Avenida Dropsie: um bairro, um universo

Por Rafael Lima — Quinta, 22 de julho de 2004

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“Para os que moram lá, o quarteirão é seu universo”, assim Will Eisner abre o capítulo A Vizinhança de seu álbum New York, A Grande Cidade. E foi através da evolução de um quarteirão ou, mais especificamente, de uma rua, que Eisner escolheu narrar a história de um bairro, uma cidade, muitas gerações, no álbum Avenida Dropsie, a Vizinhança, recentemente lançado pela Devir no Brasil. É talvez seu trabalho mais ousado em termos de escopo, por abranger as mudanças ocorridas ao longo de um século e meio, final do XIX até aurora do XXI.

A história que Eisner conta em Avenida Dropsie ele mesmo já tinha contado antes, pelo menos quatro vezes: em Contrato com Deus, em Ao Coração da Tempestade, em A Life Force e em O Edifício. A difícil infância de crianças judias no Bronx da época da depressão. Um casamento inter-religioso. Gente se metendo em fria por causa de dinheiro, ou de amor. Conflitos étnicos, normalmente terminando com quebra-quebra. Lendas urbanas. Imigrantes novos baixando o valor dos aluguéis. Gorduchas patuscas e velhotes baixinhos. O engraçado convívio de descendentes de italianos e judeus. Um milionário que vai à bancarrota e um ambulante que enriquece subitamente por causa da quebra da bolsa de valores, em 1929. Violência de rua. Humor sutil. Sofrimento. Ternura. Will Eisner não cansa de contar e recontar a mesma história, valorizando a cada vez um aspecto diferente, para compor o complexo emocional e sentimental que formou sua personalidade e alimentou sua nostalgia a partir de 1977, quando voltou ao mundo dos quadrinhos, ao cunhar o termo graphic novel.


Seu estilo é claro ao ponto do didático, uma leitura que pode ser acompanhada e compreendida até mesmo por quem foi apresentado à linguagem dos quadrinhos ontem; nem o acúmulo de cenas numa mesma página torna sua compreensão confusa, nem a redução delas deixa a narrativa truncada; há sempre informação visual em abundância para ajudar a inferir o que ocorreu entre dois quadros – e ainda assim, Eisner abre espaço para sutileza, para o mistério, para a surpresa. É precisamente essa qualidade expressiva o que mais espanta em seu trabalho, mais do que a imensa produtividade que o faz criar praticamente um álbum de 100 páginas a cada dois anos (isso aos 80 anos de idade), mais do que uma articulada distribuição da informação, capaz de enquadrar mais de um século de história num roteiro só, mais do que a fertilíssima imaginação para tipos visuais, que por mais estereotipados e caricaturais que sejam (todo irlandês tem sobrenome começado por O’, todo italiano é gritador), lembram com incrível semelhança figuras humanas.

Se a história é a mesma, então, por que ler Avenida Dropsie? Há pelo menos três momentos em que Eisner mostra completo domínio de seu ofício, que merecem ser comentados independentemente. O primeiro e o mais óbvio deles é uma amostra perfeita do efeito humorístico em quadrinhos: desejando livrar-se de sua mulher, um morador de um cortiço combina com um daqueles esotéricos picaretas um esquema para uma consulta em conjunto do casal. O vidente senta-os lado a lado numa sala escura e faz um estardalhaço, anunciando que, a partir daquele momento, as almas do casal atingiriam estágios de incorporação diferentes; ao fim da baderna, pede que a mulher pegue na mão de seu marido. Quando ligam-se as luzes, ela constata horrorizada que seu marido havia se transformado num cachorro! Após algumas palavras de consolo (e o pagamento), a mulher sai pela porta, levando na coleira seu marido, e o malandro pode sair do esconderijo em que se encontrava, agradece ao picareta e cai fora do país... Nas mãos de um artista qualquer, a piada terminaria ali; com Eisner, ela continua várias páginas depois, com as demonstrações de carinho da mulher para com seu marido, no novo formato, em situações de teor hilariantemente ridículo, quando não patético.


Ainda assim, uma boa piada mesmo um roteirista mais experiente poderia bolar. Há uma cena, no entanto, em que um ladrão tem sua fuga através de um jardim interrompida pelo testemunho visual de uma jovem, que aparece sempre por trás de uma sebe, com a qual ele firma uma acordo de confiança de não denunciá-lo, concluindo com a revelação de um segredo, no último quadro da página, totalmente surpreendente, por conta do truque visual que o revela: tão banal que passara despercebido durante toda a leitura. O terceiro momento é uma daquelas jóias cada vez mais raras, mesmos nos novos trabalhos dos antigos mestres: a cena em que um garoto, completamente envergonhado, pede um preservativo numa farmácia. Captar a ternura daquele momento é só para olhos muito bem treinados, de desenhista e de leitor.

Ler uma graphic novel de Will Eisner não é escolha, é obrigação. ¤




COMPRAS
Livro > Quadrinhos e Arte Sequencial: Compreensão e Pratic (Will Eisner)
Livro > Pequenos Milagres (Will Eisner)
Livro > Nova York: A Vida na Grande Cidade (Will Eisner)
Livro > O Complô: a História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião (Will Eisner)
Livro > Criaturas da Noite (Neil Gaiman)
Livro > Combo Especial HQ (Will Eisner)
Livro > Fábulas: 1001 Noites - Completo (Bill Willingham)
DVD > DVD Sahara (Penelope Cruz, Breck Eisner, Steve Zahn, Matthew Mcconaughey)

 

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