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Nós vimos III: Hellboy
Por Marcelo Tavela — Terça, 27 de julho de 2004
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Que o demônio esteja convosco
Ocultistas nazistas abrem um portal para as profundezas e acabam trazendo à Terra um pequeno demônio com a mão direita feita de pedra. Mantida em uma base secreta no Novo México, a cria do inferno torna-se agente de um braço do FBI especializado em combater fenômenos paranormais.
H.P. Lovecraft, expressionismo alemão, lendas pagãs e romance noir prensado, embalado e pronto para consumo ficam muito bem em quadrinhos. Infelizmente, apesar do legítimo esforço de todos os envolvidos, o conjunto não flui da mesma maneira em cinema.
Em Hellboy, o Professor Broom (John Hurt, que usou muita maquiagem em O Homem Elefante) adota o demônio como seu verdadeiro filho, dando toda a atenção e cuidado que uma criança merece. Na vida real, o pai é o desenhista e escritor Mike Mignola, que cuida de sua criação com o mesmo esmero. Passou oito anos tentando transformar seu diabo em filme. Muitas propostas não confiáveis depois, o diretor de cinema e fanboy Guillermo Del Toro (A Espinha do Diabo) aparece em sua porta, tão apaixonado quanto ele pelo Hellboy. Tanto que fez outro filme de quadrinhos - Blade 2 - só para treinar para este.
Para garantir fidelidade máxima ao seu filho, Mignola atuou como supervisor e produtor executivo do filme – e, no melhor estilo Stan Lee, fez uma ponta não creditada. Conseguiu uma bela transposição para a tela de seu estilo, tanto nos cenários góticos como nos contrastes de luz e sombra e, principalmente, nas caracterizações do personagem-título (Ron Perlman, o corcunda de O Nome da Rosa), seu adorável amigo anfíbio Abe Sapien (corpo de Doug Jones, voz de David Hyde Pierce, o Niles de Frasier) e do esguio Kroenen (Ladislav Beran), já eleito melhor vilão do ano. Porém, como toda adaptação de obra literária, concessões foram feitas. E exatamente aí estão alguns pecados.
Nos quadrinhos, as tramas são irônicas, inteligentes e, à sua maneira, elegantes. Estes três elementos ficam um pouco dispersos no enredo do filme, que procura ser mais palatável aos não iniciados nas HQs. Por conseguinte, alguns momentos trash, porém necessários – como boa parte da seqüência final – acabam não atenuados como no original e pesam demais. Apesar da supervisão do criador, o desvio do filme foi ter se afastado além da conta da essência da personagem.
Mas alguns dos novos elementos funcionam muito bem. O Agente Myers (o estreante Rupert Evans, acima) foi bem sucedido na função de ser ponto de identificação para a platéia. A relação de Hellboy com Liz Sherman (Selma Blair, de Segundas Intenções) atinge o mesmo objetivo. E algumas situações, como a discussão sobre o ano da morte de Adolf Hitler e o diálogo de Hellboy com o garoto de nove anos evocam o clima dos quadrinhos.
Hellboy também tem posição relevante nesse novo subgênero, o “filme de HQ”, que nasce; prova que há vida para personagens de fora do binômio Marvel & DC. E tem o melhor beijo de super-herói desde Homem-Aranha. ¤
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