Eu, Robô: surreal...

Por Douglas Donin — Sexta, 6 de agosto de 2004

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Eu odeio aqueles nerds chatos (não que eu não me considere um nerd, longe disso, apenas gosto de me imaginar como não sendo assim tão chato) que, saindo do cinema após assistir a um filme adaptado, ficam enchendo nossos ouvidos com "Ah, mas o livro é diferente", ou "Ah, mas no livro, não é a Arwen que salva o Frodo", ou "Ah, mas nos quadrinhos, a teia vem de um lançador mecânico". Estes caras são um saco, são incapazes de reconhecer que é impossível - ou no mínimo absolutamente inconveniente - manter a fidelidade total e absoluta às obras originais.

Pois é. Odeio estes caras, mas hoje não tive alternativa. Saí da sessão de Eu, Robô chocado. Atônito. Perplexo. Não que o filme seja ruim - mesmo porque não é, depois eu falo disso - mas porque foi, de certo modo, uma experiência surreal.

Comecei a escrever esta crítica, na minha mente, alguns minutos antes do filme começar. Parei na frente do cartaz do filme, que mostra Will Smith (três vezes), explosões, armas. Se o título no cartaz fosse "Fúria Explosiva" ou "Explosão Máxima", ou qualquer coisa que o valha, eu não ficaria surpreso.

Mas o cartaz dizia Eu, Robô. Isso era o pior. Era insano. Minha sensação era de estar em uma espécie de realidade alternativa, em um episódio do South Park. Sentia que, se eu virasse para o lado, veria um cartaz com o Vin Diesel empunhando uma M-16 ao lado da Beyoncé seminua, com uma explosão ao fundo e escrito "Baseado na obra de Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser".

Certo, estou sendo extremamente nerd e radical. "Tolerância com adaptações", me diriam, "é o que você sempre pregou, Douglas". Tudo bem. Mas, deixem-me explicar o motivo de todo este drama: Eu, Robô, o filme, não é uma adaptação fiel. Não é sequer uma adaptação. Não é sequer baseado no livro. Bem, depois de ver o filme, duvido até mesmo que o roteirista tenha ouvido falar em Asimov e na obra original, e escolheu o título por acaso. Ou isso, ou este filme é parte de um ritual místico para ressuscitar Isaac Asimov, nem que seja fazendo-o se levantar em fúria da tumba. Eu, Robô - que, eu repito, é um bom filme - não apenas negligencia o estilo e o formato da obra original - o que seria até compreensível, se fosse só isso - como vai diretamente contra seu espírito, sua idéia e mensagem. O mesmo que filmar Stupid White Men, do Michael Moore, como uma elogiosa cinebiografia de George Bush.


Explico: até Asimov, a literatura de ficção não tinha sido muito legal com os robôs. Embora os autômatos já existissem desde a mitologia grega, e tenham dado origem a muitas lendas medievais, como os golens e construtos, considera-se o ponto inicial deste tema na ficção científica o romance Frankestein, de Mary Shelley. Mesmo antes disso, os autômatos sempre foram tratados como criaturas relativamente más, prejudiciais, que uma hora ou outra resolvem se voltar contra os criadores - talvez como reflexo de um tabu religioso, do pensamento de que só Deus poderia criar vida, animar outros seres. Assim a srta. Shelley colocou uma pedra no assunto, consolidando o status dos robôs como seres temíveis e inevitavelmente rebeldes. Não era o nascimento, mas sim, o batismo oficial, do chamado "Complexo de Frankestein", a consolidação de uma gigantesca paranóia literário-científica que determinou toda a literatura de FC da primeira metade do século seguinte - com seus robôs assassinos do espaço sideral - e que nos trouxe visões aterradoras do futuro como Matrix, O Exterminador do Futuro e inúmeros outros, e que nos inspira temores quintessenciais até hoje, quando falamos em clonagem, nanotecnologia e na Microsoft.

Foi preciso o gênio de Isaac Asimov para remover esta gigantesca nuvem negra sobre o assunto. Asimov não concordava com esta tendência pouco amigável dos autores tradicionais em retratar os robôs como máquinas assassinas disparadoras de lasers que tinham como único interesse obliterar os Insignificantes Humanos da existência. Na verdade, Asimov sentia uma grande simpatia pelos nossos irmãos metálicos - talvez uma paixão pela sua simplicidade e aparente invulnerabilidade à capacidade humana de fazer besteira, uma chance de começar de novo nossa civilização, não nos substituindo por seres melhores, mas nos dando uma mão confiável e segura para segurar em nossa evolução. Ao longo de muitas obras, Asimov se dedicou a desmontar o "Complexo de Frankestein", mostrando a questão robótica com uma profundidade filosófica e otimismo inéditos.

