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O Demônio de Mil Faces
Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 29 de julho de 2004
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Ron Perlman é um cara estranho.
Não me refiro aos seus hábitos ou preferências, coisa que, aliás, desconheço totalmente. Estou falando da cara dele mesmo...
Quem já teve a chance de assistir algum outro filme dele, além de Hellboy, sabe do que estou falando.
Mais rapidamente descrito e reconhecido como Salvatore, o corcunda de O Nome da Rosa, (lembrou agora?), Perlman se especializou em emprestar seu porte e estranheza a um sem número de outros personagens igualmente estranhos e marcantes. De corcunda a homem das cavernas, de demônio a vampiro, ele já fez um pouquinho de tudo, mas sempre com algum toque weird.
Afinal, um ator com aquela altura e aquele rosto comprido, de olhos estranhamente próximos e brilhantes, sobrancelhas grossas e queixo largo e projetado para frente não tinha mesmo como passar despercebido em filme nenhum. Por isso, por menor que seja o papel, por pior que seja o filme, a gente sempre se lembra do Ron Perlman e dos papéis que ele interpreta.
Das cavernas ao inferno
Na pré-história da sua carreira, em 1981, Ron Perlman estrelou o longa A Guerra do Fogo, dirigido pelo mesmo Jean-Jacques Annaud de O Nome da Rosa, onde contracenava com a deliciosa (na época) Rae Dawn Chong numa aventura antropológica passada na época da descoberta do fogo pelos homens das cavernas. Esse é (até hoje!) um ótimo filme, com um impressionante desempenho de Perlman.
Mas que eu me lembre, a primeira vez que vi Ron Perlman foi no seriado A Bela e a Fera, de 1987, onde ele interpretava um sensível, culto e heróico homem-leão, criado por um cientista-filósofo-sábio-e-ermitão, que vivia num lúgubre mas ao mesmo tempo luxuoso mundo subterrâneo encravado em plena Nova York. Nesse seriado, que abusava um pouco demais dos plots românticos, ele fazia par com Linda Hamilton, que depois seria assombrada pelo Exterminador do Futuro pelo resto de sua carreira. A Bela e a Fera teve muito sucesso, inclusive no Brasil, e Perlman teve a chance de interpretar, escrever e dirigir, ganhando muita popularidade, especialmente entre as moças...
Depois disso, estranhamente, Ron Perlman amargou uma série interminável de papéis menores, em filmes menores ainda (inclusive o esquecível Loucademia de Polícia 7: Missão Moscou). Nessa época, ele chegou a emprestar não a sua figura mas a sua voz (igualmente estranha e marcante) a personagens de desenhos animados nas séries de TV Batman Animated (onde intepretava o Cara-de-barro), Aladdin (da Disney), Mortal Kombat ou Fantasma 2040.
Nos anos 90, o retorno de Ron Perlman ao sucesso viria através de um outro filme francês, Ladrão de Sonhos, do diretor Jean Pierrre Jeunet, dono de uma visão estética tão estranha e marcante que o grandalhão Perlman caía como uma luva em seu elenco-dos-sonhos. Não é nada estranho que Perlman tenha reaparecido para as grandes platéias americanas em outro filme de Jeunet, o esquisito Alien: A Ressureição, que apesar do sucesso é, na minha opinião, o pior da série.
Nesse vai-e-vem, Ron Perlman foi cair de pára-quedas no elenco de Blade 2, na pele de um vampiro grandalhão e esquisito (que surpresa...), e acabou ficando amigo do diretor e roteirista (e fã de quadrinhos) Guilhermo del Toro. E vocês sabem quem fazia o desenho de produção do filme? Ninguém menos que o quadrinista Mike Mignola, pai do garoto do inferno.
Não é de se estranhar, então, que os deuses do cinema tenham conspirado por caminhos tão tortuosos para dar finalmente ao grandalhão e esquisito Ron Perlman o seu primeiro papel de protagonista em Hellboy.
Um papel no qual ele está estranhamente à vontade, mesmo debaixo de toneladas e toneladas de borracha e tinta vermelha. ¤
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