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I Hear Dead People *
Por Marcos Vasconcelos — Terça, 10 de agosto de 2004
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Comecei nessa vida de ouvir gente morta lá para os idos de mil novecentos e bolinha, quando um tio meu me apresentou o Pink Floyd de Syd Barrett, que na verdade já tinha ido para o outro lado ainda em vida. Mas foi lá para o começo dos anos 80 que José Feliciano, que assim como o amor, é cego, me apresentou Light My Fire, dos Doors. Naquele dia, eu tive certeza de que uma música daquela não era coisa desse mundo.
Minha vida setentista foi muito regada a Yes e Genesis, tudo gente "nice guy". Só depois de muito tempo conheci o Led Zeppelin de John Bonham, alucinado baterista que morreu afogado em vodca. Passei a tomar vodca, desde então. Daí, tive minhas experiências com Jimi Hendrix, principalmente com o pequinês da minha avó, xará do uitar hero. Ainda não entendia bem o simbolismo de se incendiar uma guitarra no palco, apenas o de incendiar o palco com uma guitarra. Não achei uma boa idéia tacar fogo no meu velho Di Giorgio, afinal era do meu pai a viola. Preferi aprender a tocá-la primeiro.
John Lennon morreu em 80, todo mundo chorou. Eu não cheguei a dizer que o achava um chato. Fiz um esforço e chorei um pouquinho, escondido, para ninguém ver. Os Beatles mesmo, só fui devorar por completo quando não tinha mais jeito, no começo de 2004, depois da partida de George Harrison (foto), esse sim, um belo espécime de esquisito. Eu gostava dele. My Sweet Lord sempre foi um cartuchinho perene na minha rádio cabeça.
Em 80 também, Vinícius, o poetinha, foi embora. Em 82, foi Elis Regina quem partiu. Doidaça, doidaça... - O que é isso, meu filho? - disse minha mãe. Ela gostava de Elis, mas acho que aquele negócio de overdose a incomodara. Sorte da pimentinha, não viveu para ver o desastre que é o seu filho cantor. Também não viu que beleza de menina é sua filha cantora. Vovó Elis, quem diria...
Ah! 1985, Rock in Rio, Freddie Mercury ensinando aos tupiniquins como se faz um êh!ôh! com duzentas mil pessoas. Tinha o público na mão, como diria Oswaldo Montenegro. E Cazuza, então? com seu Barão Vermelho, pós-Richtofen e pré-Schumacher, pisou fundo na emoção da galera. Mas Cazuza se foi, cinco anos depois, dois anos antes de eu comprar meu primeiro discman e meu primeiro CD: O Tempo não Pára - ao Vivo. Júlio Barroso, fazia tempo, tinha se atirado do prédio. Sacana.
Lembram da viola? Eu aprendi a tocar e, na década de 90, tive um ídolo: Raphael Rabello, o gênio, o mito. Tudo era MPB, tudo era música brasileira. E então, ele foi tocar pra Nosso Senhor. Tom Jobim (foto, com Elis) também foi, e para economizar, eu comprei o CD em que o primeiro tocava as músicas do segundo.
E no começo dos anos 90, veio o grito: " - Here we are now, entertain us". Kurt Cobain (foto) berrava no microfone, suas guitarras violentas e cheias de feedback ganiam na sua mão, para depois morrerem espatifadasno palco. Eu, que detestava o Guns'n Roses, me rendi ao grito grunge do Nirvana, que exterminava os poseurs da face da terra média.
Seis anos de pennyroyal tea na idéia, e eis que em 94, ele deu um tiro na cabeça. Nesse dia eu fiquei triste. Triste mesmo. Joguei fora todas as minhas camisas de flanela em pleno inverno e foi a coisa mais radical que já fiz na vida. Como não achava morfina, tomei toda a vodca que apareceu pela frente e chapei. Por coincidência, o Brasil foi tetra naquela mesma época.
Renato Russo não disse adeus, mas se foi mesmo assim em 96. Depois de tutti achelas cosi itagliani, pensei eu, devia dizer "já vai tarde". Mas não disse. Eu estava nos Estados Unidos e não achei nada do Legião Urbana para escutar. Bad Mood. Tim Maia, eu nem lembro quando foi. Tinha aquela piada, onde ele, doente que estava, dizia "mais grave, mais agudo". Brincadeira besta. Dizem que ele aparece de vez em quando no cemitério do Cajú para assustar os transeuntes. Não acredito, pois não passa ninguém naquele lugar lúgubre que é o Caju. Já no paraíso de Jericoacoara, eu descobri o iugoslavo Mitar Subotic, o Suba. Mas ele também já havia passado... Bem passado, na verdade*². Minha namorada, anos depois, me apresentou Janis, entre taças de vinho e um frio da porra. Só que era verão, e a noite de dezembro que nos levou Cássia Eller foi quente. Outro dia em que eu fiquei triste. De tanto pedir malandragem, acabou traída por ela. Cássia levou meu sorriso, deixou-me um gosto de corrimão de puteiro na boca.
E assim, enquanto o Kardec Hall*³ não agenda um show de Elis cantando músicas de Maria Rita, ou um puta show de rock de Cazuza e Cássia, enquanto o Mesa Branca Atlético Clube de Pilares não começa a divulgar a nova dupla sertaneja João Paulo e Leandro, ou a SepulRecords não entrega in loco todos os prêmios e menções honrosas que o rapper Sabotage andou ganhando nos últimos meses, eu vou escutando meus disquinhos de além túmulo. E - que remédio? - com a vodca do lado, que é para esquentar um pouco.
Discos recomendados:
- Dois - Legião urbana
- O Tempo não Para - Ao Vivo - Cazuza
- Nevermind - Nirvana
- Todos os Tons - Raphael Rabello
- Acústico - Cássia Eller
- Elis & Tom - Elis Regina e Tom Jobim
- Led Zeppelin III - Led Zeppelin
- All Things Must Pass - George Harrison
- São Paulo Confessions - Suba
* Título roubado descaradamente do meu amigo Padre Levedo (www.padrelevedo.hpg.ig.com.br/index.html).
*² Imperdoável humor negro. Foi mal.
*³ Valeu, Thania.
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