Eu também não!

Por Luiz Eduardo Ricon — Sexta, 6 de agosto de 2004

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Ainda nem vi o filme Eu, Robô mas uno-me aos colunistas aqui do SoBReCarGa: Asimov definitivamente não combina com Will Smith, nem com explosões, perseguições ou outros substantivos que soam como aumentativos. Aliás, se há algo que mereça aumentativo no texto e nas idéias de Isaac Asimov é exatamente isso: o texto e as idéias.

Porém, mesmo sem ter visto o filme, o que li sobre ele já me serviu para cristalizar uma sensação incômoda de anos e anos que finalmente foi tomando forma de pensamento, e de um pensamento um tanto quanto mórbido:

“A ficção científica no cinema morreu!” (posso até ouvir minhas palavras ecoando alguns segundos no auditório lotado)

Bom, deixando de lado o óbvio sensacionalismo apocalíptico dessa frase, que gerou uma discussão enorme no carro ontem à noite, vou tentar explicar meu ponto de vista:

Do jeito que se faz cinema hoje em dia em Hollywood, é praticamente impossível adaptar-se a contento um obra clássica de ficção científica, ou mesmo gerar-se um roteiro que seja realmente digno de ser classificado como uma obra de FC.

Não, não acho que Matrix se encaixe nessa categoria. Tá certo, é um ótimo filme, revolucionário em termos de efeitos especiais, mas como história de ficção científica é até bem rasteirinho e cheio de furos demais. E acreditem, vocês não vão querer que eu fale sobre isso...

Para que vocês entendam do que estou falando, vou dar um exemplo. Sabem qual foi (para mim, viu?) o último filme de ficção científica de Hollywood que realmente merece este rótulo: Gattaca - A Experiência Genética. Um filme menor, de orçamento que não era estratosférico e de sucesso igualmente modesto. Um filme de FC no melhor estilo que era seguido pelos hoje considerados “clássicos” do gênero, nos anos 60 e 70.

Filmes como Farenheit 451, por exemplo, que aliavam excelentes roteiros, direção, atuações e, acima de tudo, traziam reflexão, contestação, questionamento.

Afinal, é para isso que serve a (boa) ficção científica.

A literatura de ficção científica é um gênero especulativo, uma forma de expressão das angústias, dos dilemas e das grandes questões sociais e humanas que se colocam diante do mundo a partir do surgimento das novas tecnologias, do avanço da “ciência” e das consequentes mudanças na sociedade.

E isso não tem nada que ver com explosões, perseguições, efeitos especiais ou qualquer outra pirotecnia cinematográfica.

Vamos ser mais específicos: pegue um autor de ficção científica badalado como Philip K. Dick, por exemplo. Suas obras são constantemente adaptadas para o cinema, certo? Ok, algumas delas com orçamento, elenco e diretores milionários, outras com o Ben Afleck...

Mas não importa. Todas falham igualmente em captar a essência do que levava Philip K. Dick a escrever o que escrevia: a ambiguidade social, o dilema entre o real e o ilusório, a fraqueza e a torpeza humanas. Tudo isso desaparece em meio a uma avalanche de efeitos de computador, pulos, tiros, meneios, sorrisos ou músculos do galã da vez. São filmes bons? Às vezes. Representam obras de ficção científca de qualidade? Dificilmente...

Deixando o Ben Afleck de lado (senão é covardia!) vejamos o exemplo de Minority Report - A nova Lei, com Tom Cruise e Spielberg, o último arrasa-quarteirão inspirado num autor clássico de FC (só para fazer um paralelo com o atual Eu, Robô).

Você gostou do filme? Eu também.

Mas com certeza quem já leu uma linha sequer de Philip K. Dick sabe que, ainda que o esqueleto da história, com suas reviravoltas e revelações esteja ali, ainda fica faltando alguma coisa, que vem a ser justamente a “essência” do que K. Dick queria dizer. Coisa que não acontece, por exemplo, com Blade Runner, o caçador de andróides, de 1982 (talvez o último verdadeiro clássico de FC no cinema).

Nesse caso, o que faltou no Spielberg sobrou em Riddley Scott: respeito!

Blade Runner pega uma história de Dan O'Bannon, leve e livremente inspirada num romance de Philip K. Dick e consegue ser mais fiel do que se tivesse sido literal. Já Minority Report pega emprestada a griffe Philip K. Dick (criada por Blade Runner) para agregar algum valor e conteúdo a um mero exercício estilístico e estiloso de Cruise e Spielberg.

Há um axioma conhecido em Hollywood que diz que quando acabam as idéias do roteiro infalivelmente começa uma perseguição de carro. Pois bem, Spielberg inovou e resolveu interromper uma perseguição só para enxertar um comercial de carro (a cena da luta na linha de montagem do Lexus, lembra?). Enquanto isso, a história (e Philip K. Dick) que espere o cheque do patrocinador compensar...

É por isso que eu sustento que hoje, com os orçamentos, efeitos especiais e músculos, lábios, seios e glúteos artificialmente inchados, não dá mais para se fazer um bom filme de ficção científica. Pelo menos não no esquema cinema-pipoca-refrigerante.

Estou falando de um filme que provoque a platéia, que não seja óbvio, que gere conversa e não apenas comentários, que faça pensar e não apenas gastar. Isso, meus amigos, não se encaixa mais no grande esquema das coisas que governa a máquina de Hollywood.

É por causa dessas exigências do cinemão que (no meu entender) a ficção científica no cinema morreu. Pelo menos até que ressuscite nos filmes independentes, de baixo orçamento, oriundos dos circuitos de arte, universitários ou dos fan-films.

Porque se depender dos astros e estrelas de Hollywood, o espaço entre as orelhas do espectador vai continuar sendo a fronteira final, um buraco negro inatingível para os tiros, explosões e músculos em cartaz nos multiplexos.

Quanto ao Eu, Robô? É... eu também não. ¤




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