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Mulher-Gato chega aos cinemas
Por Douglas Donin — Quinta, 12 de agosto de 2004
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Finalmente, Mulher-Gato chega aos cinemas. Chegou a hora de ver se realmente estávamos certos...
Poucos filmes foram vítimas de um hype negativo tão unânime, furioso e persistente quanto este. Logo que surgiram as primeiras imagens de Hale Berry com aquela "roupa" de gosto duvidoso, virou uma espécie de esporte falar mal do filme. Eu mesmo sentei o sarrafo na produção algumas vezes, aqui mesmo no SoBReCarGa, meses e meses antes do lançamento. As notícias que saíam aos poucos, principalmente por confirmar que a personagem não teria correspondência nenhuma com a original, famosa coadjuvante das histórias do Batman, não animavam nada, e só alimentavam a metralhadora giratória dos que apedrejavam a produção.
Assim, Mulher-Gato já nasceu com estigma de "bomba". As perguntas que importam, agora que o filme foi lançado, são: o filme merece este estigma? Mulher-Gato é o pior filme baseado em quadrinhos de todos os tempos? Mulher-Gato é uma má adaptação? As previsões estavam certas?
Não. Espantosamente, não. Para as quatro perguntas.
Sejamos sinceros, Mulher-Gato é um filme ruim. Bastante ruim. No entanto, tem seus méritos (quase todos técnicos), e não merece ser chamado de "bomba" - na minha opinião, este termo tão único e especial deveria ser reservado para filmes como Batman & Robin, Capitão América, Street Fighter e outros semelhantes. Não vamos banalizar o uso do termo "bomba".
Também não é o pior filme baseado em quadrinhos que alguém poderia imaginar, e exemplos de filmes piores não faltam. Algumas características desejáveis em um filme do gênero, como boas cenas de ação e competentes efeitos especiais foram atendidas, e com surpreendente sucesso.
Se é uma má adaptação? Bem, o próprio Pitof (se isto é nome de diretor que se apresente?!) disse desde o começo que o filme não teria absolutamente nada a ver com o personagem dos quadrinhos. Não podemos cobrar fidelidade ou apontar diferenças neste caso, pois fomos bem avisados.
E - o mais surpreendente de tudo - as previsões acerca do mal-gosto estavam erradas. Todos disseram que o filme seria constrangedor pelo figurino, que seria ridículo ver a Mulher-Gato em ação vestida daquele jeito, que Hale Berry é insossa demais para fazer uma heroína tão "física"... Mas Hale Berry (acreditem) não está tão ridículo naquela roupa de couro. Você toma um choque no início, mas pelo menos se acostuma rápido. Não é tão ofensivo assim. Onde todos falavam que o filme afundaria, ele é até bem passável.
O problema, senhores, é todo o resto. Apenas isso. Roteiro, direção, o que não julgávamos ser o mais vexatório.
Comecemos pelo enredo - coisa que ninguém falava antes, pois preferiam se prender a aspectos meramente superficiais. Não há palavras para descrever o quanto a trama de Mulher-Gato é ridícula. Eu poderia tentar descrevê-la como "incrivelmente patética", "uma ofensa à inteligência", ou empilhar outras gentilezas do gênero, mas isto não chegaria nem perto de descrever adequadamente o desserviço à arte de contar histórias que Theresa Rebeck, John Brancatto, Michael Ferris e John Rogers (sim, foi preciso combinar o talento de quatro pessoas para escrever aquilo) cometeram. Reúne infantilidade, inconsistência e falta de originalidade em uma mistura raramente experimentada.
Podem me chamar de exagerado e dramático, mas, acreditem: estes quatro profissionais fizeram mais mal ao filme do que uma legião de designers e figurinistas de gosto duvidoso poderiam sequer sonhar em fazer. Não fosse pelo roteiro, o filme passaria por uma obra até decentezinha sobre super-heróis, não enfureceria tanto a crítica, e teria alguma chance de pagar seu próprio custo.
Para tentar resumir: Patience Phillips (Hale Berry) é uma artista frustrada, tímida e explorada, massacrada no trabalho pelo seu patrão sanguinário, George Hedare (Lambert Wilson, o Merovíngio de Matrix). Certo dia, após entrar de maneira despercebida e por acaso em um laboratório, Patience ouve mais do que deveria, é perseguida, cai em uma armadilha e é morta. No entanto, um gato de uma raça egípcia a traz de volta à vida, dando à moça poderes sobre-humanos, como super-agilidade, super-sentidos, super-saltos, super-um-montão-de-coisas. Até aí, nada de diferente ou estranho: se este tipo de coisa vive acontecendo com aranhas, porque não com gatos?
Alguns "upgrades" ocorrem na história da personagem: além do tom místico, a Mulher-Gato seria apenas a herdeira de uma longa linhagem de mulheres que, no decorrer da história, tiveram histórias parecidas (some isso ao fato dela receber seu poder depois de ser mortalmente ferida e você tem a história da Witchblade).
