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Música que vem pelo ar
Por Marcos Vasconcelos — Quarta, 21 de julho de 2004
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Foi em 1980 que, ainda moleque, fiz o melhor negócio de toda a minha vida: troquei um velho Telejogo Philco pelo meu primeiro walkman.
Era a distante e provinciana Fortaleza, no tempo em que só havia duas FMs no dial e, em uma delas, um talentoso e divertido locutor chamado Tom Cavalcante começava sua carreira. Era um tempo em que 14 Bis, Roupa Nova, Herva Doce e Blitz dividiam a programação com Djavan, Caetano Veloso, Beth Carvalho e João Bosco, sem falar nos músicos estrangeiros, como Peter Frampton e Michael Jackson, que - acreditem - ainda não era branco.
No carnaval, mesmo as rádios FM tocavam marchinhas para animar bailes. Sem falar que as emissoras de AM irradiavam toda qualidade de música brega e forró, no tempo em que música brega era coisa de empregadas domésticas. As empregadas não existem mais - agora são secretárias do lar - e a música brega virou cult.
Chegando ao Rio em 1986, minha primeira dificuldade foi escolher a rádio, entre as dezenas que preenchiam a freqüência. A grande diferença era o carisma do locutor, misto de humorista e animador de festa infantil que atraía a audiência mais até do que a música em si. Era a época do Rock Brasil, do fim da repressão e da censura. Não havia mais limites para a criatividade e até mesmo coisas como narração de jogo de futebol se tornaram atrações pop nas FMS mais descoladas, sem falar nas inesquecíveis pegadinhas.
Os anos 90 trouxeram a segmentação, no vento das transformações da mídia. Surgiam as definições de "rádio adulta", "rádio jovem", populares, religiosas. A AM se sofisticou com as notícias de primeira hora. As FMs engraçadinhas sucumbiram sob os poderosos jabás da indústria fonográfica, que precisava de mais tempo para massificar seus hits. A música brasileira se transformou e ganhou uma importante fatia de espaço que era compartilhado com os lançamentos estrangeiros e um dia tomou algumas rádios de assalto, monopolizando toda a programação. Foi um tempo em que 14 Bis, Roupa Nova, Herva Doce e Blitz dividiram o espaço com Djavan, Caetano Veloso, Beth Carvalho e João Bosco...
Ei! Espere aí! Quer dizer que, depois de tanto mudar, o rádio voltou ao começo? Não, absolutamente. Na verdade, o mundo mudou, a vida das pessoas mudou, a música mudou. Mas o rádio continua sendo, como sempre foi, o mais fiel espelho de seu tempo, tanto do comportamento desse tempo quanto de seu mercado. Única mídia que nós conseguimos absorver enquanto desempenhamos outras atividades, o único lugar onde a fantasia ilimitada da imaginação não custa fortunas, o único espaço de comunicação que é preenchido na sua maioria, não por quem propagandeia idéias e conceitos, mas por quem faz apenas e tão somente poesia e música, o rádio se recicla apenas para ser o que sempre foi: a voz do inconsciente coletivo, daquele idílico que brinca, sonha e vive sempre com uma música tocando em um cantinho da mente.
E falar de música, ainda que as lojas de CDs estejam cheias, as coleções particulares aumentando, as televisões veiculando os músicos e os shows bombando pela noite afora, será primordialmente falar da música que nos acompanha dia-a-dia, na rua, no carro, no supermercado, no trabalho e em quase todos os momentos de nossa vida. Música que vem pelo ar, nas ondas moduladas do rádio. ¤
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