O Rock Brasil

Por Marcos Vasconcelos — Terça, 27 de julho de 2004

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O Rock comemora seus cinqüenta anos em 2004. Já o nosso Rock tupiniquim, tem aproximadamente vinte anos de idade. Os teóricos tem várias datas para marcar o começo do Rock Brasil. Eu, como autoproclamado teórico, também tenho a minha, claro. Para mim, tudo começou quando, dentro de um estúdio no Rio de Janeiro, disseram: -"gravando" e Evandro Mesquita soltou a inesquecível frase:
"Sabe essas noites/ Que você sai caminhando sozinho/ De madrugada, com a mão no bolso..."

Pois é. Com a gravação de Você não soube me amar, pela Blitz, em 1982, começava um movimento que duraria em torno de dez anos: o Rock Brasil, conhecido hoje como BRock. Mas, como tudo o que é histórico, o Rock Brasil não começou em si mesmo. Assim como a mulher dos Raimundos, também teve fases, inclusive sua pré-história:


Pré-Rock-Brasil

No final da década de 70 houve um estouro de música pop no Brasil, justamente com a decadência de tudo o que existia de mais roqueiro e alternativo na época: os grupos progressivos, como o Terço, o Bacamarte e o Casa das Máquinas. Rita Lee saía de sua fase Mutantes/ Tutti-Frutti e começava, com Roberto de Carvalho, sua fase Doobie Brothers, com o sucesso Lança Perfume. Nas rádios e programas de televisão (Fantástico, Globo de Ouro), apareciam novas bandas pop, como o Herva Doce, Rádio Táxi, 14 Bis e Roupa Nova, com estrutura de bandas de rock. Nos primeiros anos da década de 80, os mineiros (Beto Guedes, Lô Borges) faziam grande sucesso, mas foi um carioca chamado Lulu Santos que, com seu "Zen-surfismo" (Como uma Onda) arrebatou as rádios. O inglês Ritchie, advindo do finado Vímana (banda onde tocava junto com o próprio Lulu e mais Lobão e Fernando Gama - hoje no Boca Livre), também aproveitou a onda com sua Menina Veneno, onda que também foi surfada por Vinícius Cantuária, que emplacou o sucesso Só Você.

O aparecimento da Blitz em 82, entretanto, rompeu a estrutura ao apresentar elementos absolutamente novos naquele cenário: a ironia, a teatralidade, o besteirol e o cotidiano dos jovens. Vários grupos vieram logo depois. No embalo da onda besteirol, apareceram Kid Vinil e os Heróis do Brasil e Eduardo Dusek, acompanhado dos iniciantes Miquinhos Amestrados. Já o adocicado Metrô, da francesinha Virginie, e o mitíco Gang 90 e as Absurdettes adicionaram mais ingredientes no caldeirão que se formava: referências cinqüentistas, estética junkie e a teoria do amor livre naqueles anos de fim de ditadura. Esta última temáticas também foram assumidas como bandeira pelo Barão Vermelho de Cazuza, que começava a despontar no cenário.


O estouro do Rock Brasil (ou 1ª fase)

Em 1985, a ditadura nem bem esfriara no túmulo e um certo Vital se dirigia para Brasília de moto, para comemorar o enterro dos militares em um show dos Paralamas do Sucesso. Seguindo essa caravana libertária, dezenas de bandas sensacionais surgiram, promovendo um dos mais prolíficos movimentos musicais brasileiros de todos os tempos. Não havia como ficar indiferente. A novidade era que, em contraposição à bossa nova, tropicalismo e jovem guarda, movimentos regionais que ganharam dimensões nacionais, as bandas de rock surgiam de todos os lugares: do Rio de Janeiro vinha o Barão Vermelho, com toda a ironia do poeta Cazuza. Da Bahia, Marcelo Nova e seu Camisa de Vênus, se apresentavam como os sucessores de Raul Seixas, herdeiros de toda sua irreverência. De São Paulo vieram o Ultraje a Rigor, legítimo elo de ligação entre o besteirol pré-BRock e o peso que já se antevia no começo da primeira fase e as letras sombrias e guitarras nervosas do Ira!, de Nazi e Edgard Scandurra, considerado por muitos o melhor guitarrista da época. Do sul, chegavam os acordes tensos e letras proféticas dos Engenheiros do Hawaii. E em Brasília, a meca que inspirou o Paralamas de Herbert, Bi e Barone, surgiram três grupos que sacudiram as estruturas, derramando sobre uma juventude recém-liberta, toda a fúria de muitos anos de silêncio: o Capital Inicial, a Plebe Rude e principalmente o Legião Urbana do messiânico Renato Russo. Por fim, em 1985, um evento mitológico viria a legitimar toda essa turma, que acrescida dos cariocas da Blitz e do açucarado Kid Abelha, tinha pela primeira vez um lugar de destaque junto aos grandes roqueiros do mundo: o primeiro Rock in Rio.

Nos anos seguintes, muitos outros grupos e artistas se firmaram no movimento, de formas às vezes inusitada. Lobão apontava para tudo e todos, sua metralhadora verborrágica, que feria principalmente comportamentos. Léo Jaime e os Miquinhos Amestrados mantinham viva a essência do besteirol cinqüentista, acompanhados de perto pela estética loser do Biquíni Cavadão. No rastro da bela Paula Toller, vinha Dulce Quental e seu Sempre Livre. Supla se aproveitava da onda punk-de-boutique, que deixara frutos depois dos sucessos de Nina Hagen e Billy Idol no exterior. O noneto Titãs, que começara a carreira usando um visual voltado para o brega das boy bands como os Menudos, deu um outro rumo para sua música, e ao lançar o álbum Cabeça Dinossauro, tornou-se a banda mais pesada do Rock Brasil. O RPM de Paulo Ricardo e o Zero de Guilherme Isnard faziam a vertente glam desta fase. E orbitando tudo, Lulu Santos compunha as melhores músicas de sua carreira.