Mas, como dizíamos, o problema não é bem com a história da personagem, mas sim, com a trama. A empresa onde a srta. Phillips trabalha está para colocar um novo e revolucionário creme de beleza no mercado, capaz de não só parar os efeitos da velhice como também revertê-los (nenhuma história que seja centrada no mundo dos produtos de beleza pode prestar). O problema é que o tal reboco causa dores de cabeça, náuseas e desmaios, sem falar que corrói e deforma o rosto das pobres usuárias, deixando-as parecidas com o Freddy Krueger (este era o segredo que levou Patience Phillips à morte). Claro que agências de saúde pública e fiscalização não existem, e o produto - mais nocivo do que a linha de cosméticos do Coringa - está para chegar nas lojas.
Óbvio que a Mulher-Gato vai investigar, e acaba se tornando acusada pela morte do dono da empresa - em uma jogada arquitetada pela vilã Laurel Hedare (Sharon Stone), sua esposa. Aliás, a vilã tem o mais... "exótico"... dos poderes: sua pele ficou invulnerável pelo uso do tal creme de beleza. O momento onde Sharon Stone (que deve estar mesmo com muitas contas para pagar, no auge da sua mediocridade como atriz, e que em algumas cenas está estranhamente parecida com o Cazuza no fim da vida) revela seu poder ("O uso prolongado de Beau-Line deixa sua pele como mármore") é de rachar de rir, e acaba com qualquer clima que o diretor poderia ter criado. É inacreditável que, de quatro pessoas que trabalharam na trama, pelo menos uma não tenha percebido que a idéia era simplesmente estúpida.
O tom é assumidamente caricatural e exagerado - pelo menos isso, o filme não quer se passar por sério. Para ter uma idéia, em uma determinada cena Patience está na roda gigante de um parque de diversões com seu pretendente, quando o brinquedo enguiça, sai dos eixos, perde metade das engrenagens e parafusos e quase mata os ocupantes. Claro que a Mulher-Gato salva o dia, mas a vida continua como se nada tivesse acontecido: a polícia não aparece, o parque não fecha, a roda gigante aparece intacta e o público volta a comer algodão-doce da maneira mais blasé possível.
Mas mesmo este tom propositalmente absurdo não muda o fato de que Mulher-Gato é um dos filmes mais mal-escritos que já passaram pelo cinema, com uma trama que rivaliza mesmo as famosas produções da Xuxa. E, por conta disso, está amargando um triste fracasso. Triste, pois o filme tem seus méritos.
O primeiro e mais marcantes deles: os efeitos especiais, de primeiríssima qualidade. Primeiríssima mesmo! As cenas da Mulher-Gato pulando de prédio em prédio estão no mesmo nível dos passeios do Homem-Aranha por Nova York. As únicas tomadas com efeitos especiais que desagradam envolvem gatos digitais que podiam muito bem ser substituídos por bichanos de verdade - todo o resto, naturalíssimo.
A ação é, também, muito boa. A luta na joalheria, a primeira do filme, é excelente, coreografada com bastante criatividade e cheia de efeitos digitais que não estragam a empolgação pela artificialidade. Já o confronto final... bem, este eu devo confessar que não vi, pois estava ocupado demais gargalhando com uma certa fala constrangedora da Sharon Stone - que maneira eficiente de anular completamente o clímax de um filme!
O elenco de apoio não apóia muito, para falar a verdade. Benjamin Bratt, o policial Tom Lone (aposto que os roteiristas pensaram muito até chegar em um nome tão ruim), casinho amoroso da Mulher-Gato, é completamente sem sal. Aliás, se o ator interpretar mais um policial corre o risco de acabar achando que é um de verdade, de tanto que repete o papel. Já Alex Borstein, que interpreta sua amiga Sally, garante bons momentos com tiradas ótimas e muita simpatia, na única atuação realmente boa do filme.
E quanto à direção de Pitof? O que dizer?
Bem, Pitof deveria ter continuado como diretor de efeitos especiais, coisa na qual era até bem competente. Foi muita ousadia da Warner entregar um filme de cem milhões de dólares na mão de um estreante - ainda mais um com um nome destes. Há momentos do filme que mais parecem videoclipes, o uso da música é feito de maneira primária (começa a ação, começa a música, encerra a ação, encerra a música) e certas edições de diálogos são dignas de reality shows da MTV. Uma direção ruim, mas que não pode ser culpada pelo fracasso do filme.
Resumindo o drama: Mulher-Gato não é a decepção que imaginávamos, mas uma decepção completamente nova. Embora não seja uma bomba tão grande como centenas de outros filmes, está longe de ser bom, pecando pela pretensão, extravagância e amadorismo de seus realizadores e jogando fora um excelente trabalho técnico. ¤
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