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Nós vimos: Mulheres Perfeitas
Por Pedro Moura — Sexta, 30 de julho de 2004
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O mundo é mesmo das mulheres
Novo filme de Nicole Kidman promete acirrar a guerra dos sexos.
Nesses tempos de pós-modernidade, cheio de inimigos invisíveis e paranóia coletiva, onde os papéis de macho-fêmea já não são valores universais, os norte-americanos devem estar sentindo saudade dos velhos tempos de abundância, felicidade e incondicional esperança no futuro; um mundo onde era possível ter um bom emprego, casar-se com uma boa mulher e encher a casa de filhos. Então, já que se trata de uma sociedade onde tudo é vendável, onde a força do dinheiro pode comprar uma suposta felicidade, por que não criar uma mulher sob medida para os seus gostos e preferências? Pois o filme Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 2004) traz de volta a possibilidade do sonho americano... pelo menos o sonho masculino.
O roteiro é uma adaptação do romance de mesmo nome, remodelado de acordo com os novos tempos, o filme gira em torno da guinada radical que uma família novaiorquina precisa dar para sua própria sobrevivência. Joanna Eberhart (Nicole Kidman) é uma alta executiva que, após sofrer um colapso nervoso, faz suas malas e, junto com seu marido Walter (Matthew Broderick) e filhos, recomeça uma nova vida na cidade de Stepford, no interior de Connecticut.
A cidade parece uma cápsula do tempo rumo aos anos dourados do pós-guerra, o que se mostra evidente não só pelas roupas e maneiras, mas principalmente pela personalidade estranhamente semelhante de suas moradoras. Todas parecem saídas de uma linha de produção industrial: são exímias donas-de-casa, dedicadas a seus maridos e filhos, lindas, sorridentes e... submissas. Joanna acaba se relacionando com outros moradores que, como ela, não se enquadram ao “estilo Stepford” de vida, e juntos descobrem que algo está muito estranho naquela cidade...
Mesmo sendo a releitura de um filme de 1975, Mulheres Perfeitas trata de um tema bastante atual: as mazelas da vida moderna, mais especificamente da vida em família. Cheio de citações da vida na pós-modernidade, como um diálogo sobre marcas de antidepressivos, e gags que remetem aos seriados da TV paga, o filme retrata na cidade de Stepford um espelho da sociedade norte-americana, levada às suas últimas conseqüências. Seus habitantes são, basicamente, homens bestalhões que não sabem – nem querem – tomar conta de suas próprias vidas, e suas mulheres-mães, uma representação da utopia anti-freudiana onde é possível ser homem e filho ao mesmo tempo: nada mais apropriado aos dias de hoje. Além disso, o filme acaba sendo uma comédia de costumes que, sutilmente, traz ao espectador uma série de questionamentos nada superficiais, mostrando como seria a sociedade que o sonho americano se propõe: o consumismo levado ao nível das relações pessoais.
Nicole Kidman sozinha já promete rechear as bilheterias, e reafirma sua habilidade em representar mulheres transtornadas – numa versão bem mais light. O filme ainda traz um elenco consagrado, que segura bem a peteca e não deixa cair o ritmo: Bette Midler, Glenn Close, Christopher Walken, e Jon Lovitz. Vale a pena atentar como o filme tenta fazer uma transição entre a comédia e o thriller, mas que se perde, não só pelo absurdo das situações, mas também pelas constantes piadas, que mesmo bem colocadas tiram todo o clima tenso que o filme original se propôs. Mesmo assim é diversão garantida, e, por detrás do estilo humour as a release, fica dado o recado: a vida moderna é uma droga. A princípio parece ser um roteiro bastante machista, mas confira o filme, e acredite: o mundo é mesmo das mulheres. ¤
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