A 2ª fase e o fim

É difícil achar o ponto exato que marcou o fim da primeira e o começo da segunda fase do Rock Brasil, mas sem dúvida as motivações de vários ídolos do momento mudavam. Um dos fatos marcantes desta mudança foi a ruidosa saída de Cazuza do Barão Vermelho. Com a descoberta da doença do poeta do rock, ficou muito claro que a melancolia e o pessimismo haviam vencido a euforia dos primeiros anos. E as bandas de sucesso da época mostraram isso. O Hojerizah, de Tony Platão emplacava a soturna Para os que Estão em Casa. Kiko Zambianchi cantava seus Primeiros Erros e Lobão dizia que O Rock Errou. Renato Russo fechava seu Legião Urbana em um mundo nublado. Os Astronautas de Mármore do Nenhum de Nós eram a metáfora daquilo que "não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar".

O besteirol ainda resistia nas vozes sardônicas do trio Inimigos do Rei, de onde sairia o músico pop - a eterna lei do retorno - Paulinho Moska. Os Heróis da Resistência, de Leoni, exilado do Kid Abelha, voltavam a uma temática impessoal, de amores doloridos e dublês de corpo sem rosto. Os missionários pagãos do Uns e Outros davam seu último respiro em busca da criatividade perdida. Enquanto isso, o Finis Africae e o repaginado Paralamas apontavam o rumo da nova década: a fusão de ritmos. Chico Science viria abençoar o caminho anos depois.

Em 1990, Cazuza morreu, em plena era Collor, em pleno momento de auge dos sertanejos, aos quais se seguiriam os pagodeiros, os grupos de axé e de forró, e por fim, desembocariam na moderna música brasileira, o que Lobão há alguns meses chamou de "papauêra". Cazuza, que dividira em duas as fases do BRock, era o paradigma da geração dos jovens fracassados do pós-ditadura. A mistura bombástia de libertarismo e falta de ideologia preconizada pelo poeta mostrava a que vinha. Os jovens que gritaram palavras de ordem nos shows de rock, eram os mesmo que agora choravam com os pagodes e rebolavam a bundinha nos carnavais.


A resistência enfraquecida

A morte de Renato Russo em 1996, já não mexeu mais com o mercado. O Legião Urbana era um doente no CTI. Renato ensaiou anos antes o que seria o único caminho possível para os grupos que ainda resistiam na cena roqueira do Brasil: a mudança de estilo. Gravou standards, caminho que foi seguido anos depois pelos Titãs. O Kid Abelha encontrou o nicho dos zen-surfistas abandonado por Lulu Santos - agora ligado à música eletrônica - e o arrebatou com sucesso. O Barão Vermelho, capitaneado agora por Frejat, manteve-se em um nível de rock quase underground, até que os projetos solo do guitarrista prevaleceram. O Paralamas manteve-se em sua estrada fusion, buscando para enriquecer sua música, elementos latinos que estavam ganhando público. Os Engenheiros, o RPM, Biquini e Ultraje a Rigor tornaram-se caricaturas de si mesmos, vivendo de inefetivos revivals, voltas estas que só começaram a dar certo quando o Capital Inicial, em seu show acústico, reabriu as portas do já velho Rock Brasil para a nova leva de aprendizes. Os Paralamas, os Titãs, agora um hepteto, o Kid Abelha e mais recentemente o Ira! fizeram o mesmo com inquestionável sucesso.

A cena roqueira agora estava nas mãos do Skank e sua mistura bem azeitada de reggae e britpop; dos punks Raimundos e Charlie Brown Jr.; Do pop-farofa de J. Quests e LS Jacks; do heavy metal inglês do Sepultura; do pseudo-new-metal de CPM-22 e Detonautas; da mistura de distorção e amor do Los Hermanos e dos undergrounds Tijuana e Tianastácia. Paulinho Moska é um cantor de MPB. Lobão é uma lenda independente enterrada em seu próprio sarcófago autista. Herbert Vianna ainda canta e toca, mas já não fala muito bem. Arnaldo Antunes tribalizou, Nando Reis romantizou e se deprimiu com a morte de Cássia Eller, a última grande rockerman do país. Dado Villa-Lobos é produtor. Frejat canta baladas. Léo Jaime virou dublê de colunista e DJ de festinhas dos anos 80. Paula Toller continua gostosinha e Jorge Israel continua viadinho. Evandro Mesquita é ator, Fernanda Abreu faz pop-funk-sambalanço, Lulu Santos remixa-se a si mesmo eternamente, Humberto Gessinger enlouqueceu em seus próprios pensamentos estranhos. Tony Platão comenta futebol das 20 às 21h na Rádio Cidade e é realmente um pândego. Raul Seixas morreu, Júlio Barroso morreu, Marcelo Frommer morreu, Herbert Vianna quase e eu mesmo não me sinto muito bem. Enfim, rock é isso mesmo. O mundo roda, a Skol é redonda e assim vamos levando. Let's rock. And roll. ¤




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