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Nós vimos IV: Hellboy
Por Douglas Donin — Quinta, 29 de julho de 2004
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A culpa é do Homem-Aranha...
Houve um tempo em que as adaptações de quadrinhos para o cinema eram sinônimo de fracasso, vergonha e embaraço. O pobre fã de quadrinhos, movido pela lealdade a seus personagens favoritos, comparecia ao cinema entusiasmado, mas era obrigado a assistir bombas tão memoráveis (a lista é grande demais para colocar aqui) que não restava alternativa senão sair do cinema com um saco de papel na cabeça. Mas, como uma vingança merecida, estes tempos terríveis mudaram - o que pode ser claramente observado em Hellboy, adaptação fidelíssima dos geniais (embora obscuros no Brasil) quadrinhos de Mike Mignola.
No final da Segunda Guerra Mundial, os nazistas estavam desesperados. Sem ter como ganhar a guerra, um grupo de cientistas-ocultistas do Reich conduzem um ritual secreto para, já que não podiam vencer mesmo, transformar o mundo em um inferno, abrindo um portal capaz de permitir a passagem de um imenso demônio para o nosso mundo.
Felizmente, um destacamento americano aparece para interromper o ritual na metade, fechando o portal, mas não antes de um demônio-criança conseguir pular para cá. No entanto, ao invés de eliminar o bicho, o bondoso Professor Broom (John Hurt) toma o capeta como seu filho, o cria como um ser humano, o ensina a amar a humanidade e o encoraja a defendê-la das mais medonhas ameaças sobrenaturais.
Esta é a origem do herói, um conceito para lá de bacana, mostrada logo no início do filme de maneira a deixar qualquer um familiarizado com o personagem (como convém a uma boa adaptação de um personagem desconhecido, se comparado com os clássicos da DC e Marvel). E, isso eu posso dizer: o filme é tecnicamente muito bom, claro, fluido e divertido. Mas, infelizmente, assistir Hellboy não deixa uma sensação assim tão boa na boca do público em geral... como se algo, uma coisa imperceptível, mas que incomoda, estivesse errada. O que poderia ser?
Vejamos: o roteiro é decente, baseado em duas importantes histórias do herói. Os personagens são fascinantes, visual e conceitualmente falando. Ron Perlman nasceu para ser o Hellboy. As atuações não comprometem. Os efeitos são de primeira... qual seria o problema, então?
O problema tem dois nomes: X-Men 2 e Homem-Aranha 2.
Sim, isso mesmo. Se há alguns anos nós, pobres e atormentados fãs de quadrinhos, tínhamos que deixar os cinemas envergonhados, hoje em dia a mesa virou, e o padrão está altíssimo. Diretores fanboys passaram a elevar constantemente a qualidade dos antes amaldiçoados "filmes de quadrinhos", tratando-os como filmes de gente grande, e, hoje em dia, não podemos mais utilizar aquele argumento famoso que dizia "bem, para um filme baseado em quadrinhos, está bom".
Filmes de super-heróis cresceram a ponto de se tornar uma categoria adulta e respeitável, capazes de competir com qualquer outra película. X2 é uma ficção científica de primeira, antes de ser um simples "filme baseado em gibi", e O Homem-Aranha 2 arrancou risadas e lágrimas de todos, inclusive de quem nunca abriu nem abrirá uma revista do herói na vida. No entanto, nós, fãs, ainda não aprendemos a curtir estas obras como filmes (e ponto), mas continuamos a compará-los uns com os outros, e isso é um erro: a concorrência é desleal em alguns casos, principalmente neste último mês.
Por isso, embora Hellboy seja um ótimo, descolado e absolutamente divertido filme de ação, temos que ouvir (inclusive de nós mesmos) comentários do tipo "Ah, gostei mais do Homem Aranha...". Querem uma sugestão? Esqueçam os aracnídeos por umas boas duas horas e entreguem-se ao demônio. Ron Perlman (que deve ser um dos atores mais simpáticos, esquecidos e injustiçados do mundo) está excelente, canastrão, sarcástico e irônico, mostrando que sua feiúra não é um mero castigo divino: ele nasceu para interpretar o vermelhão, que parece ter sido criado sob medida por Mignola para o ator. O roteiro também premia Perlman com as melhores tiradas do filme, além de colocá-lo em situações e diálogos espetacularmente banais e naturais.
O restante dos personagens não fica atrás: o "sub-vilão" Kroenen é visualmente um dos personagens mais legais do cinema (coloque um ponto final bem grande e enfático nesta afirmação). Está certo que nazistas são por excelência vilões fascinantes (e com um senso estético maravilhoso), mas Kroenen é uma obra-prima do design de personagens.
O problema é Rasputin, o mauzão da trama toda, uma das mais medonhas e tenebrosas figuras da história mundial, que não tem um ator nem um visual à altura. O Monge Louco lembra mais o Cypher, de Matrix, e não emana "vileza" suficiente cada vez que aparece. Sua ajudante nazista sem sal e sem função também não adiciona nada...
Mas não se engane: Hellboy é um filme divertido, com um herói carismático e repleto de personagens fascinantes. Claro, infelizmente, a sensação de "filme de super-herói de segundo escalão" pode - e com certeza vai - aparecer: neste caso, ponha a culpa toda no Homem-Aranha. ¤
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