Caco Galhardo põe a mesa

Por Rafael Lima — Quinta, 19 de agosto de 2004

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O anúncio de um livro em parceria entre Caco Galhardo e Marcelo Mirisola não foi suficiente para me animar, com base no que eu conhecia de cada um: do humor do Caco para os Cabeçudos, pouco me empolgara; Mirisola me divertiu em alguns contos curtos, bem curtos – quanto menor, melhor o conto – mas desgostei profundamente do romance O Azul do Filho Morto. Então veio a recém-lançada com ótimas estréias editora Barracuda com essa.

A proposta inicial era aproveitar os desenhos de mulheres nuas ou semi que Caco Galhardo produzira quase como hobby para sua página, elevando-as a personagens através de enredos inventados por Mirisola. Me indaguei se ele não colocaria tudo a perder, transformando cada mulher numa das tristes figuras desumanizados de suas narrativas.

Desenhar mulher pelada é um tesão; todo mundo que desenha, aprendeu, mesmo que em parte, só para desenhar mulher nua, ou quase – do Alceu ao Boris Vallejo. Com Caco não é diferente; só que, quando ele parou para contar, tinha passado da segunda centena de peladas. As moçoilas de Galhardo não se exibem para o artista; foram pegas em plena intimidade e languidez, de tal sorte alheias ao olhar bisbilhoteiro do desenhista, e em situações tão fugazes que o lápis lembra mais um flagra fotográfico do que uma recriação sobre o papel. Desnudam-se porque não estão sendo vistas, ou por estarem em companhia de amantes, de gente para quem aquela nudez foi franqueada.

O traço é menos cartunizado do que nos Pescoçudos; há curvas suficientes para que o leitor encontre sensualidade e o tal tesão de que falei, ali. É como se estivesse à procura da assim chamada nudez espontânea, desejada em todos os ensaios da Trip e inventada originalmente pela Playboy.

Apesar de alcançar momentos de rara invenção e até uma certa poesia, os textos mais marcantes de Mirisola (ou não seria Mirisola), são os que transpiram ressentimento, desde a dedicatória ("a todas as mulheres que não me quiseram"): "o sapatinho ela comprou no brechó"; "uma raça de mulheres aguadas que, além de mal disfarçar o semi-analfabetismo, a jequice e a ambição, chama o cliente de 'pai'", "ela não tem celular e se acha 'diferente' das outras garotas por conta disso. Orgulha-se, até", "quase tímida se não fosse meio caipira" etc, aquele troço: puto porque não comeu. Claro, também tem muito aquela palavrinha, que ele adora, com dois x; tem desilusão, vazio existencial, nostalgia rota – ou não seria Mirisola, de novo. As taras e os fetiches eu nem vou contar, num livro fetichista por proposta.

No posfácio, Caco Galhardo diz que pretende com o livro "proporcionar uma peça de erotismo que forneça esse algo mais ao leitor". É difícil afirmar com segurança que ele conseguiu, porque a ingenuidade estilizada de seu traço não conseguiu incorporar a expressividade bruta dos grafites de rua, pixações de porta de banheiro, desenho em tampo de carteira de colégio, cartum de fanzine (como fizeram com brilho Tom B e MZK), nem atingiu o estágio de simplicidade sofisticada de Loustal ou Fabio Zimbres; Mirisola, por sua vez, nos melhores momentos está evocando uma fantasia ou um tabu, sempre mais banal do que refinado. Funciona, mas é manjado. Arrisque-se, se esse for o seu erotismo.

O livro conta ainda com a participação especial do diretor teatral Mário Bortolotto, comparsa de Mirisola, na criação da última personagem, e arrisca uma viés interativo ao convidar o leitor a escrever sua própria história sobre a última gostosa do livro, ainda não batizada. Os resultados devem sair no site da editora. ¤




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