Em O Homem Bicentenário (que virou um desnecessariamente meloso filme com Robin Williams), por exemplo, Asimov conta a história de Andrew Martin, um robô que nasce como mero utensílio doméstico mas que, ao longo de seus duzentos anos de história, torna-se um humano completo, física, mental, emocional e legalmente. Fica clara a intenção de Asimov, de demonstrar que "Ser Humano" e "Robô" são distinções meramente superficiais, e que, no momento onde há uma mesma essência, uma mesma natureza, não é a sua origem que vai te fazer melhor ou pior, com mais ou menos defeitos - coisa muito relevante de ser discutida nos Estados Unidos dos anos 60.

Eu, Robô, por sua vez, é um livro de contos passados ao longo de um grande período de tempo, envolvendo a evolução dos robôs, dos modelos mais simples aos mais complexos. Apresenta as famosas Três Leis da Robótica, diretrizes que regulam os comportamentos dos autômatos, mostra alguns dilemas possíveis resultantes da aplicação destas três leis, e, acima de tudo, tenta limpar a má fama dos robôs, nos aproximando da idéia de que a humanidade pode, com responsabilidade, "ter seus próprios filhos", mesmo que estes sejam sintéticos.

E, adivinhem? Mesmo assim, Eu, Robô virou um grande, gigantesco, gordo e explosivo filme de Complexo de Frankestein, com direito a todos os elementos do gênero, coisa que faria Isaac Asimov arrancar as costeletas de raiva.

Mas, apesar disso, um bom filme. Um bom e acessível filme de ficção científica (cuja trama sofre pelo excessivo didatismo, o qual entrega ao espectador respostas para enigmas duas horas antes que os personagens encontrem a solução) e um bom, embora exagerado, filme de ação - isso quando a sua atenção não é tomada de assalto pelo uso de lugares-comuns, ou quando uma ou outra tomada transplantada de Matrix ou (acreditem) "Coração Valente" aparecem na tela deslocadas como um fã-clube do Sylvester Stallone no Iraque - além de possuir peças publicitárias que, de tão deslavadas e cara-de-pau, chegam a parecer coisa de cinema nacional.

Mas o filme é bom (já disse isso). Descontando o fato de que não tem nada em comum com a obra original - talvez, apenas as Três Leis e alguns nomes - e analisando unicamente como filme de FC/ação, veremos que possui uma história interessante, embora simples, bons efeitos especiais, um ritmo bom. Muito bom, para um blockbuster com o Will Smith; aliás, muito bom para um blockbuster.

Claro, existem problemas. Will Smith é um deles: embora seja um astro carismático (e muito), simpático e com potencial para ser um dos mais naturais, adequados e agradáveis ícones do cinema de ação moderno, está terrivelmente mal-aproveitado. Aliás, Will Smith É terrivelmente mal-aproveitado, sempre repetindo o mesmo papel (o papel de Will Smith, mesmo), e está se transformando em uma caricatura. Uma pena para um ator tão talentoso, capaz de ter o desempenho impressionante que demonstrou em Ali - aliás, o único filme do qual me lembro que lhe cobrou um desafio significante, o qual cumpriu além de qualquer expectativa, não entregando apenas mais uma repetição automática de mais do mesmo.


O restante do elenco é, a bem dizer, inexistente. A Dra. Susan Calvin (Bridget Moynaham), personagem principal do livro (os contos são casos importantes da história dos robôs apresentados por ela, durante uma entrevista), que na obra é uma mulher pouco atraente, fria, e assexuada, virou um bonito acessório do herói, mas que não compromete - claramente, só jogaram o nome da doutora em cima da típica ajudante feminina que em algum momento do filme fica com a camiseta molhada. A personagem, sua evolução e caracterização são tão típicos de um filme do gênero que nem se nota a atriz. James Cromwell, por sua vez, ganha o dinheiro mais fácil da sua carreira, atuando durante no máximo quinze segundos e ainda fazendo parte do elenco principal.

Mas o principal problema é, realmente, a sua condição de blockbuster hollywoodiano, o que exige certas coisas: simplicidade, acessibilidade (beirando o desprezo à inteligência do espectador, algumas vezes), mastigação excessiva de alguns fatos que entregam boa parte da trama, certs clichezinhos de aceitação garantida perante o público, piadinhas desnecessárias e ridículas (lembrem-se que é um filme com o Will Smith).

No entanto, vale a pena. Eu, Robô tem todo o potencial para agradar a todos, fãs de Asimov e leigos (talvez muito mais a estes), apenas deixando uma sensação de "estava no caminho certo, podia ser bem mais complexo" nos amantes de uma ficção científica mais profunda. ¤




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