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Filmes para morrer
Por Maria Luiza Porto — Sexta, 13 de agosto de 2004
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Tem filmes que quando você está deprê te arrastam straight to hell. Não que eu não goste, também tenho meus momentos “Strindberg”. Mas ando evitando películas de sofrimento gratuito, ainda mais quando ninguém vai me pagar um chopp depois do cinema. Apesar disso, essa resistência é sempre vencida pela minha compulsão pela sétima arte. Foi então, que decidi alugar 21 Gramas, do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. O filme trabalha com a mesma estrutura de Amores Brutos: um único acidente que muda drasticamente a vida de três personagens. Embora 21 Gramas não possua as belíssimas metáforas de Amores (que te deslumbra ao mesmo tempo que te repugna), ele consegue nos envolver de tal modo na trama que nem sua narrativa fora de cronologia nos permite uma pausa para refletir (ou mesmo para respirar). É pura dor.
Outra película que se encaixa perfeitamente na categoria de “filmes para morrer” é Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky. É a degradação humana frente à droga do começo ao fim (e que fim!). Só ladeira abaixo. Você sai do cinema querendo ir a um parque de diversões ver uns palhaços, carrosséis girando, gargalhada de criança, algodão doce colorido... Esquecer um pouco que os serem humanos são tão infelizes em suas vidas miseráveis, sujas, feias, pobres e frustradas. Não há coisa pior do que assistir a esperança alheia se despedaçar. O personagem de Ellen Burstyn, a idosa viciada em remédio para emagrecer, é o mais trágico que já vi depois de Joe Buck de Midnight Cowboy - outro filme mortífero, por sua ingenuidade, por sua autodestruição inconsciente, por seu universo pequeno e sua felicidade indigna. É uma dose de cicuta visual.
Poderia listar infinitamente filmes depressivos. Mas os que, sem dúvida, merecem uma menção especial são os filmes-de-pessoas-com-doença-terminal: Laços de Ternura, Filadélfia, Invasões Bárbaras, Minha Vida, Tudo por Amor... Esses aí te fazem olhar para aquela lâmina afiada no banheiro de maneira libidinosa. Os melhores ainda (ou piores, tanto faz) são aqueles em que a doença é rara, como Óleo de Lorenzo, Os Três Desejos de Billy Grier e Marcas do Destino – o personagem Rocky Dennis assombrou por anos minha infância. Depois ninguém entende os hipocondríacos.
Uma farta carga de sadismo se faz necessária para que se assista a uma dessas películas citadas acima. A propaganda boca-a-boca continua sendo a mais persuasiva (ou a mais dissuasiva) e por incrível que pareça sempre ficamos decepcionados quando não encontramos a cota de sofrimento alheio que esperávamos testemunhar. “Queremos sangue!” – grita calado alguém na platéia. E ao final de cada sessão, por mais pesado que tenha sido o filme, nos sentimos mais leves... 21 gramas, é o que dizem. ¤
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