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O mais novo é o mais antigo
Por Leonel Dorkboy — Terça, 14 de outubro de 2003
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Atualmente, estamos vendo nos quadrinhos um movimento que já deu as caras na música, literatura, cinema e em praticamente qualquer mídia. Sim, o que estamos vendo nas HQs é o reinado do pós-modernismo.
E o que vem a ser esse bicho? Bem, longe de entrar em explicações artístico-babaco-culturais, vamos explorar apenas uma das características do pós-modernismo que nos interessa: as releituras. Já notou como a maior parte dos bons títulos em HQs hoje em dia são releituras do passado? Nós temos Superman: Red Son, uma releitura da origem do Super-Homem, imaginando o que aconteceria se a nave de Kal-El tivesse caído na Ucrânia, pela série tradicional de releituras Elseworlds. Temos The Pro, de Garth Ennis, onde uma prostituta recebe super-poderes e entra para um grupo bastante semelhante (para não dizer quase igual) à Liga da Justiça. Temos a linha Ultimate inteira, da Marvel Comics, onde todas as histórias e personagens são revisões dos clássicos da editora. Temos The Authority, um super-grupo que conta com versões de muitos dos heróis mais conhecidos do mundo, e já enfrentou o universo Marvel inteiro, comandado pelo próprio Stan Lee (com outros nomes, é claro). Temos até Supreme Power, que é uma releitura de uma releitura, já que apresenta uma nova versão do grupo de mesmo nome, da Marvel, que nada mais era do que uma versão da Liga da Justiça no universo da Casa das Idéias.
Pode-se pensar que isto é ruim, que é uma falta de imaginação, que nós estamos pagando para ler as mesmas histórias repetidas. Bem, analisando-se friamente, isto está longe de ser o caso. Afinal, o gênero “super-heróis” está chegando a um ponto onde é realmente difícil ver coisas novas. Então, ao invés de esconder as referências em cópias malfeitas dos personagens conhecidos (como nos anos 90, reinado da editora Image, e seus personagens quase todos copiados dos X-Men), por que não abraçá-las? É isto que estamos vendo: os roteiristas estão deixando de lado coisas enfadonhas como origens que tentam ser inéditas, universos criados do nada que tentam ser tão complexos quanto os das duas grandes editoras e artifícios mirabolantes para esconder inspirações, e partindo para o que interessa, ou seja, as histórias.
Vejamos: em The Pro, por exemplo, o que nos interessa é o que aconteceria se uma prostituta ganhasse super-poderes. Para que então criar todo um panteão de personagens pseudo-originais, e estabelecer suas personalidades e paradigmas, para então quebrá-los com a entrada de nossa protagonista? Ao invés disso, Garth Ennis usou arquétipos mais do que conhecidos (Super-Homem, Batman, Lanterna Verde...), criando uma identificação instantânea do público, e nos poupando de exposição desnecessária. Quando você vê o cara grandão de queixo quadrado e capa esvoaçante, “mais poderoso que uma locomotiva”, está na cara que é uma versão do Super-Homem. Para que complicar?
Isso me lembra um episódio de South Park, onde um personagem (Butters) não conseguia fazer nada porque sempre via na TV que o que ele pensava já havia sido feito pelos Simpsons. Produzindo um episódio com essa temática, os criadores da série na verdade fizeram algo novo. Não é à toa que são os personagens da DC Comics que recebem mais releituras. Neste caso, o mais antigo é o mais novo.
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