grandes bilheterias; logo, são raras as salas de cinema que arriscam exibi-los. Há alguns meses, achei que fosse passar pelo mesmo perrengue para assistir à Primavera, Verão, Outonos, Inverno... e Primavera, de Kim Ki-deok, mas me surpreendi com a quantidade de cinemas que o acolheram e pela longa temporada que ele ficou em cartaz.
Não vamos nos precipitar, afinal, o filme não chegou à atingir a freqüência de um blockbuster. Mesmo que as pessoas estejam buscando as produções de qualidade que circulam fora do grande circuito, para que um filme chegue a um Cinemark da vida, ele tem que ter lucro certo. Michael Moore mostrou que o cinema-diversão também podia ser politicamente correto e um pouco mais do que puro entretenimento. Agora Morgan Spurlock segue seus passos e emplaca o polêmico Super Size Me.
O filme de Moore fez um estardalhaço maior e chegou a esgotar bilheteria de algumas salas aqui no Brasil. Ingenuamente pensei: “que legal, as pessoas estão aprendendo sobre a política e economia americana pelo cinema!” A verdade é que grande parte destas pessoas nem sabe que está comprando um documentário e sai do cinema indignada com o conteúdo “chato” do filme.
Quando cheguei para comprar o ingresso do filme de Spurlock, era sábado à noite e faltavam apenas 10 min para a sessão começar. Tinha certeza absoluta que não encontraríamos mais ingressos... Mas me enganei. Era a única sessão do Cinemark que ainda tinha bilhetes à venda. Super Size Me tem uma chance maior de agradar os espectadores desavisados do conteúdo, pois é mais divertido e menos informativo. Além disso, o assunto é mais próximo da audiência nacional, pois o problema do aumento do número de obesos, causado pela alimentação fast-food e sedentarismo, tem efeito globalizante, sendo comum ao Brasil.
Eu fico muito feliz que os filmes estejam se tornando mais acessíveis ao público. Por outro lado, fico decepcionada quando ouço alguém reclamando que odiou o filme, sem nenhuma crítica à produção, mas pelo simples fato de pensar que cinema só deve ser diversão. Não posso culpar um povo que é educado para aceitar passivamente tudo que lhe é imposto. Contudo, mantenho minha fé na sétima arte.
Esse é apenas mais um motivo para acreditar que o cinema pode ser mais que diversão e se tornar um instrumento de educação e despertador de pensamentos críticos. Tudo leva a crer que a transformação está apenas começando. ¤
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